A verdadeira ‘cidade da música’

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O poder de adaptação dos russos ao clima extremo me fascina. É como eu expliquei no post “Coisas que você aprende perto do Pólo Norte – pt. 1”, eles simplesmente aprenderam, com os séculos, a vencer o inverno e a solidão. Assim, outra coisa que me chama a atenção – e a de todos, imagino – são os músicos estupidamente qualificados que encontramos nas ruas, nos metrôs, nos trens, tocando violinos, tubas, cellos, oboés e outros tantos instrumentos que a maioria absoluta dos brasileiros sequer sabe que existe.

De cara, você imagina que são desempregados, pessoas decadentes tentando arrumar um trocado. Afinal, o povo passa, a música rola e o chapeuzinho está lá, no chão – dependendo da época, a chapka, aquele chapéu peludo que se usa contra o frio – recheado de notas de rublos, dólares e euros. E aquela sinfonia, muitas vezes solitária, ganha ainda o compasso das moedinhas que caem, umas sobre as outras, engordando a poupança do musicista.

Uma vez, no inverno, resolvi esperar o intervalo entre as execuções – um dia dedicado a Rimsky-Korsakov de um violinista que deveria ter uns 25 anos – e puxei papo com o sujeito. Era, de fato, um recém-formado, pós-graduado, integrante de uma orquestra de Murmansk, no extremo norte da Rússia, que estava em Moscou para ter aulas com um professor muito famoso. Nikolai começou a me contar que era uma tradição entre os musicistas russos ensaiar nas ruas e nos metrôs. “A música não é minha, é do coração das pessoas”, ele disse. E explicava que não era justo, após aprender tanto com tanta gente, tocar em casa, com portas fechadas.

Ele levava a música para as pessoas (e muitas pessoas paravam no meio do dia para ouvir), ensaiava, testava a receptividade do público e ainda faturava um qualquer. E isso no inverno… Não demorou muito, Nikolai endireitou o corpo e emendou uma nova peça, errou, soltou um sonoro palavrão, respirou fundo e começou de novo, ganhando a risada de um par de russinhas que assistiam…

Fiquei fascinado pela sensibilidade e pela tal “tradição”. Fiz alguns amigos musicistas – eu mesmo um frustrado – que confirmaram o relato. E apimentaram ainda mais: “Espere para ver o verão. Moscou vira a cidade da música”.

Não deu outra. Com a chegada dos dias quentes, o número de jovens, senhores, meninas, famílias, e até orquestras a céu aberto se multiplicou. Isso mesmo, orquestras inteiras deixavam as salas e iam para as ruas – onde era mais fresco – e encantavam o público. Vale lembrar que o russo médio tem um vasto conhecimento musical, do clássico até as tradicionais “baladas”, e simplesmente para seu mundo para assistir. Sem contar que a maioria esmagadora dos que conheci tocava ao menos um instrumento. E, não bastasse ouvir, muitos até dançavam, improvisando um baile sob o raro e esperado sol de junho.

Então, no verão, é absolutamente normal o pessoal ir para as ruas, ensaiar e ganhar um trocado. Se você topar com uma turma dessas, pare, curta o momento, tire fotos e deixe um trocado. Você pode estar diante de músicos de qualidade absolutamente inquestionável. Eu, dentre outras tantas vezes, dei a sorte de assistir alunos executarem arranjos elegantíssimos e alegríssimos de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso e um pout-pourry de Tom Jobim, no meio da rua Arbat, numa quarta-feira. Sorte mesmo. E lógico que tive que cumprimentar a turma com um “ei, eu sou brasileiro!”.

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