Bielorrússia: brasileira conta como é morar neste ‘museu vivo’ da URSS – parte 2

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A quatro horas de trem a sudoeste de Minsk fica Brest, cidade na fronteira com a Polônia onde foi assinado, em 1918, o afamado tratado de Brest-Litovsk. O que mais atrai os viajantes ao encantador lugarejo, contudo, além da natureza exuberante e da rica história que remonta à Idade Média (o Museu Arqueológico de Brest é o único na Europa sobre uma cidade medieval eslava-oriental), é a monumental Fortaleza de Brest, na qual os soviéticos se defenderam da invasão alemã à URSS por pelo menos um mês, minando a força do exército nazista logo no começo. Lembro-me de ter penetrado no imenso complexo e ficado em estado de choque logo que avistei, a centenas de metros de distância, ao largo das fortificações perfuradas de tiros, aquele busto do “guerreiro soviético” que se ergue imponente a trinta metros de altura, exibindo um olhar implacável e, nos ombros, a conhecida insígnia da revolução.

Em face disso, vale dizer, se você não tiver muito apetite para homenagens megalomaníacas, balas de canhão, tanques de guerra, artilharia pesada, sepulturas, soldados em marcha perpétua e hinos de guerra repetidos exaustivamente, nem se aproxime do lugar, pois demonstrar respeito é condição sine qua non para estar ali. Depois de um tempo percebemos que, no que se refere a guerras, líderes de guerra e conquistas congêneres, tudo por essas bandas vai muito além do que, aos nossos olhos brazucas, pode soar exagerado – a despeito de mestres como Lev Tolstói, que também é nome de rua em Minsk, terem se mostrado completamente contrários a esse tipo de idolatria. Como já disse, no entanto, trata-se de uma sociedade erigida também sobre alicerces belicistas. Sob o prisma do estrangeiro, Brest é uma experiência fascinante.

Bem ao lado da fortaleza, fica o interessantíssimo Museu do Trem, onde você pode conhecer (também por dentro) os trens que faziam travessias pelo país no período da URSS. À noite, só nos resta tomar uma пиво (cerveja) na rua mais agitada do local: a Sovietskaia; ou voltar para Minsk e curtir o Минское море (“Mar de Minsk”), a contraparte bielorrussa do “Piscinão de Ramos” carioca, isto é, uma espécie de praia artificial em um lugar onde não há a versão natural da mesma. Apesar do calor desse verão, com picos de 32°C, ainda não tive coragem de ir (!).

Outra opção possível é alugar uma bicicleta e dar uma volta por toda Minsk pedalando pelos seus belíssimos parques. Vale muito à pena também pagar uma mixaria por ingressos para assistir a versões irretocáveis das mais prestigiadas Óperas ou Balés do mundo. Por um excelente lugar na premiere de Евгений Онегин (“Evgueni Oneguin”), por exemplo, lembro-me de ter investido míseros cinco euros.

Mas não se esqueça, há aquelas fabulosas esquisitices que você só vê se você conhece os matutos da região, como o impagável show do cossaco de São Petersburgo Igor Rasteriaev – que alavancou sua carreira cantando pérolas como Казачья песня (“Canção Cossaca”) e tocando acordeão no Youtube – ou o Festival de Heavy Metal nacionalista e Música Medieval Bielorrussa. Mas se você quer uma verdadeira festa retrô, basta comparecer à Дискотека СССР (“Discoteca URSS”), com apresentações de grupos memoráveis daquela época de “ouro”.

De todo modo, não perca o show do Bez Bileta, uma das melhores bandas de indie-rock do país. Caso não tenha planos, divirta-se nos agitados Clubs e Cafés que pipocam pela cidade.

Outra parada importante pelo território bielorrusso é mais ao norte: Vitebsk. Ali, com o judeu Yehuda Pen, começou um importantíssimo movimento de arte soviética e bielorrussa. Pen, que retratou, dentre outras coisas, cenas judaicas cotidianas, teve como pupilo o pintor Marc Chagall, sendo que pela escola de arte que fundou passaram outros grandes gênios da pintura, a exemplo de Kazimir Malevich.

O Museu Nacional de Arte de Belarus, em Minsk, tem uma coleção magnífica da arte nacional, que inclui nomes como Mikhail Filippovich, Alexandra Golubkina, Isaak Davidovich, Gavriil Vier, Konstantin Kosmachyov, Monos Monoszon (“Boas-vindas ao tanque soviético a oeste de Belarus”), Vladimir Sukhoverkhov (“Para os nossos bielorrussos nativos”), Natan Voronov (“Stalin em Minsk”), Valentin Volkov (“Minsk, 3 de Julho de 1944”), Ivan Akhremchik (“Defensores da Fortaleza de Brest”), Adolf Gugel (“Sonhadores”), Anatoly Shibnyov (“Primeiro Congresso de Soviets de toda a Bielorrússia”), Mark Zhitnitky (“Guetto”), Mikhail Blishch (“Batleika”), dentre outros inúmeros nomes – isso para não citar os escultores.

A despeito da crise econômica eterna, que repercute na absurda desvalorização da moeda, Minsk impressiona quando levamos em conta o fato de que a cidade, de dois milhões de habitantes, além de ser encantadora, funciona. E muito bem. Fiquei muito aliviada quando, depois de Rio e São Paulo, me vi morando numa cidade limpa, sem engarrafamentos, com baixíssimas taxas de acidentes ou crimes de qualquer espécie, onde os transportes públicos são excelentes e incrivelmente baratos (metrô, ônibus, trólebus, bonde e trem) e na qual as pessoas, em sua grande maioria, apesar das dificuldades, vivem com dignidade, revelando-se prestativas e amáveis.

Diversas vezes me perdi em Minsk, ao passo que sempre havia alguém disposto a me levar onde quer que eu quisesse. A educação no país é pública e toda criança, sem exceção, vai à escola, sob pena de que os pais sejam presos ou destituídos da função. Isso, enquanto no colossal país vizinho, Rússia, pelo menos nas grandes metrópoles, crianças que moram na rua e não vão à escola são uma realidade tão comum quanto no Brasil. Logo, é claro que amei esse lugar.

Em função disso, a presença do mujique bigodudo começou a ser por mim relativizada, e uma certa confusão se instalou em minha mente. “Mas peraí” – resmungou de novo minha voz interior –, não podemos mais aceitar que existam homens no poder que compensem sua maquiavelice, que inclui assassinatos e tortura, com ações sociais efetivas. Confusão desfeita.

No mais, nesse belo país que não é uma extensão da Rússia, mas cultiva sua própria identidade, você descobre que repolho é uma iguaria da culinária eslava, que chá é água, que salsicha é carne, que bacon se come cru, que há partes do porco que você jamais pensou que fosse degustar, que é bom ter um saco de batatas dentro de casa, já que existem inúmeros pratos que você pode cozinhar com a tal, que сметана (“smetana”) não é requeijão nem creme de leite, que carne bovina foi um sonho – e o sonho acabou, e que sopa de beterraba é uma delícia. Contudo, nada é mais convidativo do que o calor humano, especialmente quando no inverno a temperatura chega a -25°C e seus amigos se amontoam no sofá da cozinha, acotovelando-se debaixo do cobertor, na espera de que as bocas de fogão acesas e o aconchego os livre do frio que a velha calefação-sanfona soviética não consegue mais suprir. Essa é Bela…rus.

12 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom o relato. Nunca saí do país, mas está certo que daqui a 4 anos vou a Rússia. Por favor gostaria de saber se aprendeu a língua russa exclusivamente no livemocha ou fez algum curso extra? um grande abraço. Ismaél.

    • Prezado, para o aprendizado da língua russa será necessáriom muito mais que o Livemocha, muito embora ele poderá ser útil num primeiro momento quando você necessita se familiarizar com a pronúncia e a escrita. Concentre-se em entender, antes que tudo, com bastante dedicação, o alfabeto cirílico.

  2. Olá,
    Acredito que aprender uma língua tenha a ver com a capacidade e esforço de cada um. Mas esses sites servem apenas como um complemento. Certamente vc não vai aprender uma língua como a russa através deles. Vc pode conhecer pessoas, isso sim, como eu conheci!!! Inté a vista… Luiza

  3. Olá,

    Eu e mais 5 amigos vamos visitar Minsk de moto neste verão, serápossivel dar algumas dicas, onde dormir,alimentação etc?

    Qualquer ajuda é bem vinda,

    Obrigado,

  4. Olá,

    Estive na Bielorrússia em agosto passado. É um lugar encantador. Fiquei hospedado no Hotel турист, que não tinha ar condicionado, é verdade, mas era confortável. Pelo menos era ao lado do metrô e de alguns магазины.
    Me surpreendi com a limpeza da cidade, o trânsito, a qualidade do transporte público (o metrô custava руб 2000, o equivalente a R$ 0,50), os parques, a segurança, etc.

    Gostaria de voltar lá um dia, a Bielorrússia é um país muito bacana, apesar de eu ter visto algumas coisas lá paradoxais, como por exemplo, o Mc Donalds em Minsk fica na esquina da Rua Lênin, havia cassinos ao lado de prédios históricos soviéticos, com a insígnia da Foice e Martelo (aliás, todos os hotéis tinham cassinos).

    Estive lá por uma semana, foi no verão, estava uma temperatura agradável. Me disseram que quando fui embora, levei o calor embora e o tempo ficou chuvoso e frio.

  5. Olá, já estudo russo há algum tempo, estive na Rússia mas gostaria de estudar mais o idioma na Bielorrússia, que me parece mais tranquilo e mais barato. O que vocês me indicariam? Obrigado

  6. estou pensando onde morar… a rússia é um lugar lindo, contudo é um pouco friozinho, queria saber se na rússia é obrigatório que as crianças vão para escola ou eu posso educá-la em casa? quero um país onde eu possa educar minha filhinha como bem queira e meu noivo disse que eu poderei escolher qualquer lugar do mundo, nem que eu vá para a áfrica vou cuidar bem dela. a rússia é linda, principalmente moscou, tenho alguns bons amigos russos.

  7. Alexandra com certeza a cultura eslava é interessante,sei que a sua filhinha iria gostar de ter esta grande mãe que você será!!!. A áfrica não mas quem sabe outra parte da Ásia,Índia (Mumbaí,mas fica a questão,ensinar primos a ela e não esquecer dos ménsons pi)!!!

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