Baryshnikov em ‘O Globo’

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Como o Globo Digital só traz um trechinho da matéria, reproduzo aqui as perguntas publicadas no site, da entrevista feita pela Fernanda Godoy com o Baryshnikov. Lembro que o sujeito é muito avesso a entrevistas e, qualquer chance de lê-lo ou ouvi-lo não deve ser desperdiçada!

Algumas coisas ditas por ele me foram confirmadas pela produtora Maria Rita Stumpf, com quem falei para fazer a materinha para a Gazeta Russa. Espero poder ver o espetáculo e fico muito feliz com a visita de um artista desse nível, nesse ponto de sua vida, a nosso país.

O link para a matéria no Globo  está aqui.

Mito da dança, Mikhail Baryshnikov traz ao Brasil  espetáculo que reflete suas experiências

Publicada em 03/10/2010 às 09h11m / Fernanda Godoy, correspondente

NOVA YORK – É o próprio Mikhail Baryshnikov quem abre a porta de entrada do Baryshnikov Arts Center, uma vibrante instituição interdisciplinar no bairro nova-iorquino conhecido como Hell’s Kitchen. O prédio, no momento em obras, é a materialização da visão de mundo daquele que carrega com graça e leveza o título de maior bailarino do planeta. Hoje com 62 anos, Mikhail Baryshnikov é um homem que vive para a criação, um artista com múltiplos interesses: fotografia, cinema, música, literatura, e, claro, a dança contemporânea. Todo vestido de preto, óculos de aros metálicos que não escondem a beleza de seu rosto, Baryshnikov recebeu O GLOBO para quase uma hora de entrevista franca, na qual falou sobre suas reflexões a respeito da vida e da arte. Em breve, ele embarca para o Brasil, onde no dia 19 estreia, em São Paulo, a temporada sul-americana do espetáculo “Três solos e um dueto”, com a bailarina espanhola Ana Laguna, de 54 anos. No Rio, ele se apresenta no Municipal nos dias 29 e 31.

Como surgiu esse espetáculo “Três solos e um dueto”? E a ideia da turnê na América do Sul?
MIKHAIL BARYSHNIKOV: O coreógrafo Mats Ek propôs este projeto com sua mulher, Ana Laguna, e começamos a trabalhar, nos apresentamos na Suécia. Enquanto isso, finalizei alguns solos. Começamos a fazer esse programa com diferentes coreógrafos: além de Mats Ek, Alexei Ratmansky e Benjamin Millepied. Nos últimos dois anos apresentamos o espetáculo com Ana Laguna e eu. Esta turnê que passa pelo Brasil é a última deste programa. Maria Rita (a empresária Maria Rita Stumpf) viu o espetáculo na Europa, perguntou se gostaríamos de levá-lo à América do Sul, e concordamos com a maior alegria.

O senhor disse na época ter ficado surpreso quando Mats Ek o convidou para este espetáculo. Qual o limite de idade para um bailarino continuar se apresentando?
Fiquei prazerosamente surpreso. Entendi na hora que foi uma iniciativa da Ana Laguna. Um homem faz aquilo que a mulher quer que ele faça (risos). Acho que esta peça reflete uma experiência de vida, é sobre pessoas que já passaram do seu apogeu: Ana está na casa dos 50 anos, eu estou com 60 e poucos, não é um espetáculo de dança alegre, de gente jovem, é mais uma dança teatral, o tipo de show que Mats sempre faz, mais abstrato.

O senhor sente que algumas formas de expressão ficam mais afiadas com o tempo?
É uma acumulação de experiência de vida, é normal em qualquer tipo de dança, seja tango, flamenco, kabuki, há certos tipos de dança que permitem às pessoas envelhecer com elegância e se expressar de outras maneiras. Aceitei essa oportunidade e não me decepcionei. Ela (Ana Laguna) é uma performer extraordinária, eu conhecia o casal socialmente há muitos anos, aí trabalhamos na Espanha, é uma grande família teatral, com muita tradição de criar e produzir espetáculos. Foi uma experiência boa.

O senhor é conhecido como um artista com interesse por coisas novas, com energia para experimentar. O que o motiva hoje?
Tenho medo do tédio, é isso. O tédio é o verdadeiro sinal do envelhecimento. Quando você não sabe o que fazer com o tempo, esse tipo de coisa. Não tenho esse problema, porque além da minha carreira pessoal, tenho esta instituição para cuidar, é um empreendimento, e ela ocupa 99% do meu tempo, todos os dias. É uma instituição pública, mas não é do governo, é preciso conseguir doações para manter as bolsas, temos dois teatros com performances de pessoas que vêm de toda parte, cinema, festivais.

O senhor já esteve outras vezes no Brasil, onde tem uma grande legião de admiradores. É possível que muitos sintam que será a última vez que o verão no palco. Como o senhor imagina isso?
É possível que esta seja a última vez. Ou posso voltar com uma peça. Mas, quanto à dança, não estou planejando me envolver com outro projeto no ano que vem, porque o teatro me fará ir à Europa com frequência, e tenho que me dedicar ao instituto. Pode ser meu último projeto de dança na América do Sul. Mas quero enfatizar que é um espetáculo de dança teatral, um espetáculo adulto, é sobre duas pessoas, um pouco sobre nossas carreiras, minha e da Ana, crescendo em países diferentes, línguas diferentes, mas no final nós dançamos juntos,  somos um casal. É algo sobre relacionamentos, sobre o amor, sobre a vida, experiências de vida, diria que são quatro histórias em uma noite, e quatro histórias muito diferentes. Considerando a minha idade, eu não voltaria ao Brasil com um programa mais forte do que este. Aceitei o convite porque sei que funciona. Apresentamos este programa na Letônia, na Polônia, na Suécia, em Israel, na Itália, na Espanha, e sempre tivemos reações incríveis da plateia, que responde de maneira pessoal. Foi muito recompensador, porque não é sobre nós, é sobre eles também, estamos interpretando a história da vida deles.

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