Brasil e Rússia: dois cemitérios de línguas com crematórios

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Esses dias veio parar no meu email um interessantíssimo artigo de Majnat Abdulaeva Kurbanova, uma especialista em Cáucaso, sobre o destino da língua chechena, dentro do macrocosmo linguístico da Federação Russa atual. Achei muito interessante, já que a partir dela, pode-se traçar um paralelo do que está acontecendo hoje em dia por lá.

Para começo de conversa, Kurbanova é caucasiana (não no sentido estadunidense), é correspondente da Novaya Gazeta em Grozny desde a guerra do Cáucaso de 2004, além de uma importante articulista do Osservatorio Balcani e Caucaso desde 2010. E, sobre a língua chechena, diz-se que é, realmente, uma das mais difíceis de se aprender no mundo, dado o grande número de sons vocálicos e consonantais, tem oito casos – e coisas legais como o raro ‘ergativo’ – e seis classes gramaticais. Não se sabe ainda se pertence ao grupo caucasiano ou Ibérico-caucasiano de línguas. E, apesar de os chechenos serem muçulmanos, sua língua nada tem em comum com o árabe, a não ser por algumas palavras oriundas do Islã.

Mas, afinal, o que acontece por lá? Bom, atualmente, se fala russo. Mas uma versão meio misturada, com muita coisa da língua chechena também. O problema é que o estado – desde o soviético até o russo atual – desestimula fortemente o estudo da língua local, bem como o bilinguismo saudável que vemos em várias localidades da Europa e do mundo. O resultado disso é que poucos chechenos conseguem se expressar puramente em sua língua étnica.

Kurbanova lembra dos tempos soviéticos – e de que nunca houve nenhuma lei oficial proibindo o estudo do checheno -, quando qualquer tentativa de se falar na língua local era reprimida com frases fortes como ‘você não está numa caverna para falar esse idioma’. Hoje em dia, há apenas um jornal em uma espécie de checheno moderno, escrito em cirílico, um alfabeto que, segundo a jornalista, não comporta as especificidades da língua, e que tem poucos leitores. A língua chechena já foi escrita em árabe e até em alfabeto latino, antes de ser cirilizada após a Revolução Russa.

O checheno está na lista da Unesco das línguas com risco de desaparecerem do mapa desde 2002. Mas as iniciativas para salvá-lo foram todas do governo local, diz Kurbanova. Desde a tentavita de incluir o idioma nas escolas primárias até a criação de um ‘Dia do Checheno’, tudo acabou falhando por não ser encorajado pelo Kremlin.

Achei muito interessante esse artigo, e recomendo sua leitura. Assim como o Brasil, a Rússia registra mais de 100 línguas faladas em seu território – ainda que nosso país seja o líder mundial do ranking de línguas em risco. Muitas delas em estado crítico, agonizando com apenas poucas dezenas de falantes. Outras, com alguns milhares, seguem na lista de idiomas cuja morte parece ser inevitável diante das políticas de assimilação cultural, etnocentrismo e desestímulo.

Lembro que, em fevereiro desse ano, no dia 21, precisamente, quando é celebrado em todo o mundo o ‘Dia Internacional da Língua Materna’, li uma matéria da ANSA dizendo que ‘Uma língua ou um dialeto morre a cada 14 dias’, segundo um estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação. Metade dos cerca de 6 mil idiomas em todo o mundo correm risco de desaparecerem ate 2100, principalmente pelo fato de que 96% de todas as línguas no mundo são faladas por 4% da população, e metade dos idiomas conhecidos não está presente na internet.

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