Calor político na Rússia marca o ‘choque de gerações’

Assim como a ‘Revolução do Twitter’, ocorrida em abril de 2009 na Moldávia, os protestos na Rússia de 2011 foram decisivamente influenciados pelas redes sociais (Twitter, Facebook, Vkonktakte e Odnoklassniki) e pelos blogueiros. Imagino que, em outros tempos, um movimento desse tamanho não seria possível, pois a maioria esmagadora das pessoas que foram às ruas não o fez após ter visto na TV, ouvido no rádio ou lido nos jornais. Foi o ‘boca a boca’ virtual que fez o trabalho.

Além de participar, o povo – e a imprensa – também pode acompanhar tudo online. Twitcams, livefeeds, webcams, vídeos de celular postados imediatamente em YouTube, Vimeo e RuTube fazem todo o trabalho. Quando Vladimir Putin foi sabatinado, no dia 15 de dezembro, sobre a situação no país, imediatamente apareceu nos trending topics do Twitter. Além, é claro, da hashtag engraçadinha ‘#ботокс’. Todo mundo notou como o premiê estava esticado…

Essa geração de russos, que encabeça a movimentação popular, está tão ‘conectada’ quanto a anterior estava ‘eletrificada’. E uma diferença é determinante para esse comportamento: essa nova geração NÃO viveu os dias de glória da União Soviética, se é que eles existiram. Para eles, tanto faz o buzz que nós – e os mais velhos de lá – fazemos, cantando parabéns para ‘um país que nunca existiu’. É um pessoal com 30 e poucos anos, cujas lembranças do ‘Совок’ (Sovok, como é pejorativamente chamada a tão ‘amada’ URSS) são de bagunça, caos, filas, desabastecimento, guerras e corrupção. Eles têm tanta memória sobre o soviete supremo quanto eu, nascido em 1978, tenho da ditadura brasileira.

Seu principal articulador e nome mais proeminente é Alexei Navalny, o onipresente blogueiro-jornalista-cientista social-ativista, que nasceu em 1976. Ou seja, tinha parcos 14 anos quando o império vermelho veio abaixo. Talvez lembre de Gorbachev, de Chernobyl e dos dias de glória da Detskii Mir na Lubyanka, talvez não. Mas Navalny é, sem dúvida, uma cria da decantada nova Rússia. E, sobretudo, da internet. Seu blog, por exemplo, teve o número de seguidores praticamente triplicado após os protestos na capital.

Outros ‘corneteiros’ odiados pelo Kremlin também marcam presença na web. Ksenia Sobchak (a socialite que virou analista política, nascida em 1981), Oleg Kashin (jornalista que foi espancado anos atrás, nascido em 1980), Ilya Yashin (líder do movimento ‘solidarnost’ e ativista, nascido em 1983), Ilya Varlamov (fotógrafo e ativista, nascido em 1985), Sergei Udaltsov (militante oposicionista de esquerda, nascido em 1976. O twitter é de sua esposa, Anastasia), jornalistas deportados, correspondentes internacionais, além do twitter oficial dos protestos, ou seja, um exército vigilante está a postos para balançar o Kremlin e derrubar Pútin e Medvedev.

Por sua vez, o governo também espalha seus tentáculos – odiados ‘bots’ que espalham mensagens pró-Pútin e notícias falsas. As juventudes de Pútin e do Edinaya Rossia, seu partido, também trabalham com paixão, defendendo veementemente seus líderes. E essa é uma das belezas do espaço democrático que, quer queiram, quer não, a Rússia ainda o é. Basta comparar com o rígido controle da China sobre a Internet ou exemplos mais extremos, como as terras da fantasia Coreia do Norte e Bielorrússia.

Enfim, entender russo se tornou fundamental para compreender o que se passa lá. Mas estar no Twitter, no Facebook e nas mídias sociais é absolutamente indispensável. Afinal, essa não é uma ‘primavera’ comum, sobretudo se comparada à do limbo que imperou nos países árabes. A primavera russa é complexa, é cyber e é social. Mas, acima de tudo, é um choque de gerações: a turma old school, soviética, analógica, autoritária, militarizada e impessoal, contra uma nova geração, cosmopolita, heterogênea, moderna, digital e liberal ainda que com contornos nacionalistas e neofascistas.

Outros twitteres interessantes:

Perfil que debocha de Medvedev    twitter.com/KermlinRussia
Ativista Roman Dobrokhotov     twitter.com/Dobrokhotov
Ator Boris Akunin        twitter.com/borisakunin
Deputado Ilya Ponomaryov    twitter.com/iponomarev
Ativista Marina Litvinovich    twitter.com/abstract2001
Ex-ministro Vladimir Milov    twitter.com/v_milov

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Uma resposta para “Calor político na Rússia marca o ‘choque de gerações’”

  1. […] ainda em 2011, eu tentei justificar aqui minha tese, de que, inicialmente, trata-se de um choque de gerações. E isso não começou ontem. Para ficar no âmbito dos ‘descontentes’, cito uma música […]

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