Cantinho da literatura: ‘Com Vista para o Kremlin’

O ‘Com Vista para o Kremlin’, de Vivian Oswald, foi um blog que acompanhei, quase que religiosamente, durante seus quase dois anos de existência. Claro que também contou a força do ofício, por eu trabalhar ‘na casa’. Mas foi interessante essa experiência de ver uma correspondente brasileira em ação na Rússia. Quase todos os que acompanho são americanos e europeus, que têm, claro, olhares um pouco distantes do nosso.

Quando eu morei lá, no início dos anos 2000, a internet ainda era meio incipiente, a economia, modorrenta, e eu não tinha nem tempo nem meios para quem blogar. Mas admito que poderia ter começado o ‘Falando Russo’ ainda em ‘Terra Russis’, coisa que não fiz por não ter tido, simplesmente, essa ideia. Mas é como diz a música, né? ‘Quem não sabe bate palma’.

Mas um problema da maioria absoluta dos correspondentes é um só: não falar russo. Acho que, em poucos casos nesse planeta, e aí posso estar falando uma abobrinha gigante, a língua é tão parte de um povo como o russo é dos russos. Não falar a língua de Púchkin te poda absurdamente. Vejo isso nos textos de alguns dos meus blogs favoritos – e de algumas matérias que poderiam ter sido excelentes.

Acaba que todo mundo vive em um gueto anglófono, que é bem forte em Moscou, e viajando high-society pelo país. E pior, dependendo de tradutores que, muitas vezes, ou são capengas ou são parciais. Lembro de um caso emblemático e muito conhecido de uma colega, que fez uma enorme entrevista com um especialista russa sobre o Cáucaso, para uma matéria, que lançou mão de uma tradutora georgiana! Óbvio que ela, a tradutora, manipulou tudo o que a russa falava. E isso se refletiu no trabalho.

O caso da Vivian era esse. Uma repórter experiente, dinâmica, com bom texto, mas que às vezes ficava encaixotada no idioma – embora o bom jornalista se vire até na China sem falar chinês, como a gente bem sabe. Mas essa é minha opinião pessoal, que certamente não é notada por 98% dos leitores interessados. Afinal, ser correspondente é uma etapa de sua vida. Embora você não tenha a obrigação de saber a língua de onde está, isso é um plus. Mas se você não tem planos futuros de ficar ali, qual a razão de empreender tempo e dinheiro na língua?

Pessoalmente, me chateia um pouco esse ‘oba-oba’ de ‘Nova Rússia’, ‘maioridade da Rússia’. Ainda mais quando você chega 20 anos depois, no maior clima fim de festa, não viu filas, não viu crise, não conhece uma Hrushevka, não sabe nem tomar uma vodca, enfim, e fica apenas olhando para a União Soviética e para os fatos que já foram exaustivamente analisados. Aí você acha estranho os moscovitas comprarem tantos Porsches, BMWs, Ferraris e afins, terem um dos custos de vida mais caros do mundo e, ainda assim, se comportarem meio que tribalmente. Não é estranho, é absolutamente lógico. A Rússia ainda é, como que para os românticos, o ‘bom selvagem’ da Europa cristã-ocidental.

De qualquer forma, acho mesmo que vale a pena dar uma conferida em seu livro e seus relatos (e novamente lembro que eu NÃO ganhei o livro, NÃO o li e NÃO estou escrevendo por jabá ou qualquer interesse corporativo).

Enfim, confere a sinopse do livrinho lá embaixo, veja a entrevista com ela aqui na Globo News e, se curtir, compre. Eu, como fã-crítico-chato do trabalho, comprarei.

Com vista para o Kremlin
Vivian Oswald

“A nova Rússia completou seus primeiros vinte anos em 2011. É uma história ainda recente. A imagem transmitida tantas vezes para milhões de televisores de todo o mundo — a troca da bandeira vermelha com a foice e o martelo pelo pavilhão branco, azul e vermelho da Federação da Rússia — parece ser de ontem. Era o fim do grande império que, por tantos anos, determinou o mundo bipolar da segunda metade do século XX”.

Assim começa a narrativa de Vivian Oswald em Com vista para o Kremlin: a vida na Rússia pós-soviética, reveladora de um novo cenário russo, oculto ou mascarado pelos filtros da simplificação e dos estereótipos. O olhar brasileiro ali inserido traz uma percepção única e geradora de proximidade jornalística com o leitor.

Com desenvoltura e critério, a autora transita da sucessão política do governo Putin a fatos prosaicos, como a necessidade de manter a geladeira aberta para suportar o calor dentro de casa, da espionagem da KGB a casamentos por interesse e aulas de sedução.

Colhendo, observando ou protagonizando histórias e acontecimentos, marcantes ou triviais, a jornalista presenteia o leitor com um universo às vezes curioso e exótico, às vezes tocante; um universo que se contamina lentamente com a normalidade inevitável do decorrer do tempo.

Sobre a autora

Formada em letras e comunicação, a jornalista Vivian Oswald começou a carreira no Jornal do Brasil. Desde 1999, trabalha no jornal O Globo, onde, atualmente, é repórter especial de economia na sucursal de Brasília. De 2004 a 2007, foi colaboradora do jornal em Bruxelas, base para coberturas sobre a União Europeia e diferentes países da Europa. Entre 2007 e 2009, foi a única correspondente brasileira em Moscou, onde também fez reportagens para Globo News, CBN e Radio France Internationale.

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7 respostas para “Cantinho da literatura: ‘Com Vista para o Kremlin’”

  1. Marianna disse:

    ADOREI! Vou comprar com certeza esse livro. É sempre bom ler críticas sérias (e não aquelas mesmices enlatadas que a mídia empurra para nós) sobre a realidade russa pós-URSS. Principalmente para mim, que, infelizmente, ainda não pude ir para lá fazer meu curso de aprendizado da língua russa.

    Fica a dica: Na Saraiva, o livro está como pré-venda na promoção 😉

    http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3694080/com-vista-para-o-kremlin-a-vida-na-russia-pos-sovietica/?ID=BB4E4DD67DB0B0F1110050889

  2. Marianna disse:

    P.S Concordo plenamente com o fato de existirem traduções distorcidas e, principalmente, com sua pontuação sobre não julgar o livro precipitadamente. Pretendo ler para depois formular uma opinião concreta, mas acho que ela fez um bom trabalho (ou não). Veremos..

  3. Micael disse:

    Cheguei a este blog justamente buscando referências diferentes para resenhar o livro. Comprei depois de ver o “Notícia em foco” da CBN que foi todo sobre ele.

    Achei importantes as colocações que você fez sobre a correspondência estrangeira em Moscou, até li tempos atrás um artigo do correspondente do NYT que demonstrava certo isolamento por excessão dos filhos que ficaram em escola russa e aprenderam o idioma.

    Não sei se a essa altura já chegou a ler o livro, mas dentro das preocupações demonstradas no post creio que se saiu muito bem. Extenso, não tão completo como leitores deste blog estão acostumados, mas não faz feio. Há muita história contada por personagens locais e cobrindo várias áreas como cultura, política, relações intrapessoais, relação com as outras ex-repúblicas soviéticas. Particularmente recomendo.

    • Boas Micael,
      Tá na minha estante, acabei parando pra ler a Anna Politkovskaya. Não dei tanta prioridade ao livro assim pq vi que a maioria dos textos são do blog, que acompanhei religiosamente mesmo. Mas jájá leio, embora mantenho minha ressalva, até por conhecer o gueto anglófono moscovita. Não falar a língua local, no leste europeu, muda tudo.
      Cê teria link pra esse artigo do correspondente do NYT?
      E obrigado pela visita e pelo comentário!
      Grande abraço!

  4. Micael disse:

    É essa matéria aqui Fabrício: http://www.nytimes.com/2011/09/18/magazine/my-familys-experiment-in-extreme-schooling.html?pagewanted=all

    E também no mesmo assunto o “Matéria de Capa” da TV Cultura de hoje, às 19h, vai falar sobre a Rússia. Acho complicado para um programa de meia hora abordar tanta coisa, mas fica a conferir…

    • Boa, Micael, valeu pelo link. Curti muito.
      Me decepcionei muito com o ‘Sem Fronteiras’, da Globo News, que, aliás, vou postar aqui. Vou tentar recuperar o ‘Matéria de Capa’.
      Valeu mesmo pelos toques!
      Grande abraço!

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