Ativistas do Femen na Bielorrússia: isso é protestar

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Quem acompanha o blog sabe que, hard news, as notícias do cotidiano, eu evito falar aqui, já que você vai ler em todos os sites de notícia. Por isso também, evito falar do Femen, aquele grupo ucraniano de mulheres que protestam de topless, pois elas são figurinhas carimbadas nos portais da vida. Mas essa prisão delas em Minsk, após um protesto, foi um ato temerário

Mas vou falar, rapidinho, desse ato delas na Bielorrússia (ou Belarus, se preferir). Tudo aconteceu no dia 19 de dezembro, em frente à sede da KGB de Minsk, com cartazes onde se lia ‘Viva a Bielorrússia’ e ‘Liberdade para prisioneiros políticos’. Uma delas, a mais gordinha, inclusive usava um bigode e imitava o presidente do país, Alexander Lukashenko, tido como o último ditador da Europa.

O protesto foi amplamente noticiado mundo afora, pois todo mundo sabe como o regime de Minsk trata os dissidentes políticos: tortura, prisão e até a morte. As três meninas, Alexandra Nemtchinova, Inna Schevtchenko e Oksana Shachko, mais a australiana Kitty Grin, acabaram, obviamente, presas, e seu paradeiro ficou desconhecido durante muitas horas.

A australiana apareceu, horas depois, em Vilnius, na Lituânia. Foi deportada e acompanhada pelos agentes da temida KGB local, após horas de interrogatório e ameaças. E Grin só foi solta após um trabalho intenso da embaixadora australiana. Mas as ucranianas seguiam sumidas e assim ainda seguiram por mais de 24 horas.

No fim do dia 20, elas foram, enfim, localizadas, na floresta de Beiki, na região de Gomel, sul da Bielorrússia. Foram levadas para lá por agentes, de olhos vendados. Lá, foram espancadas e tiveram os cabelos cortados. Após a sessão de tortura, os agentes largaram as três, nuas, na floresta gelada e partiram. Mas claro, filmaram toda a ação. As ucranianas conseguiram achar alguém que as ajudasse e conseguiram chegar até a embaixada ucraniana.

Ao jornal Komsomolskaya Pravda de Minsk, a KGB bielorrussa se justificou:

‘- Это спланированная и грубая провокация, которой будет дана соответствующая юридическая оценка’

‘É uma escandalosa e grosseira provocação, a qual irá merecer as devidas providências jurídicas’

Aqui, as meninas dão as primeiras entrevistas na Ucrânia após voltarem para casa.

Há muito tempo que, infelizmente, a Bielorrússia convive com a repressão severa de um regime absolutamente anacrônico e bizarro. E, ainda infelizmente, ninguém no mundo parece se importar. Recentemente, uma ‘primavera’ foi sufocada com violência em Minsk e, novamente, ninguém deu a menor importância. Claro, não há nem petróleo nem grandes riquezas na Bielorrússia. E, ainda por cima, Lukashenko é um aprendiz de Putin. Se você se mete com ele, se mete com Putin. E ninguém quer isso.

E há muito tempo que o Femen briga em seu país contra um sistema político também neossoviético, corrupto e cruel com o povo. Se a forma é correta ou não, não me cabe julgar. Mas pensemos: elas lutam com o que tem, protestam veementemente e levam isso a sério. Isso é protestar e exigir liberdade política e de expressão.

Os protestos que acontecem em Moscou – e nas outras cidades russas – são teatros. Não tenha dúvida, não vão mudar nada. Todos são autorizados pelo governo, acontecem com hora marcada, nos dias em que Putin permite. O clima é sempre de carnaval, de feriado – e a maioria da população inclusive encara como tal, um feriado.

O que o Femen faz, creiam, é protestar, é ser oposição, na verdadeira acepção da palavra. É como os que lutaram contra a ditadura aqui e em todos os países do mundo. Gente que está disposta a dar a vida pela liberdade em seu país. Gente que quer mudar. Elas estão arriscando tudo para mudar uma realidade absolutamente patética e surreal. E não medem esforços para isso. Isso é protestar e ser oposição.

Há um blogueiro – e eu já falei dele no Twitter e no Facebook do Falando Russo – chamado ‘La Russophobe’ que é um dos maiores e mais incisivos críticos da sociedade pós-soviética. Há anos, ele espinafra sem dó e sem medo. Leitura recomendada, mesmo que você, assim como eu, muitas vezes não concorde com ele. Em seu novo blog, ele expôs exatamente esse ponto de vista, essa comparação entre o Femen e a ‘primavera russa’. E é exatamente como eu penso. Leia a íntegra aqui.

Russians, it seems, do not yet even know the real meaning of the word opposition. Their efforts to challenge the neo-Soviet regime of Vladimir Putin are ineffectual, senseless, indeed pathetic. Their actions do not in any way indicate that Russians are willing to take real risks or that they feel any true sense of outrage or urgency. On behalf of the Russian people, we are ashamed.

Enfim, é para pensar. Se você quisesse mudar uma realidade – como tunisianos, egípcios, líbios, sírios, iemenitas e outros tantos ao longo da história mudaram – você iria mesmo achar que o poder central pudesse autorizar você a fazê-lo? Iria mesmo achar que, dialeticamente, alguém obcecado pelo poder, iria largá-lo?

3 COMENTÁRIOS

  1. O Grande Lukashenko jamais irá permitir que a subversão do ocidente entre em seu país!

    Glorioso seja seu país, e a moral incorrupta que une o povo de Belarus!

    Cortem a cabeça destas vagabundas modernistas.

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