Bielorrússia: brasileira conta como é morar em um ‘museu vivo’ da URSS – parte 1

Conhecer a Bielorrússia é um sonho que a Luiza Nascimento, mestra em Língua e Literatura Russa pela USP, acaba de realizar. Ela ainda fica lá algum tempo, mas teve a paciência de mandar um relato bem bacana, cheio de dicas, fotos e detalhes da vida na bela e conturbada ex-república soviética. Atualmente regida com mão-de-ferro por aquele que é chamado de “o último ditador da Europa”, Alexander Lukashenko, a bela “Rússia Branca”, o que significa seu nome, Belarus, vive um momento sui generis: por estar “blindada” do resto do mundo, de forma apenas um pouco mais branda que a Coreia do Norte, a Bielorrússia é um verdadeiro museu vivo do modus operandi da velha e finada União Soviética.

Bom, sem mais delongas, confira o delicioso e imperdível relato da Luiza, que acabei dividindo em duas partes.

PRIMEIRO QUERIA IR PARA MOSCOU OU SÃO PETERSBURGO, como todos aqueles que desejam aprender a língua russa fazem. Estava terminando o Mestrado em Literatura e Cultura Russa na USP e meu parco conhecimento da língua dos meus escritores prediletos me afligia. Um dia, no entanto, enquanto navegava por um desses sites de idiomas, um sujeito de “Minsk”, muito simpático, inteligente, e interessado na cultura brasileira, começou a conversar comigo. Eu sabia pouquíssimo sobre Minsk, apenas que era a capital de um país chamado Bielorrússia, do qual eu sabia menos ainda.

Meu ex-namorado, o Ruivo, já tinha me dito qualquer coisa a respeito da importância da resistência do povo judeu na Bielorrússia, que se unira aos partizans contra a invasão nazista, ou do outrora notório Gueto de Minsk. Mas esse tipo de informação, até então, não havia tido qualquer efeito sobre mim. Por isso, quando o Maxim, de Minsk, me abordou na internet se apresentando como um falante nativo do russo, me surpreendi. “Mas vocês não falam bielorrusso por aí?”. “Não” – respondeu.

A verdade é que depois de séculos de Império Russo (em 1840, por exemplo – o que deixa claro o processo de russificação –, o Tzar proibiu que se utilizasse o nome nacional “Belarus”), e de mais de setenta anos de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (período no qual parte da República de Belarus pertenceu também à Polônia, à Lituânia e à Alemanha), infelizmente, não havia mais espaço em Belarus para o bielorrusso, língua que se aferrava moribunda aos ícones literários do passado, como Ianka Kupala, Maxim Bogdanovich ou Iakuba Kolassa, para não desaparecer de vez. Trocando em miúdos, há muito, a língua oficial de Belarus era o russo.

Enfim, depois de muito conversar com o Max, decidi ir estudar naquele remoto país incrustado entre a Rússia, a Polônia, a Lituânia e a Ucrânia (Por que não? – resmungara, na ocasião, minha voz interior). E fui.

Não sou uma viajante profissional como o Fabrício Yuri Vitorino. Mas já havia viajado para o exterior outras vezes e, apesar de uma diferença aqui e outra acolá, no que tange, sobretudo, a determinados ambientes, é tudo muito parecido em todo canto, especialmente se estamos falando de Ocidente. Por isso, qual não foi meu espanto e deslumbre ao desembarcar em um aeroporto internacional de 3 ou 4 andares desprovido de escadas rolantes ou elevadores? “Isso é fantástico” – pensei. Talvez a globalização, ou os inúmeros progressos tecnológicos, não tivessem aportado em Minsk. “Talvez esteja em outro planeta!” – cogitei.

Como se não bastasse, enterrei ali mesmo o estereótipo do russo sisudo, insensível, grosso ou pouco afeito a estrangeiros. Em Belarus, isso não passa de mito. Quase tive que, literalmente, sambar no aeroporto, dada a felicidade de alguns dos funcionários ao depararem com uma brasileira. “Ela veio do Brasil, do Rio de Janeiro” – diziam, radiantes.

Naquele primeiro momento, no entanto, duas coisas ficaram bastante claras para mim:
1) Há muito tempo, de fato, não passava um brasileiro por aquelas bandas;
2) Talvez eu tivesse embarcado não em um avião, mas em uma máquina do tempo que me levara a um lugar tão inusitado que, por sua vez, distante no tempo e no espaço. URSS?!?

Essa primeira impressão que tive de Belarus, a de estar na URSS (ou em outro planeta), que no decorrer do tempo só fez aumentar, não é um privilégio meu. O documentário Белорусская Мечта (“Sonho Bielorrusso”), disponível integralmente no Youtube com legendas em inglês, discorre sobre o tema. E isso ocorre não porque a KGB continua funcionando no país, as grandes lojas de departamentos soviéticas (geralmente situadas em um prédio antigo também sem escadas rolantes ou elevadores) são as que mais vendem, os mendigos lêem Dostoiévski (eis um mito verdadeiro!), os faxineiros falam de 4 a 5 línguas, ou por que você pode alugar o apartamento em que morou o Lee Harvey Oswald, assassino oficial de JFK, por 10 euros a diária. Mas precisamente por que depois do naufrágio da URSS, o país se fechou à promessa democrática e continuou a ser governado por um “cruel” ditador bigodudo, Alexander Lukachenko, que acredita comandar um Estado Comunista há 18 longos anos.

Em 2010, e os mais antenados devem estar a par disso, houve eleições por aqui e o povo foi às ruas esperançoso em promover mudanças, sendo brutalmente oprimido após o golpe de Estado impetrado pelo presidente e seus asseclas: a sisuda (essa sim!) Milícia. Muita gente desapareceu na ocasião e continua a desaparecer, adversários foram presos e inúmeras pessoas resolveram deixar o país. Muitas delas, inclusive, foram simplesmente expulsas, como os integrantes do famoso grupo de rock Lyapis Trubetskoy, certamente o mais ativo politicamente no país. Грай (“Toque”), cantada em bielorrusso, foi uma das músicas que embalaram a “primavera” nacional em dezembro de 2010. Не быць скотам! (“Não seja gado!”), mais recente, tem como letra a linda poesia homônima do conterrâneo Ianka Kupala, um dos maiores escritores e poetas da Bielorrússia, falecido em 1942. A “Polícia do pensamento”, como já dizia Orwell, é uma realidade em Belarus.

Conforme os dias foram passando, meu querido e novo amigo Maxim, um exímio cavalheiro à moda russa, me apresentou uma cidade toda reconstruída no pós-guerra nos moldes da chamada Arquitetura Stanilista – talvez o melhor exemplo dessa tendência: ruas largas (anti-burguesas), construções para vivência coletiva semelhantes a fábricas, imensas áreas verdes, e uma só avenida que singra a cidade de leste a oeste: no caso, a afamada Проспект Независимости – ou, no bom e claro português, Avenida Independência. Sim, uma cidade soviética, sem tirar nem pôr, pela qual qualquer “comunista” ou admirador da cultura russa gostaria de passear (e é extremamente agradável passear por Minsk). Mas se você não deseja passar por nenhuma situação constrangedora, tome cuidado com a “blitz de pedestre”, procedimento absolutamente legal por aqui – e lembre-se que ficar de “pilequinho” nas áreas comuns é crime em Belarus.

Há a Rua Karl Marx, Rua Rosa de Luxemburgo, Rua Maiakovski, Rua da Internacional, Rua Comunista, Parque Gorki (esse, adverte uma placa logo na entrada, é “para as crianças”, já que na URSS imperou o “mito do futuro” paradisíaco), Rua Lênin, Estação de metrô Lênin, Praça Lênin (só dá ele!), na qual se situa, aliás, uma imensa estátua do líder bolchevique – e por aí vai. Assim como Lênin, foices e martelos aqui estão por todos os lados, são de todas as cores, encenando uma verdadeira hecatombe semiótica.

A verve belicista é notável. Tanques podem estacionar debaixo da janela do seu quarto e disparar balas de canhões à uma hora da manhã de uma terça-feira – afinal, nada mais importante do que o dia em que a ocupação nazista chegou ao fim (lembro-me de, a propósito desse episódio, ter ido reclamar com uma vizinha russa. Ela me olhou nos olhos como quem diz: “Do que diabos você está reclamando? É preciso render homenagens aos soldados e à libertação do país.”). Nesse rastro, há inúmeros memoriais, monumentos e cemitérios para visitar e entender em que se fundamenta tal espírito. A Capela-Memorial dos guerreiros internacionalistas, por exemplo, exibe estátuas de mães chorando pelos filhos que foram lutar na guerra do Afeganistão e não retornaram. Localiza-se em uma ilha existente na chamada Cidade Velha de Minsk, ou “Троицкое предместье”. Não tão longe dali, você pode encontrar sinais da onipresença judaica no país, que já foi vultosa. Na Rua Melnikaite, há o belo e comovente Memorial Iama, que remonta ao dia 2 de março de 1942, quando os nazistas fuzilaram por volta de cinco mil pessoas – prisioneiros judeus do gueto de Minsk. O monumento mostra homens em fila esperando para serem assassinados.

Outro importantíssimo e impressionante memorial, na verdade um cemitério localizado no distrito Lagoisk, é o Complexo de Khatin, erguido em memória das centenas de aldeias destruídas pelos nazistas durante a II Guerra. Dois milhões de bielorrussos foram mortos no período, o que então correspondia a um quarto da população. O drama de guerra soviético filmado em 1985, Иди и смотри (“Vá e veja”), com direção de Elem Klimov, se passa em algumas dessas aldeias devastadas no país e nos transmite um pouco da dimensão do terror.

*O relato da Luiza Nascimento, com mais história e dicas da Bielorrússia, continua amanhã.

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17 respostas para “Bielorrússia: brasileira conta como é morar em um ‘museu vivo’ da URSS – parte 1”

  1. Yan disse:

    Muito bom, Luiza.
    Estou no aguardo.

  2. Wanderley V.Martins disse:

    Muito bom. Não conhecia nada a respeito da Bielorrússia. Valeu. Mto.obrigado.Quero acompanhar o relato da sua inusitada viagem.

  3. Thyago disse:

    Muito interressante seu depoimento sobre Belarus. Confesso que estava com um certo receio de visitar o pais mas depois de ler seu texto fiquei mais tranquilo.

    Que sorte ler esse texto algumas horas antes de embarcar. Espero ter as mesmas impressoes do pais.

    Obrigado.

  4. marcelo ferreira disse:

    Eu tambem adoro a bielorussia nao é atoa que tambem fui estudar russo lá na MGLU ( LINGUSTICA DE MINSK ) e acabei voltando para o brasil casado com uma bielorussa… hj nos temos um filho lindo que breve conhecera a terra da mae dele

  5. Kwardt disse:

    Muito bem escrito,

    Moro em Santa Catarina, natural de uma região onde vieram Russos e Bielorussos quando surgiu a primeira guerra por la.

    Iclusive sou neto de um Bielorusso que era engenheiro por la, construiu um casão aqui que esta até hoje de pé, foi feita de madeira através de encaixes sem nenhum prego ou algo do tipo.

    Me orgulho de ser Bielorusso fui 5 vezes para la e estou indo novamente em janeiro! 🙂

    Inclusive fiz minha dupla nacionalidade já!

    • Volha disse:

      Que interessante! Sou belarussa e moro em Salvador – BA, há muito tempo estou procurando informação sobre os imigrantes belarussos no Brasil, mas não tem uma diáspora forte, é muito difícil achar algo. Se for possível, entre em contato comigo, por favor: volha.franco @ gmail.com

  6. Alex disse:

    Sou brasileiro e moro em Mogilev “Bielorrússia” a dois anos, arquitetura linda, cultura riquíssima, sistema educacional elevadíssimo, adoro morar aqui!!!

  7. Ronnie Oliveira disse:

    Encontrei esse site por acaso, mas devo admitir q é mt mt bom mesmo. Sobre a matéria em questão sempre achei a Bielorrússia um país mt peculiar e interessante. Algo q gostaria d saber mais a fundo é sobre o bilinguismo existente no país, afinal a língua bielorrussa ainda é usada, é falada pela população ou infelizmente se tornou uma língua morta? Se ainda é falada, qual a porcentagem da população q a usa no dia-a-dia e a domina? A língua bielorrussa difere tanto assim do russo ou há um certo parentesco na morfologia,semântica e gramática?
    A propósito parabens pela ótima matéria e pelo excelente site. 😉

  8. Volnei Ivanovitch disse:

    Очень интересно. Я также хотел бы посетить эту страну, и я буду. Меня зовут Volnei. и изучать русский язык в течение некоторого времени.
    объятие

  9. Volnei Ivanovitch disse:

    Desculpem. Deixem-me traduzir o que falei acima:
    Muito interessante. Eu também gostaria de visitar esse país, e eu o farei um dia. Meu nome é Volnei e eu estudo a língua russa há algum tempo. Um abraço.

  10. Volnei Ivanovitch disse:

    Corrigindo: Меня зовут Volnei. и изучаio русский язык (não consigo escrever a letra “iu”).

  11. Francisco disse:

    Que simpática (arrogante) visitante!

    Em terra alheia se pisa no chão devagar!

  12. Eduardo disse:

    tenho interesse em visitar bielo russia., e talvez ate fazer umas ulas de russo durante um mes., queria ter uma experiencia boa e aprender mias uma lingua.

    vc acha bom estudar russo em bielo russia ou mesmo em moscou,

  13. Mauro Moszko disse:

    Muito bom saber de tudo isso … meus avós paternos imigraram para o Brasil em 1931 e segundo consta em seus documentos de imigração a cidade ou aldeia era Szarkowszczyzna, outro nome que consta em um documento de um tio meu é a cidade de Wolynskie,(hoje pertence a Ucrania), essas cidades na época pertenciam a Polonia. Pelo que pude observar muitas pessoas morreram nestas regiões, antes , durante e após a segunda gerra mundial…muito triste. Penso que temos que dar mais valor ao nosso querido Brasil que apesar de tudo recebeu a todos e em paz continuamos. Um abraço a todos !!!

  14. Katia disse:

    A família de minha mãe chegou no Brasil em 1929. Eram de Iwaniki em Pinsk. Trocaram algumas cartas e somente há alguns anos encontrei noticias sobre o ocorrido com a aldeia deles. Fico satisfeita cada vez que encontro uma mínima informação. Na verdade penso deveríamos ter acesso a registros . É muito triste não saber de sua origem. Agradeço seu post.

  15. Geovany Alves da Silva disse:

    Muito bom relato, todavia, gostaria de saber mais sobre as relações sociais, receptividade a estrangeiros e custo de vida. Tenho feito algumas viagens e a Bielorrússia está nos meus planos futuros.

  16. ANSELMO disse:

    Vou conhecer belarus em breve

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