Transiberiana: planejamento e hora de partir
Viajar pela Transiberiana é um sonho que alimentei durante muito tempo. Desde antes de me interessar pela cultura e língua russa, talvez. Depois que comecei a me enveredar pelo idioma de Púchkin e Górki, o sonho ganhou ainda mais força. E, aproveitando uma oportunidade de tempo e “orçamento”, montei meu roteiro e pus o pé na estrada. Ou na ferrovia.
Uma viagem pela Transiberiana é sempre algo gigantesco. Afinal, trata-se do maior trajeto sobre trilhos do planeta à disposição de passageiros, com 9266 km, na linha direta (descontando-se as rotas Moscou – Pyongyang e Donetsk – Vladivostok, e os eventuais desvios pelo caminho). É mais ou menos como a olimpíada dos viajantes, uma espécie de Caminho de Santiago de Compostela, que batiza quem se aventura Rússia adentro com histórias, paisagens e uma experiência de vida absolutamente inimaginável.
É claro que o viajante pode optar por um pacote e deixar tudo na mão de quem (acha que) entende. E isso é absolutamente respeitável. Afinal, nem todo mundo tem paciência para montar um quebra-cabeças dessa magnitude. E encarar o desconhecido de uma forma conhecida não deixa de demandar uma enorme coragem.
Mas se você resolver entrar de cabeça nesse planejamento, saiba que o trabalho é enorme. Serão horas e horas no site da empresa russa que controla as ferrovias – a RZD -, dias escolhendo entre as opções de hoteis, albergues ou então simplesmente costurando a rede de amigos para visitar. Mas, por mais incrível que pareça, o mais difícil ainda é mesmo escolher quais cidades ver. Pois é, onde parar é realmente muito mais importante do que como ir.
São dezenas – me arrisco a dizer centenas – de cidades e lugares interessantes para ver e curtir. E, como se trata de uma chance que pode ser única na vida, é melhor você tratar de aproveitar o máximo.
Não sou nenhum expert em viagem de trem, mas já dei minhas escapadas pelo país. De Murmansk até Vladikavkaz, já vi bastante coisa passar pela minha janelinha, ouvindo o “tadá-tadá” característico dos trilhos e batentes passando sob nós. Sei mais ou menos os rituais, os detalhes, mas sempre estive na companhia de amigos nativos que, quando não me ajudaram a planejar, estiveram no vagão comigo. Dessa vez o papo era “o bloco do eu sozinho”.
No meu caso, optei por uma rota completamente independente. Iria visitar alguns lugares que considero chave na cultura russa, não só atual, como formadora desse espectro de nacionalidades, línguas, cores e paisagens que compõem esse país interessantíssimo e cheio de vida.
Nos trens, como comprei com bastante antecedência (os bilhetes começam a ser vendidos 45 dias antes), consegui boas rotas, bons preços, bons horários e, alternando entre coupês e platskarts, bons lugares (longe do banheiro, camas de baixo e perto da provodnitsa – uma espécie de comissária de bordo dos trens). Há um sem número de variáveis que precisam ser calculadas, como os horários, já que todos os trens rodam de acordo com o horário de Moscou, e aí você precisa calcular bem a que horas vai fazer sua conexão de madrugada na Sibéria ou no Extremo Oriente…
Uma vez montada essa malha, a escolha de onde ficar também pode ser determinante. Se você planeja ir sozinho, e quer encontrar companhia pelo caminho, tenha em mente que junho e julho são os meses mais favoráveis para um bom papo com gente de todo canto do mundo. Maio e agosto já são menos visados – essencialmente, o turismo é feito por russos – logo, são ideias para conhecer locais e falar bastante a língua. Fora desses meses, a viagem fica dura, claro, em consequência do clima nada amistoso. Mas tudo ganha outros contornos, com a neve, o frio e a “toská” russa aflorada.
Hoteis de luxo são caros e chatos, na minha opinião. De que adianta ter o momento “povão” nos trens se você vai ficar confortável e pagar caro em um burocrático hotel que tem a mesma cara em Bali, no Brasil, no Canadá ou na Sibéria? Minha sugestão é procurar os albergues. Ali você conhece gente local, paga menos e, mais uma vez, vai falar russo. Ou ficar na casa de amigos – sem falar no “couchsurfing”.
A sua rota, claro, fica por sua conta. A minha era Moscou – Kazan – Ekaterinburgo – Taigá – Tomsk – Krasnoyarsk – Irkutsk – Listvyanka – Ulan Ude – Tchitá – Aginskoe – Birobidjan – Khabárovsk – Vladivostok. Algumas cidades perto de Moscou, como Vladimir, Suzdal e Nizhnyi Novgorod, que também estão na rota, são uma ótima pedida. Mas eu preferi a rota via Kazan, a capital do Tatarstão, por ser um lugar importantíssimo e que ainda não conheço, já que visitei estas outras cidades no passado.
Então, durante cerca de um mês, botei a conversa em dia, pensei na vida, pulei de cidade em cidade, tirei muitas fotos e conheci a verdadeira Rússia – sem querer desmerecer Moscou e Píter, lugares mais gerais e mais cosmopolitas. E, é claro, falei bastante russo e vi e vivi coisas impressionantes e inesquecíveis.
A viagem já acabou. Mas recomeça agora no Falando Russo e vai continuar para sempre na minha memória. E é muito, mas muito gostoso reler e reviver essa aventura incrível e fascinante.
Simbora ou, em bom russo, поехали!
Dicas da Transiberiana:
- Fazer tudo sozinho ou com agências especializadas?
- Quais cidades visitar?
- Quando ir?
* Junho/julho – mais turistas, calor, tudo mais caro
* Abril/maio/agosto/setembro – menos turistas, tempo ameno, preços médios
* Outros meses: frio, neve, paisagem diferente, muito barato e raros turistas
- Quais trens, vagões, classe e lugares escolher?
* Melhores lugares são no início do vagão, cama de baixo
* Melhores trens têm a numeração mais baixa (002 > 394)
* Platskart (3ª classe) não é horrível como falam: 4 camas na cabine aberta + 2 na janela (evite essas)
* Kupê (2ª classe) é honesta. Cabines fechadas com 4 camas. Mas meio sem graça. Vale nos trechos longos se tiver preço bom.
* Lux ou CB (1ª classe) cara, impessoal e, na minha opinião, sem o espírito da Transib. Mas se você quiser conforto, pegue.
- Montar as viagens de acordo com os fusos do país
- Atentar para o fato: os trens rodam sempre no fuso de Moscou
- Hoteis, albergues ou casa de amigos
* Hoteis são impessoais, mas confortáveis
* Albergues são bons para conhecer gente, mas muito simples
* Casas de amigos são ótimas, mas você perde privacidade e sono
- China, Mongólia ou Vladivostok?
* Depende do seu interesse. Eu acho estranho misturar essas duas viagens.
- Volta para casa
* Voar de Vladivostok para Moscou leva 9h contra um fuso de 7h. Desgastante, mas necessário
* Caso vá para a China, opte por voltar direto por lá para o Brasil
* Se você for parando de cidade em cidade, pode voltar no trem direto, se for ‘guerreiro’.
- Burocracia
* Visto para a Rússia não é necessário para brasileiros
* Peça ao seu hotel ou albergue para te registrar em todas as cidades
* Embora o registro não seja indispensável, é bastante aconselhável fazer. E importante: é gratuito.
* Tenha sempre consigo todos os bilhetes do trem, passaporte, registro e carta migratória. Jamais perca isso.
- Valor
* Todo o trecho de trem pode custar de US$ 450 até US$ 5.000
* No estilo budget, a viagem pode sair por US$ 2.000 (com todas as passagens, alimentação e hospedagens)
- Suporte ao turista
* Praticamente inexistente. Dificilmente vc acha falantes de inglês fora de Moscou
* Em muitas cidades, turista é coisa rara.
* A maioria das cidades russas é bastante segura, mas atenção com carteiras e mochilsa
* Tenha sempre consigo os telefones consulares do Brasil





















cadê a continuação??? heheh
putz, deve ser animal uma viagem assim… mas é preciso um bom domínio do idioma né
Boas Jair,
Serão 12 posts, fora os sides das cidades. Continua amanhã, com Moscou, e por aí vai…
É, eu acho que dominando o idioma fica mais legal. Mas conheci um bocado de gente que foi na cara e na coragem. E curtiu do mesmo jeito!
Camarada começou bem.
Excelentes dicas e sugestões.
No fim vamos comparar nossas experiências.
Fiz num tiro mais rápido, mas com excelentes paradas:
Moscou- Ecaterimburgo- Novosibirsk- Lago Baikal- Irkurst-UlanUde- Kabarovisk- Vladivostok.
Qqer coisa passa lá:
http://viajarepensar.blogspot.com.br
Abraço!!
Boas Gustavo,
Eu dei uma espiada na tua viagem. É como eu falei, tudo depende do tempo, dos objetivos, é uma viagem muito complexa e com um zilhão de variáveis! Por isso é legal.
Vamos nos falando e não posso deixar de te agradecer pela ajuda ao longo do meu trajeto, claro!
Fabrício
Meu sonho é fazer essa viagem, deve ser emocionante.
Ansiosa para ler tudo!
Por alguns minutos lendo o seu relato estive viajando também pela transiberiana… Obrigado por compartilhar!! É fantástico!
Creio que futuramente você poderá concluir aquela conhecida frase da sabedoria popular , como os eventos inesqueciveis de todas as suas viagens
” Ter um filho , plantar uma árvore e ESCREVER UM LIVRO”
hehe
Abrass
Olá! Tudo bem?
Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com
Até mais,
Natalie – Boia Paulista
Oi Natalie,
Que ótima notícia!!! Obrigadão mesmo! E a viagem continua!
=)
Fab
Que legal Fabrício,
Fiquei sabendo que você ia fazer essa viagem ai pelo Gabriel – Viajar e Pensar. Passei aqui pra desejar sorte e vou acompanhar o post.
Tenho um desejo antigo de fazer essa viagem tb.
Abraços !
Oi Nivea,
É, na verdade, voltei tem 2 semanas. Fiquei agosto e setembro no trem. E foi tão fantástico quanto cansativo e tenso.
Valeu pela visita e pelo comentário
Ah e teu post da onça foi demais! =)))
Bjs!
Fab
Parabéns, Fabrício, pela coragem! Deve ter sido maravilhoso mesmo…aguardo os outros posts.
bjo
Adorei as dicas. Tenho muita vontade de fazer esta rota.
Obrigada.
Simplesmente fantástico! Sempre sonhei participar desta aventura!! Adoraria conhecer o “tadá tadá” da Transiberian ao vivo!
Aliás, poderiamos reunir pessoas – malucos pela mãe Russia, para uma “trip” o ano que vem, o que achas?
Só faltou dizer o quanto foi gasto nessa viagem, com tudo; hospedagem, alimentação, passeios, Puchkim Café (rsrs), enfim, tudo mesmo!
É, realmente as dicas são muito valiosas e aproveito para dizer que viajamos junto com vc.
Um forte abraço.
O Cléo,
Obrigado pelos elogios. Me enrolei em alguns projetos e ainda faltam os 3 últimos capítulos. A conferir, saem já, já…
O quanto gastei é relativo. Fiquei sempre em albergues, comi comida comum, enfim, gastei o mínimo mesmo. Se quiser, me escreva que te falo.
=)))
abraços,
Fabricio
O que vc indicaria: uma viagem pós-verão (que foi o seu caso), ou uma pouco antes do verão? Sei lá, qual seria a mais vantajoso financieramente e/ou melhor para aproveitar os lugares. Á respeito do “bloco do eu sozinho”, vc condenaria uma viagem para um cara que não sabe nada de russo? Li que algumas pessoas vão na ‘cara e coragem’, mas eu fico meio “grilado” de ir e não conseguir me comunicar com ninguém!..kkk
Obrigado por compartilhar esta experiência magnífica!
Acho que dá no mesmo. Um pouquinho antes tem a vantagem de poder ver as coisas ganhando cor, enquanto um pouquinho depois, vc vê as coisas perdendo cor. Financeiramente, não sendo junho/julho/agosto, dá no mesmo. Mas barato mesmo é no inverno.
Fora da temporada também são raros os turistas. Acho que a chance de vc não se comunicar é grande, mas vi alguns encarando esse desafio e até curtindo. Vai muito mais do seu estado de espírito.
Abração!
Nobre Fabrício, obrigado por seus esclarecimentos! Realmente é essa minha idéia: uma aventura de “mochileiro”, sem muitos luxos. Realmente é melhor aprender alguma coisa de russo, para não paracer um analfabeto – e mimica não é o meu forte!!! rsrs
E foi fácil achar e reservar albergues nessas cidades?
Fico no aguardo dos últimos capítulos.
Obrigado e um forte abraço!
Boas cleo,
Sim foi fácil. Mas há que se ter cuidado, tem muita enganação lá, como aqui no Brasil. E os hostes não tem estrutura para gringos, salvo em irkustk. Eh meio tenso. E poucos estrangeiros. Eh. Om usar sites internacionais e ver os reviews.
Abraco e obrigado cara!
Parabéns, Fabrício! Sim, só para sanar uma dúvida: não se exige visto para turista brasileiros na Rússia? grato, Rafael
Boas Rafael,
Não, já há algum tempo a Rússia não exige visto para turistas brasileiros.
Abração!
Oi Fabrício, parabéns pelo blog, ficou muito bom!
A transiberiana também é meu sonho, e apareceu uma oportunidade agora para o início de Junho. Está um pouco em cima, gostaria de ter mais tempo para me preparar, mas certas oportunidades não se podem deixar passar, correto?
Pretendo ir sozinho, e não falo uma palavra em russo, mas acho que consigo aproveitar bem mesmo assim.
Gostaria de saber de você exatamente através de qual site comprou as passagens de trem? Estou vendo no realrussia.co.uk e no transsiberianexpress.net. E como recebeu/buscou seus tickets?
Abraço, Érico!
Boas Erico,
Obrigado pelos elogios. O blog deu uma pausa, mas espero voltar logo – inclusive com o fim da Transib.
Comprei no site da empresa ferroviária russa mesmo, http://www.rzd.ru. Todos os outros te cobram comissão e as pessoas enchem o saco querendo empurrar serviços ou roteiros, dizendo o que fazer ou não. Por outro lado, o rzd.ru é tosco e vc tem que planejar tudo meticulosamente. Altamente complexo.
Tem duas modalidades de tickets online: aqueles que não precisam validar – você pode levar a impressão direto no trem -, e aqueles que precisam validar, sendo necessário levar a impressão a uma das máquinas espalhadas por todo o país para imprimir os tickets de verdade. O procedimento varia de trem para trem, rota a rota, horário a horário. Eu prefiro sempre os trens mais baratos e fuleiros – e que têm a vantagem de imprimir os tickets bonitões… =)))
Enfim, precisando, é só me escrever em falandorusso@gmail.com
abração!