As 4 Rússias da atualidade em um artigo indispensável

Volto ao tema “O que é a Rússia pós-soviética?”. Enquanto muita gente perde tempo traçando paralelos impossíveis com o que foi, há gente que analisa os fatos como são e pensam para frente. Como eu gosto de fazer, aliás. Neste excelente artigo (em inglês), Natalia Zubarevich, do OpenDemocracy, destrincha esse enorme país – que tem 83 unidades ou “regiões” – e o divide em 4.

Zubarevich lista alguns dados interessantes: no primeiro grupo estão apenas 75 das cidades russas. Um em cinco russos vive em uma das 14 maiores cidades. Pior: como o país tem uma população de 140 milhões de pessoas e, juntas, Moscou e São Petersburgo somam quase 16 milhões, conclui-se que 1 em cada 9 russos vive nestas duas cidades. Em Moscou, aliás, 25% das pessoas são aposentados e vivem de pensão. A capital recebe 60% dos migrantes internos, enquanto Piter, 20%. Ou seja, duas cidades continuam recebendo 80% de toda a massa populacional que se move internamente no país.

Nas outras cidades com mais de um milhão de habitantes – as “cidades do milhão”, a dependência econômica da indústria pesada herdada da URSS foi minimizada com as seguidas crises dos anos 1990. Ufa, Perm, Omsk, Chelyabinsk, Volgograd, Yekaterinburgo, Novosibirsk, Rostov-na-Donu e Kazan agora faturam muito mais dinheiro como provedores de serviços.

A partir da segunda Rússia, sim, a coisa vai cada vez mais se “sovietizando”. São cidades com população entre 30 mil e 250 mil habitantes. A maioria é empregada por grandes indústrias ou são funcionários públicos, altamente dependentes da volatilidade dos mercados.

Cerca de 25% da população da Rússia vive nesse “segundo país”. Aqui, o governo teve que agir com firmeza e pagou caro para não deixar indústrias como a AvtoVaz (fabricante dos carros Lada) e Uralvagonzavod (fabricante de vagões de trem) quebrarem.

Segundo ilustra Zubarevich, é essa Rússia que praticamente guarda o segredo da estabilidade do país. Por lutarem exclusivamente por empregos e salários, os habitantes da segunda Rússia só iriam aderir a protestos se vissem seu modo de vida ameaçado. E manifestações deste tipo são fatais em qualquer regime por gerarem uma poderosa comoção social. Por isso, o Kremlin paga caro para manter todos calmos e pior, vilanizar a classe média de Moscou e Petersburgo, jogando uns contra os outros, numa conta social difícil de entender e explicar, mas com resultados rápidos.

A terceira Rússia é praticamente rural, com pequenas cidades e vilarejos espalhados principalmente pelo centro do país e Cáucaso, onde, aliás, se concentra 27% dessa massa campesina. Esses cidadãos são alheios à política, já que sua vida praticamente independe de quaisquer condições macroeconômicas: eles vivem do que produzem e negociam entre si. Politicamente, é improvável que essa Rússia se manifeste de qualquer forma.

A quarta Rússia, segundo Zubarevich, não se encaixa em quaisquer modelos analíticos sociais. São as regiões do norte do Cáucaso e sul da Sibéria, que abrigam 6% da população do país. Há uma metrópole, a capital do Daguestão, Makhachkalá, com quase um milhão de pessoas, mas cuja maioria possui baixo nível educacional.

Natalia Zubarevich nota que, na quarta Rússia, a média de idade é baixa e a tendência vem sendo de crescimento. É a mais corrupta, com conflitos étnicos e religiosos.


Russia 1 – branco, Russia 2 – azul, Russia 3 – verde e Russia 4 – vermelho

Por fim, um dado sutil, que Natalia Zubarevich dá, mas não faz a conta. Se temos 24% na segunda Rússia e 34% na segunda e terceiras, temos 58% da população vivendo no ocaso político e com posição nitidamente pró-governo. E, se pegarmos o resultado da eleição, temos 61% dos votos a favor de Pútin. Descontando as estimativas de fraude de TODOS os institutos nacionais e internacionais, chegaríamos a mais ou menos esses 58%.

Na frieza dos números e no apagar das luzes, o artigo de Natalia Zubarevich é indispensável a todos. Confiram.

PS.: Quando eu estava acabando de resenhar o arigo da Zubarevich, pintou mais um texto do Anatoly Karlin (em inglês), que agora está no blog “Da Russophile”, explicando os motivos pelos quais Moscou NÃO pode ser considerada, por si só, um outro país, ao contrário do que adora decantar a mídia ocidental e, aliás, os próprios russos, com o clássico chavão “Москва — не Россия” (Moscou não é Rússia).

Eu poderia tomar esse texto como uma resposta ao artigo da Zubarevich, mas acho que é mais o contrário: ele corrobora que existem várias Rússias e, mesmo dentro da vastidão social da cidade que tem o maior número de bilionários do mundo, segundo a Forbes, existem diferentes classes.

Logo, eu pretendo reformular o clichê. Em vez de dizer “Moscou não é a Rússia”, eu preferiria dizer que “Moscou tem todas as Rússias”. Enfim, leiam o artigo do Karlin.

PS2.: Depois de tudo pronto, fui dar uma espiada na Gazeta.ru, onde achei mais uma nota interessante: Moscou fica apenas em 6º lugar no ranking de salários mais altos da Rússia. No topo, Yamalo-Neneskii, uma região rica em petróleo e gás no centro-norte do país, com um salário mensal médio de 2011 foi de US$ 1960 (RR$ 59.000).

Em Moscou, a média ficou em US$ 1450 (RR$ 43.500), enquanto São Petersburgo, que ocupa a modesta 12ª posição, registrou uma média de rendimentos mensais de RR$ 30.100, ou US$ 1003. Para efeito de comparação, a média salarial mais baixa da Rússia é do Daguestão, com RR$ 11.500, ou US% 383.Leia a nota aqui (em russo).

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2 respostas para “As 4 Rússias da atualidade em um artigo indispensável”

  1. Oi Fabrício. O artigo ficou ótimo. Achei bem interessantes as questões sobre as “Rússias”. Uma coisa que sempre me intriga, quando eu vejo estatísticas sobre eleição na Rússia, é o fato de lá o voto não ser obrigatório como é no Brasil. Pode ser tolice de minha parte, mas me parece que essa pretensa democracia na escolha, pelo cidadão, em participar ou não das eleições, poderia facilitar as fraudes das quais todo mundo fala.

    Outra coisa, sobre a qual fiquei pensando é a especulação imobiliária na Rússia e a relação com os salários. O que você pensa sobre isso?

    • Boas Diego, que bom te ter por aqui!
      Vou tentar dar um pitaco… Bom, o voto é um direito que não deveria ser, jamais, obrigatório.
      No caso russo, o fato de votar quem quer facilita sim, a manipulação, já que as pessoas são induzidas (jamais forçadas) a escolher candidato ‘x’ ou ‘y’. Seja pela mídia (dominada pelo Kremlin), seja pelo poder econômico (as empresas onde trabalham, por exemplo).
      A fraude, fraude mesmo, alteração de resultados, é muito mais um conceito do que uma realidade. E isso é provado pelos vários institutos nacionais e internacionais. Elas existem, é claro, mas não definem (ainda) a eleição. O controle da mídia e a alienação sim, são formas poderosas.
      Sobre a especulação imobiliária, é um mercado tão surreal, mas tão surreal, que até uns anos atrás o estado ainda era dono de tudo. Como não conseguia ‘gerenciar’, simplesmente transferiu para os cidadãos o controle das propriedades (prédios, casas, terrenos…). Aí, alguns espertalhões se valeram de brechas na lei (ou fora da lei) e dominaram áreas inteiras. Em um país sem sistema bancário, sem uma economia confiável, dependente de comodities cujo preço é altamente volátil, o mercado imobiliário é uma única certeza. E uma alternativa ao “dinheiro sob o colchão”.
      Quando as coisas assentaram, coisa de 5, 10 anos atrás, os preços já estavam na estratosfera. E isso é especificamente assustador se comparar com os salários reais. O x da questão é que ninguém, absolutamente ninguém, recebe seus dividendos certinho, pela lei. Você sempre recebe cash, na mão, na negra, ao menos uma parte. As pessoas ganham muito mais do que declaram ganhar. Por isso não é surreal alguém comprar um apartamento em Medvedkovo ou Krasnogvardeiskaya por meio milhão de euros…
      E aí também entram outros fatores, como o preço do petróleo e do gás, que disparou na última década. Boa parte dessa fortuna alimenta esse mercado negro de salários.
      Se ninguém sabe quando ninguém ganha, qual o teto de preço para o mais básico dos bens, o fundamento do capitalismo: a casa própria?
      Essa é minha opinião. Claro que tem um milhão de nuances. E é isso que fascina a gente, né?
      Abração e obrigado pela visita!
      Fab

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