Açaí: da floresta amazônica para as estepes

Uns meses atrás, um conhecido me perguntou se eu já havia provado uma ‘yagoda’ brasileira, que se parecia muito com a russa ‘tcherniká’, chamada açaí. Achei que o compadre estava brincando, mas depois fiquei sabendo que nossa frutinha estava numa famosa rede de cafeterias por lá. Fuçando aqui e ali, descobri a responsável pela história, que contei na ‘Gazeta Russa’ desse mês.

Maria Lôbova vendeu mais de duas toneladas da fruta amazônica nos primeiros seis meses de exportação. Desafio agora é popularizar a exótica frutinha energética da Amazônia no país.

Primeiro ele conquistou o sul do Brasil, ao virar mania nas praias e academias. Depois, ficou popular nos Estados Unidos e Europa. Agora, o próximo destino do açaí é conquistar a Rússia. Mas o longínquo e frio país não seria a próxima provável parada da frutinha amazônica se não fosse por Maria Lôbova, 29.

“Tudo começou quando uma amiga me contou que existia uma frutinha milagrosa brasileira”, conta. Empresária do sul da Rússia radicada em Moscou, Lôbova resolveu pesquisar na internet e descobriu muitas informações sobre o açaí – em sites americanos. Mas o mais importante era que o produto ainda não tinha chegado à Rússia.

“Claro que essa amiga chegou a cogitar começar esse negócio, mas acabou deixando de lado e eu mesma toquei adiante”, diz.

Antes de tudo, era preciso buscar parcerias na Rússia e no Brasil. “O primeiro passo foi ter um bom plano em mãos. Assim, fui até a rede de cafeterias Shokolánitsa, que tem mais de 200 unidades e um modelo de negócios bem profissional, e os convenci do potencial do açaí.”

Em seguida, Lôbova veio ao Brasil – que já havia visitado algumas vezes durante os três anos em que morou no Chile – e fechou parceria com a empresa paulista exportadora de alimentos Liotécnica. Daí para o primeiro embarque do produto rumo à Rússia foram apenas alguns meses.

“Eu diria que o pedido da Maria Lôbova, para início de uma parceria, foi bastante significativo”, avalia Zuleica Costa, gerente de exportações da Liotécnica.

Como a empresa opera em diversos países – como Estados Unidos, Cuba, Japão e Cabo Verde –, o medo da burocracia russa, sempre um entrave para a chegada de novos produtos, não atingiu a Liotécnica.

“Em uma exportação para os EUA, por exemplo, é preciso uma documentação muito simples, três ou quatro documentos. Isso não acontece na Rússia”, explica Zuleica. Mas a Liotécnica não precisou se preocupar. “Todo o trâmite de importação foi feito pela Maria Lôbova.”

Ao todo, foram necessários quase quatro meses para obter todos os documentos exigidos pelos órgãos russos. “Além disso, consultei um dos maiores especialistas da Rússia, que avaliou o produto e o endossou.”

Em seis meses, mais de duas toneladas de açaí liofilizado – ou seja, desidratado – foram comercializadas.

Com tudo pronto, era hora de debutar no gosto dos russos. A moscovita Dária Beldínskaia, 26 anos, já tinha ouvido falar do alimento, mas tinha medo que fosse algo “alucinógeno”. “Provei na Shokoládnitsa e realmente tem um gosto diferente, exótico. Acho que pode fazer sucesso aqui”, acredita.

O açaí: fruta tropical busca novos mercados, depois de chegar à Europa e EUA Foto: Stockfood/Fotodom

Já para Anastassia Iakovleva, 25, o açaí lembra muito a frutinha russa airela, mais conhecida por lá como tchernika. “Eles até misturam as duas frutas nos pratos. Acho que todo mundo vai pensar ‘não precisamos de açaí, já que temos tchernika’”, diz Iakovleva.

Mas Lôbova parece ter feito o dever de casa. Antes mesmo de botar o açaí nas ruas russas, já havia pesquisado sobre uma possível confusão com a tchernika. Apesar de parecidas por fora, a versão brasileira tem dezenas de vezes mais propriedades energéticas e benefícios para a saúde bem distintos dos de sua parente russa. “Por suas potencialidades, cada uma habitaria um mundo diferente”, afirma Lôbova.

Outros dois outros problemas enfrentados pela importadora foram o evidente desconhecimento do exótico produto brasileiro e a consequente falta de mercado na Rússia. O primeiro, Lôbova contorna com parcerias em lojas de suplementos alimentares e produtos naturais, além de sites de compra coletiva.

“Numa dessas ações de venda pela internet, enviamos cinco mil pacotes em três dias. Foi uma loucura!”, diz a russa. No entanto, o segundo ponto é mais difícil de driblar. Para Lôbova, apesar dos “produtos naturais” serem uma tendência mundial, qualquer ação fora de Moscou é muito complicada. “Menos de 5% de nossas vendas vão para São Petersburgo, para você ter uma ideia. Por enquanto, estamos só na capital mesmo”, explica a empresária.

Lôbova não desanima e segue sua cruzada para se tornar a rainha do açaí no maior país do mundo. Para ela, sem um orçamento milionário, é preciso ter cautela e paciência para criar um público local e fazer com que as pessoas conheçam o produto.

“A internet é o nosso maior público agora para construir a marca. Não adianta botar o açaí em todas as lojas e não vender nada. Isso seria péssimo. Temos consciência de que é preciso um tempo para isso cair no gosto das pessoas”, diz.

Mesmo sabendo do sucesso da fruta amazônica mundo afora, buscar o mercado da Rússia não deixa de ser uma surpresa. Mas Zuleica Costa lembra que, além dos benefícios à saúde, um dos fatores que contribuiu para 
o sucesso mundial do açaí foi justamente a sua excentricidade.

“É importante ter em mente que o açaí é um sabor exótico para outras culturas, para outros países”, explica Zuleica. “Trabalhamos com o mundo inteiro e foi uma coisa inesperada lançar nosso produto agora também na Rússia. É bastante gratificante”, afirma.

Para ler a matéria no site da Gazeta Russa – que eu sempre recomendo uma visita – basta clicar aqui. E para conferir como foi a edição do mês na Folha de SP, leia o e-paper bonitão aqui.

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