Bielorrússia celebra o secreto ‘Dia da Liberdade’ com prisões

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Como bem lembrou a amiga Luiza Nascimento, neste domingo, 25 de março, a Bielorrússia (ou Belarus) comemorou o “Dia da Liberdade” (Дзень Волі em bielorrusso ou День Воли, em russo). Trata-se de uma data não-oficial, que lembra a independência e a criação da República Popular da Bielorrússia, em 25 de março de 1918.

Obviamente, o governo de Alexander Lukashenko, no poder desde janeiro de 2000, proíbe quaisquer manifestações que lembrem a RPB. “Última ditadura da Europa”, Belarus sofre com o cerceamento dos direitos civis há anos. Ainda assim, muita gente foi às ruas lembrar o 94º aniversário da criação da Bielorrússia.

O protesto deste ano transcorreu até com relativa paz em Minsk, ao contrário dos anteriores, quando muita gente acabou presa após tumultos e confusões com a política. Destaque para os ativistas gays, alvo de severas críticas e constante perseguição por parte do governo (quem não se lembra do dia em que Lukashenko debochou de um ministro alemão, dizendo ser ‘melhor ser ditador do que gay’?).

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Mas, afinal, o que é a República Popular da Bielorrússia? O que é esse “Dia da Liberdade”. Bom, eu tinha uma camisa, há muito tempo, com a bandeira vermelha e branca, e tinha ouvido a história de um amigo, meio por alto. Mas trata-se de uma página muito pequena e obscura da história da região. Cada um dá uma mudadinha nela. Mas o fato, em síntese, é mais ou menos da forma abaixo.

Em linhas gerais, a criação da RPB, cujo símbolo é a tal bandeira colorada, foi tomada pelo Congresso nacional do país em 1917, após os bolcheviques deixarem o país, em sucessão a negociações fracassadas com o exército alemão. Na ausência de poder, a Rada (parlamento) do país assumiu o poder até a Sojm (convenção constitucional). Em 21 de fevereiro de 1918, a Rada elegeu Jazep Varonka o primeiro líder do novo país.

Durante o curto período de vida da República Popular da Bielorrússia, o país viveu uma onda de nacionalismo e valorização da própria cultura. A língua bielorrussa se tornou oficial, o que levou à criação de escolas, universidades, teatros e jornais. Passaportes foram emitidos e relações diplomáticas foram estabelecidas com alguns países.

Mas, dadas as dificuldades do isolamento do país, entre os bolcheviques, os poloneses e os alemães, o sonho da nação bielorrussa durou somente até o início de janeiro de 1919, quando foi criada, pelo movimento bolchevique, a República Socialista Soviética da Bielorrússia. O governo da então RNB foi exilado e sua história, praticamente aniquilada.

Hoje em dia, o 25 de março representa a possibilidade do reavivamento da identidade nacional bielorrussa, da qual fazem parte, obviamente, a língua e a cultura locais.

Lukashenko, aquele que prefere ser ditador do que ser gay, justifica a proibição e o “descredenciamento” da data alegando que, em 1918, o país estava sob domínio alemão. Consequentemente, a República Popular Bielorrussa seria uma “invenção dos ocupantes”.

Por isso, o ditador não hesitou: antes mesmo da manifestação começar, ativistas importantes, como Leanid Autukhou, Yury Silkin e Viktar Kalesnik, foram presos. Entretanto, o organizador da manifestação, Viktar Ivashkevich, conseguiu sair de casa antes da visita dos agentes da KGB (sim, ainda existe KGB na Bielorrússia!).

Nos protestos pelo “Dia da Liberdade”, pessoas carregam a bandeira vermelho e branca, simbolizando o orgulho nacional. E, claro, cartazes, muitos deles. Alguns engraçados, como “Lukashenko, você vai encontrar Kadafi em breve”, ou, “Mukashenko Ludak” (um malcriado trocadilho com uma palavra muito feia!). Outros simplesmente pedem liberdade para ativistas presos/desaparecidos, como Sannikov, Bandarenka, Lobau ou Dashkevich.

Enfim, um dia que deveria ser de orgulho para um país acaba se tornando uma demonstração de truculência e opressão. Menos mal que, dado o surrealismo da ditadura nortecoreanesca de Lukashenko, o mundo pouco sabe ou vê algo da Bielorrússia. Aliás, talvez se não fosse essa ignorância seletiva, a pressão sobre o grande aliado de Pútin se tornasse insuportável. Em vez disso, sua ditadura segue firme e sem previsão de fim.

Como dizem por lá, em bielorrusso, Жыве Беларусь, ou ‘Viva Belarus’!

PS.: As fotos são do blogueiro camarada Toxaby. Os vídeos, do Khartiya97.

3 COMENTÁRIOS

  1. Boa tarde, Fabricio.
    Eis me aqui de regresso, como diria Nelson Gonçalves. Excelente post sobre este país do qual muito pouco se fala, Belarus, mas dizem que é muito bonitinho e organizadinho. Ao menos, a capital, Minsk. Não o regime do Lukachenko, é claro, hehehe. Caso ocorra a oportunidade, tente escrever algo sobre as repúblicas da Ásia Central, os “stans”. Lá a coisa deve ser muito mais sui generis que a Bielorrússia.
    Abraços

    • Boas Felipe,
      Pois é, sempre se ouve falar muito bem da Bielorrússia e muito mal de seu ditador. Enfim, isso nos dá realmente algo para se pensar.
      Sobre as repúblicas da Ásia Central, bom, realmente são boas pautas. Tenho alguns amigos por lá. Vou tentar alguma artimanha para que eles escrevam. Seria bem legal mesmo!
      Abração

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