Brincadeira mortal: vale visitar o buraco negro ‘Chernobyl’?

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Hoje vi na Globo News a chamada para um especial sobre os 25 anos do acidente nuclear de Chernobyl. Fiquei um pouco chocado ao saber que (mais) um repórter (nosso, o Marcos Losekann) esteve por lá. Claro que sei que repórteres vão a Chernobyl o tempo todo. E repórteres, fotógrafos, escritores, curiosos, o diabo a quatro… Enfim, quero muito assistir ao programa – embora tenha certeza de que tudo que possa ser compreensível aos não-cientistas já tenha sido escrito, dito e mostrado. Sempre acompanhei bem de perto o tema, fiz entrevistas, conheci pessoas, bati papos e tentei ir lá algumas vezes. Felizmente, e o tempo provou isso, não deu certo.

Chernobyl e outros lugares ‘proibidos’ do planeta são o sonho de qualquer repórter. Mas o palco da maior tragédia causada pelo homem na História é um buraco negro. Lembro que todas as teorias sobre os efeitos da radioatividade são hipotéticas. Afinal, nunca ninguém viveu ou nenhum estudo durou centenas de anos para atestar isso. As primeiras experiências datam do final do séc. XIX, embora teorias já tenham sido formuladas mesmo antes de Cristo. E nunca houve um desastre nuclear das proporções da ucraniana. A ação da radiação na natureza – e no ser humano – é pura especulação, assim como a meia-vida dos elementos. É como estipular a duração de um CD, ou de uma LCD, ou mesmo de quanto tempo você pode ficar exposto a uma TV de tubo.

Logo após a tragédia na usina de Chernobyl, diziam que nunca nada iria nascer por lá, e isso já caiu, literalmente, por terra. O ‘decaimento’ dos elementos acontece de forma mais rápida que o previsto, assim como a absorção dos mesmos pelo ambiente. No entanto, não se sabe como e até quando isso influencia e vai influenciar a vida – em todos os seus aspectos – por lá.

Voltando ao programa, Losekann diz que ficou ‘exposto’ 15 minutos, que é o tempo máximo de tolerado. Isso ao redor do sarcófago, construído sobre o reator que explodiu e jogou no ar uma nuvem radioativa que se espalhou pela Europa. No total, ele diz, você pode ficar até 4h, deixando aí uma enorme margem de segurança, já que o cálculo de exposição não-letal máxima seria ficar 12h sob ataque da radiação. Dizem que o núcleo fusionado do reator ainda está ativo, e isso implicaria numa reação ainda não conhecida e pouco estudada pelo homem. Logo, uma cógnita teórica, mas uma incógnita prática. Pelo menos a gente já sabe que a ‘Síndrome da China‘ é uma enorme ficção.

O repórter passou pela máquina que detecta radioatividade. Ucraniana. Um amigo alemão, repórter também, foi a Chernobyl alguns anos atrás. Levou consigo um aparelho medidor de radiação alemão. E ficou estarrecido com as discrepâncias entre a aferição dos equipamentos locais e de seu próprio. Nem precisa dizer que ele pagou (muito caro) pelo tour e guia, e este insistia que tudo era ‘seguro’… Dica 1: leve seu medidor de radiação.

Losekann cita também o caso dos moradores que ficaram na ‘Zona Morta’, por dizerem que ‘não sentem cheiro de nada, não veem nada’. E diz que é justamente isso que é o perigo da radiação. Achei curioso ele estranhar isso e estar incorrendo no mesmo erro, na minha opinião. Recomendo o textinho ‘um pouco sobre radiação’, abaixo.

Já falei com um bocado de gente – e fiz outras tantas entrevistas com gente de lá, que morou lá e que estuda lá, na ‘Zona de Exclusão’. Todos, todos foram unânimes: Pripyat é um perigo, Chernobyl é um lugar morto e que deveria ser, no máximo, estudado, jamais espetacularizado. Os ‘guias atômicos’, que existem desde o fim da União Soviética, usam medidores de radiação adulterados, os equipamentos ucranianos são ultrapassados e os banhos químicos, falsos. As roupas têm eficácia duvidosa e a segurança é uma piada. Lembro que, por mais que digam, NADA é oficial. E se você vai depender de tradutores, uma arapuca é inevitável.

Então, se você realmente não tiver muito amor à vida e for a Chernobyl, mais uma dica: segundo os experts no assunto, não saia da trilha, não ande onde nunca se andou e não toque em nada que não tenha sido tocado. Andar um metro fora do caminho, respirar uma poeira assentada há anos, pode significar uma exposição a matéria radioativa até 10 mil vezes superior ao tolerável por um ser humano. É assim que a Elena Filatova, uma outra figura polêmica e acusada de ser fraude, frequenta a área. E segue viva. Por enquanto…

Desta forma, a condução de estudos na região é altamente controlada e perigosa. Daí, as recorrentes revisões sobre pesquisas anteriores. Volto a dizer: Chernobyl é um buraco negro e a efetividade de toda medida de segurança tomada por lá é uma incógnita. Como funciona, se funciona, pode-se apenas especular. Para piorar, recentemente, o governo ucraniano, desesperado com um estado falido e ávido por qualquer receita, anunciou que pretende estimular o turismo na ‘Zona Morta’, e até ‘agricultura controlada’. Uma bizarrice, uma estupidez absolutamente sem tamanho que, certamente, não será seguida pelo Japão, caso um acidente nuclear venha a se repetir.

Em suma: o programa sobre Chernobyl vai ser ótimo. Mas… Valeu a pena?

Recomendo esse texto, para você ver que tudo sobre Chernobyl é um macabro ‘mais do mesmo’, onde o homem coloca sua sanha, sua curiosidade mórbida em ação. E este, para você ver que muita coisa sobre Chernobyl é falácia.

 

Algumas coisas que aprendi sobre a radiação

Lembre-se: você não respira radiação. Você não é contaminado pela radiação. Você é contaminado por elementos radioativos.

A radiação alfa é aquela que não vai muito longe – apenas alguns metros e é bloqueada por uma simples folha de papel ou pela primeira camada de pele -, mas é absurdamente danosa. Quando uma partícula que emite radiação alfa pousa em algo, se dá a ‘contaminação’. Se você inspira poeira contaminada, seu corpo praticamente vai sendo destruído por dentro, enquanto as células são arrasadas pela interação das partículas. A radiação alfa é 20 vezes pior que as outras, pois ela ‘rasga’ átomos, no processo chamado ‘ionização’.

A radiação beta se propaga por distâncias maiores, mas é menos danosa. Vai alguns metros mais longe, mas pode ser bloqueada por uma pequena camada de chumbo. Ela pode penetrar na pele, até a camada primária, onde danifica a criação de novas células (gerando tumores e queimaduras, no longo prazo). Tem potencial ionizante menor que a alfa – rasga menos átomos.

Mas temos que ter em mente uma coisa: se ela se propaga melhor, vai danificar menos, claro, mas danifica MUITO MAIS células. E mais células danificadas podem ser tão destrutivas quanto poucas células aniquiladas. Mas seus perigos são maiores se inalada ou ingerida. É por isso que a radiação beta é a mais utilizada para tratar o câncer: imagine, as células cancerígenas se multiplicam muito mais rápido que as células normais. Logo, uma emissão beta vai danificar mais células cancerosas e menos células normais, em seus processos de reprodução. Essa ‘matemática fatal’ diz se um paciente sobrevive ou não.

A radiação gama é emitida pelo decaimento das radiações beta ou alfa. Ou ambas. Normalmente, ela atravessa nossos corpos e tudo o que há pela frente. Num voo internacional, você é bombardeado por radiação gama. Ou seja, ela é cumulativa, e  é como um raio-x, que pode ser bloqueada por uma grossa camada de chumbo. A radiação gama é usada para medir, esterelizar e ‘ver’ dentro de pacientes, com ajuda de reagentes.

Então, por que a radiação gama é mais perigosa que a alfa e a beta? Simples: ela ultrapassa tudo, ultrapassa nosso corpo, ionizando tudo e propagando mais energia. Por isso ela é cumulativa. Por outro lado, as radiações alfa e beta não ultrapassam nossos tecidos. Causam danos com maior frequência à pele, mucosas, olhos, boca e nariz. Seu perigo é sua inalação/ ingestão. Compare a radiação gama com levar um tiro e as alfa e beta com levar pequenas pedradas: são necessárias muitas pedrinhas para te matar, mas basta um tiro.

Daí, concluímos que as radiações alfa e beta são como ‘bombas-relógio’. Vão atuando silenciosamente, às vezes por anos, até que explodem com tumores e mutações. A radiação gama pode te matar em horas.

Com um medidor de radiação, você conta o que o ambiente ao seu redor emite. Mas você não pode mesurar a quantidade de partículas alfa e beta que você respira. E esse é justamente o perigo de Chernobyl. Quando o medidor grita, já é tarde: você já inalou elementos contaminados demais.

Gosto de um exemplo que a Elena Filatova dá: a gente poderia jogar bilhar com bolas feitas de puro plutônio. A radiação beta emitida viaja, no máximo, por 12 centímetros. E não penetra tecidos, por ter muita massa. Logo, ela ficaria retida nas células mortas que cobrem nossa pele. O problema seria engolir uma dessas bolas, por acidente…

6 COMENTÁRIOS

  1. interessantissimo e tragico… ele menciona uma medida de micro …? na época em chernobyl era rontgen nao se usa mais. e hoje? qual o sistema de medida para radiação?

  2. Ah, tbm não sei se vc sabe, mas a Ucrânia é um país que não cresce e é pobre principalmente por causa da ganância russa!

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