Eu conheci o ‘Pussy Riot’ depois de um post no famoso blog ‘English Russia’. Mas tenho certeza de que a maioria ignora a existência do grupo, que é Formado por oito garotas – supostamente bonitas.
Apesar de serem consideradas uma versão russa do grupo ucraniano Femen, o ‘Pussy Riot’ se apresenta vestido com roupas coloridas e balaclavas. Tocam um punk rock alucinado, sempre em lugares bizarros, como tetos de ônibus, andaimes em estações de metrô e, recentemente, na Praça Vermelha. E, invariavalmente, acabam presas, graças às letras completamente ofensivas ao governo.
No último final de semana, acabaram em cana após a fatídica aparição na Praça Vermelha, quando tocaram sob -10 graus celsius seu ‘hit’ ‘БУНТ В РОССИИ – ПУТИН ЗАССАЛ’ (Bunt v Rossii – Putin zassal’, algo como ‘Revolta na Rússia – Putin está se mijando’. Durante o ‘concerto’, os policiais meio que não acreditaram na visão improvável e surreal. Ouviram um pouco e, quando a música acabou, os homens da lei recolheram as rebeldes.
Puxando mais um pouco pela memória, e com a ajuda do Google, lembrei que elas também tocaram perto da delegacia onde o dissidente político Alexei Naválnyi era mantido preso, em dezembro. Ou seja, promessa de mais agitação pela frente.
Aqui, a letra do futuro hit:
“ПУТИН ЗАССАЛ”:
К Кремлю идет восставшая колонна
В ФСБшных кабинетах взрываются окна.
Суки ссут за красными стенами
Riot объявляют Аборт Системе!
Атака на рассвете? Не стану возражать
За нашу и вашу свободу хлыстом карать
Мадонна во славе научит драться
Феминистка Магдалина пошла на демонстрацию
Бунт в России – харизма протеста
Бунт в России – путин зассал
Бунт в России – мы существуем
Бунт в России – райот райот
Выйди на улицу,
Живи на Красной
Покажи свободу
Гражданской злости
(проигрыш на квадрат)
Недовольство культурой мужской истерии
Дикий вождизм пожирает мозги
Православная религия жесткого пениса
Пациентам предлагается принять конформность
Режим идет к цензуре сновидения
Пришло время подрывного столкновения
Стая сук сексистского режима
Просит прощения у феминисткого клина.
Бунт в России – харизма протеста
Бунт в России – путин зассал
Бунт в России – мы существуем
Бунт в России – райот райот
Выйди на улицу,
Живи на Красной
Покажи свободу
Гражданской злости
Se tem uma coisa que me emociona é ver gente estudando sério fora do Brasil. Gente que sofre, bota a cara, aprende a língua e encara mil desafios para crescer profissionalmente e representar bem nosso país. Outro dia, conhecia a Oksana Jadvizak, brasileira descendente de ucranianos que voltou ao país de seus ancestrais para estudar História. Ela mandou esse texto que cobre basicamente todos os aspectos da vida de um estudante brasileiro no exterior. Sobretudo no leste europeu. Vale a pena? Muito. Mas você tem que ter em mente que a cobrança é monstruosa e a vida não vai ser nada fácil.
Dá uma lida no texto. É longo, mas é tão bem escrito, fluido e vivo que você nem vai perceber!
ESTUDAR NA UCRÂNIA
Este texto tem como objetivo, a partir de uma experiência pessoal, relatar a realidade universitária de uma estudante brasileira na Ucrânia, as dificuldades iniciais, os desafios, a superação dos obstáculos, os aspectos positivos e negativos, vantagens e desvantagens. De certa forma, este texto pode ser considerado também a voz e o sentimento de muitos estudantes na Ucrânia.
No Brasil, muitos jovens, descendentes ou não de ucranianos, sonham estudar no exterior. Poucos, porém, conseguem. Não basta sonhar e querer. É preciso, sobretudo, ter coragem e motivação suficientes para enfrentar os desafios que a nova realidade impõem. Diria também, é preciso ter coragem e determinação para lançar-se na aventura de fazer novas experiências de aprendizado, de convivência com pessoas de visão filosófica e de mundo diferente e, até mesmo, com nível de conhecimento superior ao de muitos jovens brasileiros.
No início, tudo é muito difícil. A dificuldade de falar a língua ucraniana, de comunicar-se com as pessoas na rua e com os colegas na universidade, de adaptar-se a uma realidade estranha e diferente, de pedir ajuda, pois estrangeiros nem sempre são bem vistos e, às vezes, ser tratado com desprezo e grosseria.
Se num mesmo país existem diferenças culturais enormes, então, o que dizer de continentes diferentes? Onde está o Brasil e onde está a Ucrânia? Além da distância geográfica, existe também uma enorme distância cultural. Costuma-se dizer que os desafios movem o mundo, posi forçam a busca de uma motivação a mais para conhecer aquilo que ainda não se conhece, de aprender coisas novas, de trocar experiências, de fazer experiências novas.
Quinze ou vinte anos atrás, quem, dos jovens brasileiros descendentes de ucranianos, pensava estudar na Ucrânia? Era algo não só impossível, mas impensável. Hoje é realidade que tornou-se possível graças ao Projeto da Representação Ucraniana Brasileira, conduzido pelo seu Presidente, Dr. Vitório Sorotiuk. É uma oportunidade que se abre para muitos jovens das comunidades e colônias ucranianas no Brasil. É claro, para alguns pode ser um privilégio, para outros a realização de um sonho, para muitos uma grande frustração. Na minha opinião, a questão de estudar na Ucrânia precisa ser pensada muito além de uma oportunidade profissional ou de realização de sonhos pessoais, mas também como uma necessidade de troca, e de contribuição com a comunidade ucraniana do Brasil, ou seja, de partilhar as aquisições culturais com os patrícios do Brasil.
Aqui na Ucrânia é muito valorizada a bagagem cultural que cada brasileiro traz e, frequentemente somos desafiados. Nos debates e mesmo nas conversas informais, afloram perguntas sobre o Brasil e sobre a imigração ucraniana no nosso país. É necessário ter um bom conhecimento sobre essas realidades, pois quem vem para cá tem o compromisso de representar o nosso país e o grupo ucraniano, principalmente quando diz “я з Бразилії»! Diga-se de passagem, temos passado por situações bastante constrangedoras diante de perguntas provocativas e comentários depreciativos a respeito do Brasil. É nesses momentos que a gente sente orgulho de ser brasileiro.
A Ucrânia, um país de mais de mil anos de história, antiga e rica arquitetura e construções centenárias, oferece um ensino de qualidade e de nível igual ao dos países europeus. Aqui está umas das mais antigas universidades europeias – a Universidade Nacional Taras Shevchenko, por exemplo.
O ensino funciona em período integral. O estudante passa a maior parte do dia na Universidade: em sala de aula, na biblioteca ou participando de seminários, debates, conferências e outros expedientes acadêmicos. Estudar aqui é dedicação total. A rotina acadêmica consome o dia todo – como dizemos no Brasil, é muito “puxado”. O ano letivo inicia-se em setembro e vai até final de junho. A Faculdade de História Geral da Universidade Católica de Lviv, por exemplo, oferece cursos de várias línguas, como latim, inglês, grego, língua eslava antiga (caso seja preciso ler documentos antigos), alemão, italiano e russo. Em cinco anos, que é o tempo de duração do curso, o estudante tem chances de aprender várias línguas ou pelo menos o necessário para poder dar conta dos conteúdos das disciplinas e das leituras obrigatórias em língua estrangeira.
O sistema de avaliação é interessante e produtivo. É através de seminários e debates. Não existem trabalhos coletivos. Cada seminário exige do aluno preparação, muita leitura e participação nos debates. Quanto mais o aluno participar, mais pontos acumula. Se não participar, não falar nada, zera a pontuação. No decorrer dos seminários acontecem as avaliações escritas. O exame acontece no final do período, porém, para fazer o exame o aluno deverá somar pontos suficientes. Se não somar, está automaticamente reprovado. Já presenciei inúmeras situações em que os alunos não somaram foram reprovados antes mesmo de prestar exames. Existe também a possibilidade de o aluno somar pontos através da elaboração de trabalhos escritos. Porém, precisam ser muito bem feitos. A exigência é muito grande e a avaliação é muito rigorosa. As provas finais podem ser escritas ou orais. São muito difíceis. Por exemplo, na disciplina de História da Ucrânia, somente sobre o século XVII, o professor elaborou um questionário de 120 questões e enviou para os alunos. Todas as questões deviam ser estudadas e preparadas. No exame ele pediu duas.
Estou falando desses detalhes para dizer que estudar na Ucrânia é uma batalha difícil. Os professores não fazem exceção. Os alunos estrangeiros são submetidos à avaliações de mesmo nível que os daqui. Disse uma Professora na Universidade ‘я не роблю винятку. Іноземці будуть писати такі самі іспити як всі.’ (eu não faço exceção. Os estrangeiros farão os mesmos exames que todos fazem).
Antes de concluir, gostaria de colocar uma questão delicada, mas necessária que tem a ver com o Projeto da Representação Ucraniana Brasileira de enviar jovens para estudar na Ucrânia. Trata-se do suporte econômico, ou seja, de bolsa que cobre não só os custos da Universidade, mas também o custo de vida do estudante tais como saúde, moradia, material para estudo (livros, xerox…) e dá condições dignas para que ele realmente estude. Alguns estudantes brasileiros que para cá vieram por conta do Projeto da Representação Ucraniana, no início, ficaram desamparados e sobreviveram graças à caridade de algumas pessoas. Isso não é bom. Aqui somos todos estrangeiros e as condições de vida daqui são diferentes das do Brasil e muitas vezes hostis, como por exemplo, o inverno. A Universidade também oferece bolsa (um valor que se recebe durante o mês para gastos com livros, xerox e material acadêmico), mas seus critérios são rígorosíssimos. É preciso atingir notas máximas em todas disciplinas, caso alguma nota seja somente média mínima, a bolsa é cancelada. Se reprovar em alguma disciplina, perde-se a vaga.
Não entendam isso como uma crítica maldosa ou desconsideração pelo trabalho da Representação, mas como uma observação e contribuição de quem está do “lado de cá” vivendo a realidade de estudante estrangeira na Ucrânia. O que se quer é que o Projeto da Representação prospere, se desenvolva, cresça e não caia em descrédito ou se fale dele coisas indevidas. Mas é preciso fazer alguns ajustes, repensar, rever acordos etc..
Apesar de tudo isso, estudar na Ucrânia é altamente valioso e compensatório. Agora, perto da conclusão do curso, a sensação é que o esforço, o sofrimento, a dedicação e as pequenas vitórias valeram a pena. Acima do valor do diploma está a experiência, o crescimento cultural, o aprendizado de outras línguas e sobretudo, o que é mais gratificante, a fluência da língua ucraniana. Inúmeras são as oportunidades para enriquecer-se culturalmente. Minha gratidão a todos que me ajudaram e continuam ajudando, desde os primeiros passos lá do Brasil. E aos daqui que me acolheram, que se tornaram meus mestres de ciência e vida, minha eterna gratidão. Os ucranianos dizem – СЛАВА УКРАЇНІ! E nós acrescentamos – СЛАВА БРАЗИЛІЇ!
Oksana Jadvizak graduanda do Curso de História da Universidade Católica de Lviv, Ucrânia.
Ainda no campo dos números, basta olhar que para São Petersburgo, que já recebia 3 milhões de turistas em 2009 e atingiu a marca de 5,1 milhões de visitantes em 2010. Quase o dobro da capital. E, enquanto a bela cidade de Pedro planeja atingir a marca de 8 milhões de visitantes até 2016, Moscou segue parada no tempo, apesar de ter visto seu número de turistas subir para 3,4 milhões, nos dados de 2011.
Agora, um pouco sobre o turismo na Rússia. Desde o tempo da União Soviética, uma característica da atividade por lá é atrair gente do leste europeu e ex-países do bloco comunista. E o motivo era simples: os sindicatos premiavam os melhores ‘camaradas’ com vouchers para conhecer a capital do socialismo ou a cidade de Lenin. Então, não havia muita escolha. Ou você ia para Moscou / São Petersburgo, ou você ia para Moscou / São Petersburgo.
Os números são confusos, mas, segundo a Inturist, na década de 1970, a URSS recebia cerca de 2 milhões de turistas por ano. Em 1985, o número atingiu 8 milhões (cifra provavelmente vitaminada…). Durante os anos 1990, o número voltou a despencar para parcos 1,2 milhão/ano, atingiu 2 milhões em 2007, caiu nos anos de crise e voltou a subir em 2009. Mas as autoridades mostram ceticismo quanto às estatísticas. Afinal, como é um inferno o sistema de vistos (felizmente, não mais para nós, brasileiros), muita gente acaba viajando para a Rússia como turista, mas indo trabalhar, casar, beber, negociar ou qualquer outra atividade, não gerando, assim, a renda devida da atividade, e contribuindo para a parca infraestrutura que o país oferece a visitantes, sobretudo os que não falam russo.
Mesmo depois do fim do comunismo, a Rússia se manteve como um pólo turístico para as ex-repúblicas, que ainda representam 65% do número total de visitantes do país. É muito mais comum você encontrar gente do Azerbaijão na Praça Vermelha do que franceses, por exemplo. Por outro lado, países como Hungria, Polônia e República Tcheca vivem uma explosão turística: a partir da criação de uma infraestrutura mínima, da revogação de sistemas estúpidos e anacrônicos de visto, passaram a receber, anulmente, legiões de visitantes, que geram milhões de euros em receitas.
Voltando ao primeiro parágrafo, talvez o Diário da Rússia fizesse referência ao ranking do Trip Advisor de 15 destinos que estarão em alta em 2012. Aí sim, Moscou ocupa o quarto lugar do ranking. Ainda assim, correndo atrás de Lagos, em Portugal, Hua Hin, na Tailândia, e Tállin, na Estônia. Mas não dá para saber.
Ah, para termos mais uma comparação, e para chocar mais ainda, o Rio de Janeiro, cidade mais visitada do Brasil, recebeu apenas 1,5 milhão de turistas em 2010, ou cerca de 30% do total de estrangeiros que vieram ao país, estimada entre 4,5 e 5 milhões. Os números mostram que, se eles estão mal preparados, nós conseguimos fazer mais feio ainda, embora tenhamos produtos com altíssimo potencial. Taí, mais uma coisa em comum dentra tantas outras que o Brasil tem com a Rússia…
Como a gente bem sabe, existe uma ‘língua paralela’ em russo, a ‘russkii mat’. São 3 palavrinhas (na verdade 4) com um adendo de outras 13 que, somadas a sufixos e prefixos, nos dão uma gama praticamente infinita para expressar tudo e qualquer coisa que você queira falar. É possível contar desde suas aventuras na noite até discutir física quântica, somente usando ‘russkii mat’. E não estou exagerando não…
Mas, tão antigo quanto материться (materitsa, ou falar usando russkii mat) é a luta dos puristas contra essas indiscrições. Ainda que o palavreado chulo tenha sido utilizado ao longo da história por nomes como Púchkin e Mayakóvskii, as grosserias são combatidas a ferro e fogo por movimentos que usam o lema ‘Мат – не наш формат’, que ganhou as manchetes pela primeira vez em 2005, na cidade de Belgorod.
No meio do ano passado, lembro de uma ação em Magnitogorsk (promovida pelo partido de Putin, o Edinnaya Rossia, Rússia Unida), contra os palavrões pelas ruas da cidade. Uma das meninas chegou a dar uma entrevista curiosa. “Andando pelas ruas, você tem a impressão de que as pessoas não falam ‘mat’. Elas conversam e pensam em ‘mat’.
Agora, um concurso curioso, promovido pelo jornal ‘Знамя Октября’ (Estandarte de outubro), de Cheliabinsk, mesma região onde se encontra a cidade de Magnitogorsk, iria divulgar os melhores slogans contra a tal língua proibida. E a vencedora foi uma professora aposentada, com as seguintes frases, dignas daqueles plakats soviéticos dos quais a gente é fã:
мат ломают структуру молекулы воды и изменяют обмен веществ в организме человека
Mat quebra a estrutura das moléculas de água e altera a troca de substâncias no organismo do homem
Мат – это яд, незримо разрушает человека
Mat – é o veneno que, invisivelmente destrói o homem
От мата вянут уши и коробит душу
Da mat desbotam as orelhas e encurva-se a alma
Слово матерно слетит – душу грязью замутит
As palavras mat decolam – enturvam a alma com sujeira
Жизнь и без мата событиями (эмоциями) богата
Vida sem mat enriquece-se de emoções
С матерком, что с ветерком – от здоровья бегом
Com mat é como com o vento – corre-se de saúde
No primeiro vídeo, uma matéria de TV com estudantes. Já no segundo, uma breve história da mat na cultura russa – e com créditos a ninguém menos que Lev Tolstói. Confesso, em alguns momentos chega a ser engraçado, quando a apresentadora quase xinga…
E o interessante é que essas ações, para limpar a boca das pessoas, são bem comuns em escolas, universidades e comunidades. Acho que é uma coisa que não acontece muito por aqui, no Brasil. Não consigo imaginar um concurso ou uma ação de médio porte que seja para evitar que as pessoas usem os famigerados palavrões. Mas acho que xingar em português não tem esse peso linguístico todo que o ‘russkii mat’ tem, até por ser uma ‘entidade linguística’. Isso para não mencionar outros ‘dialetos’ consolidades, como o ‘fenya’, o ‘padonki’…
O ‘Não Conta Lá em Casa’ desta semana é o último da série no região do cáucaso russo. Após 18 dias no país – numa viagem que incluiu ainda alguns dias em Moscou -, os caras passaram por Daguestão, Chechênia, Ossétia do Norte, do Sul e, agora, neste fecho de temporada, na Abkházia.
(Para saber mais desse país, que ficou conhecido em 2008, quando Facebook, Twitter e redes sociais foram derrubadas por conta de um blogueiro que defende a causa do país – e a quem entrevistei para o G1 no mesmo ano -, no fim do post tem mais.)
Desta vez, o legal é mesmo a viagem de trem. O quarteto – junto com a jornalista amiga Maria – parte da capital da Ossétia do Norte (território russo), Vladikavkaz, numa viagem de 16 horas até o balneário de Sochi (sede das próximas Olimpíadas de Inverno). Agora, eu vou ser um pouco cruel: se você só viajou de trem na Rússia entre Moscou e São Petersburgo, você não conhece um trem russo. O público faz toda a diferença. O trem ainda é, pelo menos nesta geração, um bom pedaço da tão decantada ‘alma russa’. E, para os que ainda choram o corpo da União Soviética, é a melhor forma de ter um gostinho da vida no tempo em que meio mundo era vermelho.
O trem é uma feira: as pessoas andam sem parar, fazem pique-nique dentro dos ‘quartinhos’, que podem ter porta ou não, dependendo de seu orçamento, conversam, se conhecem, contam histórias, tomam chá, vodka, samagon, cerveja, champanskoe, o que quer que seja. O importante é ser social. Afinal, a palavra russa para companheiro é ‘SPUTNIK’. Etimologicamente, é a soma do prefixo S (com) + Putnik (do caminho, caminhador). Ou seja, faça amigos e divida seu farnel com outrem.
Sochi é um balneário que estava em frangalhos até bem pouco tempo. Após alguns bilhões de dólares, virou um paraíso turístico, com modernas instalações que vão ser a sede das próximas Olimpíadas de Inverno, em 2014. Dali para a Abkházia e sua capital, Sukhumi, são alguns quilômetros, onde você cruza uma fronteira provavalmente tão cinematográfica quanto uma de Hollywood: os guardas fingem validar vistos em passaportes e que você está entrando em um país de verdade.
Sukhumi eu não conheci. Me parece um lugar agradável, e os abkházios, como todo caucasiano, são muito tranquilos, inteligentes, mas, como todo povo caleijado de guerra, são desconfiados. Essa é a minha impressão. Carregam aquela melancolia própria aos povos que têm seu direito à nacionalidade negado. E é um dos lugares mais ‘ocidentalizados’ do Cáucaso, onde mulheres usam biquínis, minissaias e todos fazem o que querem, aparentemente, sem serem incomodados.
Que venha a parte dois da viagem. Minha sugestão é Armênia, Geórgia, Nagorno-Karabakh e Azerbaijão!
Sobre a Abkházia
Certamente você nunca ouviu falar dessa pequena república no Mar Negro, encravada entre a Geórgia e a Rússia, mas saiba que é uma terra bastante barulhenta. Tem uma história cheia de guerras e alternância de domínios até a Revolução de 17, quando foi incorporada pela recém-independente Geórgia. Mas isso durou apenas até 1921, quando o Exército Vermelho invadiu e dividiu a Geórgia, criando a República Socialista Soviética da Abkházia, que obteve igual status à antiga dominadora. Em 1931, o georgiano Stalin incorporou mais uma vez a Abkházia à Geórgia, desta vez como uma região autônoma.
Durante o período stalinista, a cultura abkházia foi desencorajada, russos foram empurrados para lá e as escolas davam mais ênfase a tudo que era da Geórgia. Enquanto os georgianos boicotaram o referendo de 1990, sobre o fim da URSS, os abkházios votaram em massa pela manutenção do estado. Em 1993, a Abkházia saiu “vitoriosa” de uma guerra contra a Geórgia e garantiu sua independência, que só é reconhecida por seis países: Rússia, Nicarágua, Venezuela, Nauru, Tuvalu e Vanuatu. Para o resto do mundo, a Abkházia segue como um estado rebelde da Geórgia.
O surreal é que os abkházios vivem num mundo à parte, ignorando seu status político: têm eleições, constituição, bandeira, hino, dão vistos e emitem passaportes – embora a maior parte de sua população use os passaportes russos, já que seus nacionais não são válidos. Ou seja, para viajar para um dos seis países acima, os abkházios usam o passaporte nacional. Para outros destinos, o russo. Ah, e o rublo também é a moeda oficial do país.
É isso. Infelizmente, essa aventura acaba aqui. Fiquei muito feliz em poder ajudar a turma nessa viagem. E passear junto com eles, através das câmeras, relembrando muita coisa dos caminhos por onde passei alguns anos atrás. Ouvi notícias de amigos – que, inclusive, se dispuseram a ajudar o quarteto em alguns lugares-chave -, senti gosto de comidas que até havia esquecido, vi lugares que eram lindos virarem escombros, assim como vi renascerem lugares onde antes só se via poeira. Mandei os vídeos para alguns amigos do Cáucaso que, mesmo com a barreira linguística, ficaram felizes em saber que, aqui no Brasil, muita gente conhece suas histórias – tristes ou alegres -, sua cultura e seu povo.