Petróleo e gás na Rússia – passado, presente e futuro
mai 17, 2012 Economia, Ex-repúblicas
Sempre me interessou a história do petróleo na Rússia. Mas, por falta de tempo, nunca pesquisei ou entendi direito. O Felipe Goltz, amigo do blog e ótimo debatedor, resolveu resumir e contar aqui pra gente. O texto pode ser longo, mas vale muito a pena. Confira!
Por Luis Felipe Goltz, especialíssimo para o ‘Falando Russo’
A indústria do petróleo na Rússia origina-se em meados do século XIX quando o então Canato de Baku, situado às margens do Mar Cáspio, transformou-se em uma verdadeira Meca do petróleo. Poucos sabem, mas foi graças ao empreendedorismo de três irmãos suecos – até então desconhecidos do grande público, Ludwig, Alfred e Robert Nobel – que a cidade azeri tornou-se a maior produtora deste hidrocarboneto no mundo. Os irmãos Nobel foram os pioneiros em conceber uma nova dinâmica ao florescente negócio naquela região atrasada do mundo: construíram as primeiras refinarias privadas, assentaram o primeiro oleoduto e distribuíram o petróleo russo via navios-petroleiros construídos pelos próprios suecos.
Até então, carregava-se o petróleo de Baku em barris sobre o lombo de burricos. De acordo com a pesquisadora sueca Brita Asbrink, quando Alfred Nobel criou, em 1901, o prêmio que contém o nome de sua família, parte dos recursos que custearam este projeto – que perdura até hoje, como é sabido – provinha da empresa de petróleo dos irmãos Nobel, a Nobel Brothers Petroleum Company ou Branobel, como ficou conhecida entre os russos, uma corruptela de Bratiá Nobel, ou Irmãos Nobel em português. Pois Baku, uma antiga e esquecida cidade nos confins meridionais do velho império czarista, logrou a façanha de superar um país inteiro, os Estados Unidos da América, até então lideres mundiais na produção de petróleo, graças à mitológica Standard Oil Company, fundada em 1870 pelo não menos mitológico John Davison Rockefeller.
A situação da então nascente e próspera indústria do petróleo local tomou um rumo dramaticamente diferente com a queda do czarismo em 1917 e posterior fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922. Com a planificação e coletivização compulsórias da economia por decreto de Lenin, todos os empreendimentos, refinarias, oleodutos e afins na região de Baku foram estatizados pelo governo soviético sem quaisquer compensações ou reparações a seus antigos proprietários, como os irmãos Nobel, por exemplo. Pelo contrário. Não foram poucas as violências cometidas pelos bolcheviques durante os tempos de confisco.
Apesar das profundas mudanças políticas, o petróleo permaneceu soberano, assim como nos tempos dos czares, constituindo a pilastra econômica mais sólida e confiável da União Soviética. Com o fim da antiga superpotência em dezembro de 1991, a recém-formada Federação Russa não podia mais contar com os importantes centros produtores de petróleo e gás natural da era soviética, como o Azerbaijão, a bacia de Shah Deniz, no Mar Cáspio, as imensas reservas de gás natural do Turcomenistão e os ainda inexplorados e promissores campos do Cazaquistão. Para o Kremlin, não era mero detalhe explorar e descobrir outras regiões que contivessem em suas entranhas o ouro negro. Era uma questão de sobrevivência.
O eixo do petróleo e gás natural começou a tomar outro rumo na antiga União Soviética com a descoberta de uma gigantesca reserva na Sibéria em 1965, na região de Tyumen: o campo de Samotlor, hoje controlado pela companhia anglo-russa TNK-BP. Trata-se de um colosso com centenas de quilômetros quadrados. Até hoje, um dos maiores campos petrolíferos do planeta, apesar de 47 anos ininterruptos de exploração. Habitar ou explorar uma região antologicamente conhecida por ser tão erma e inóspita como a Sibéria sempre foi um desafio. Se durante o famoso inverno siberiano atingem-se facilmente temperaturas próximas a 60 graus negativos, durante o verão, a tundra siberiana descongela-se parcialmente, com a formação de pântanos com enxames de mosquitos e outros insetos, tornando a vida dos moradores locais um constante desafio às leis de Darwin.
Mas a necessidade russa de aumentar as suas combalidas receitas durante os caóticos anos 90 fez Vladimir Putin, ao assumir o poder em 2000, mudar inteiramente a atitude do Kremlin para com a sua maior preciosidade. O antigo Ministério do Petróleo e Gás soviético havia sido desmembrado em uma série de novas corporações como a Gazprom, Yukos, SIDANKO, ONAKO, RUSIA Petroleum, Slavneft ( estas quatro últimas, junto com a inglesa BP, foram agrupadas em uma única companhia nos anos de 2003 e 2004, a Tyumenskaya Neftyanaya Kompaniya/British Petroleum ou TNK-BP ), Lukoil, Sibneft, Rosneft, Surgutneftgaz, Tatneft e Bashneft, sendo privatizadas – ou roubadas, de acordo com muitos russos – em sua grande parte durante o turbulento governo de Boris Yeltsin. Explicação etimológica: “neft” em russo significa petróleo.
Quando o assunto é petróleo, sempre foi e continua sendo complicado fazer negócios com os russos. A coisa se torna ainda mais difícil quando o petróleo é extraído no país deles. Todas as grandes companhias de petróleo do mundo sabem disso, mas também sabem que não podem ter a ousadia de impor quaisquer exigências “desagradáveis” ao Kremlin, sob pena de não participarem de um dos últimos eldorados do ouro negro do mundo. Nos anos 90, a BP inglesa teve um investimento de mais de US$ 500 milhões na antiga SIDANKO, digamos, “furtado” por seus parceiros russos.
Pode parecer um contrassenso, mas os ingleses decidiram passar uma borracha no passado conturbado que tiveram com os seus antigos sócios e fazer novamente negócios com as mesmíssimas pessoas que desfalcaram a companhia britânica na era Yeltsin. Fácil entender: uma companhia de petróleo vale tanto quanto tem de reservas provadas em suas mãos. Como há pouquíssimos lugares ainda “virgens” disponíveis e/ou financeiramente factíveis, a proverbial fleuma britânica da BP não resistiu e teve de se sujeitar à maneira pouca ortodoxa dos russos nos negócios. É o tal “russkie bizinetz”, onde só um lado ganha, ou seja, sempre os eslavos.
Vladimir Putin percebeu que, apesar de seu país ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo e gás natural, menos de 15% desse negócio estava nas mãos do Estado. A maior parte do bolo pertencia aos chamados oligarcas, como Mikhail Khodorkovsky (Yukos), Vagit Alekperov e Leonid Fedun (Lukoil), Boris Berezovsky e Roman Abramovich (Sibneft), Mikhail Fridman e Viktor Vekselberg (TNK-BP) e Vladimir Bogdanov (Surgutneftgaz). A fim de resgatar a Rússia da enorme decadência pós-soviética em que se encontrava, era crucial reavivar a economia e eliminar o mandarinato político que exerciam os oligarcas.
Segundo o projeto de Vladimir Putin, isso só seria possível realocando a maior parte dos recursos energéticos do país sob o pálio do Kremlin e retirando de cena aqueles magnatas que se opusessem ao planos do governo. Se necessário fosse, a ferro e fogo. E assim, um implacável e draconiano Vladimir Putin foi como um rolo compressor atrás deste objetivo. Em 2000, o oligarca mais poderoso da Rússia, Boris Berezovsky, então aliado e mentor de Putin, exilou-se em Londres. A Procuradoria de Justiça de Moscou incriminava-o em um cipoal de denúncias: participação em máfias, inúmeras fraudes fiscais, assassinatos de jornalistas – como o do famoso apresentador da TV russa Vladislav Listyev – e empresários, envolvimento com a guerrilha separatista chechena, dentre outras acusações graves.
Com a sua prisão uma mera questão de tempo, isolado e sem poder contar com o seu agora inimigo Vladimir Putin, o polêmico oligarca vendeu o que pôde ao seu antigo protegido e sócio, e agora igualmente inimigo, Roman Abramovich e fugiu. Com isso, Abramovich, aliando-se ao interesses de Vladimir Putin, passou a ser o único dono da gigante Sibneft. Em 2005, em um jogo de cartas marcadas, o proprietário do clube de futebol inglês Chelsea vendeu à Gazprom – na qual o governo é acionista majoritário – a sua participação acionária na empresa. A Sibneft foi extinta pelo Kremlin e formou-se a Gazprom Neft. Vitória de Putin.
Próximo passo, Mikhail Khodorkovsky, então o homem mais rico do país foi preso em um aeroporto na Sibéria em 2003 sob alegações semelhantes às de Berezovsky: mandante de assassinatos de rivais políticos e de negócios, fraude e evasão fiscal em massa. Bilhões de dólares em impostos e taxas atrasados. A solução? Liquidar a então maior empresa privada de petróleo do país, a Yukos. O comprador? A estatal Rosneft. Os defensores do antigo magnata alegam perseguição política. Khodorkovsky atualmente está preso em uma penitenciária na Carélia, próximo à fronteira com a Finlândia, até 2017. Todos os pedidos de vistas de seu processo ou perdão pelo governo russo foram categoricamente recusados até o momento.
A prisão de Khodorkovsky, apesar de muitos considerarem uma vitória de Pirro de Vladimir Putin, cristalizou o retorno inequívoco do Kremlin a um “quase-monopólio” sobre as imensas reservas energéticas russas, evocando, ao menos parcialmente, os tempos de domínio absoluto do setor pela antiga União Soviética. Além disso, também serviu como um importante recado de Putin aos demais oligarcas: as empresas que estes bilionários detêm (adquiridas – em sua imensa maioria – através da ilegalidade durante a era Yeltsin, diga-se de passagem) apenas permanecerão com os atuais donos enquanto estes colaborarem com o governo. Caso contrário, perderão tudo. Inclusive a própria liberdade.
Uma das principais políticas de Vladimir Putin é promover as empresas petrolíferas russas – estatais ou privadas, não importa – em “national champions”. Em outras palavras, corporações de âmbito global que operam nos mais diversos países, projetando desta maneira os próprios tentáculos geopolíticos do Kremlin mundo afora. Assim o fazem as firmas americanas – do setor de energia ou não – há muitas décadas. A maior empresa petrolífera privada da Rússia, a Lukoil, atua em lugares tão díspares como Iraque, Irã, Bélgica, Bulgária, Turquia, Colômbia, Venezuela, Uzbequistão e Egito. Além de ser dona de milhares de postos de combustível nos EUA, quando adquiriu as operações da Getty Oil em 2000 e as operações da Exxon-Mobil em Nova Jersey e Pensilvânia, em 2004.
Os russos, desde os tempos czaristas, sempre viram com enorme desconfiança a participação de estrangeiros no “seu” petróleo. Vladimir Putin, a contragosto, aprovou a aquisição de 20% da Lukoil pela americana ConocoPhillips em 2004, assim como 50% na TNK também em 2004 pela inglesa BP. A francesa Total é dona de 12% da Novatek, segunda maior empresa de gás natural do país. Apesar desta “invasão estrangeira” aos olhos de Vladimir Putin, que chegou a dizer que o acordo assinado entre a russa TNK e a londrina BP mais se assemelhava a um “tratado colonial”, os russos sabem que não há outra saída. O país possui reservas de hidrocarbonetos valiosíssimas, mas localizadas em territórios inóspitos, com clima inclemente a maior parte do ano, cuja obtenção com eficiência e segurança ambiental só pode ser obtida mediante a participação de empresas estrangeiras, detentoras de tecnologia de perfuração e extração em condições extremas de temperatura e profundidade que os russos ainda não possuem.
Em agosto de 2011, foi anunciada uma parceria estratégica para a exploração do Mar de Barents, considerado a “Arábia Saudita do Ártico”, entre a estatal Rosneft e os eternos “inimigos americanos” da Exxon-Mobil, não apenas a maior empresa de petróleo do planeta, mas a mais valiosa dentre todas as empresas do mundo. Em abril deste ano, a italiana ENI, velha parceira dos russos desde os tempos soviéticos, também confirmou a sua participação no projeto. Além disso, deve-se mencionar a faraônica empreitada, a tapas e pontapés, entre o Kremlin e a Shell desde 2002, nas Ilhas Sakhalinas, reserva de enormes depósitos de gás natural de imenso potencial econômico. O Japão está logo ali, a poucos quilômetros de distância ao sul, e necessita desesperadamente de novas fontes energéticas, após a hecatombe com o reator nuclear de Fukushima.
Segundo especialistas, é altamente provável que os japoneses sejam forçados a abdicar de grande parte de suas usinas nucleares (nota: nesta semana, o Japão desativou, possivelmente para sempre, seu último reator nuclear), face à sempre iminente possibilidade de novas tragédias naturais. Para não perder tempo, a Mitsui e a Mitsubishi juntaram-se a Shell e a Gazprom em 2006. A condição dos russos à participação estrangeira invariavelmente é: aos russos, sempre com a maior fatia de lucros futuros, mas sempre com os menores custos operacionais – sempre gigantescos – em projetos desta envergadura. Assim que iniciar à distribuição de gás natural sob, muito provavelmente, a forma LNG, Coréia do Sul, China e até a Índia – economias altamente dependentes da importação de energia – certamente serão prospectadas como futuros clientes.
Portanto, por mais que o Kremlin saiba que é fundamental diversificar e modernizar a economia russa para um maior desenvolvimento do país como um todo – e alguns passos, um tanto modestos ainda, estão sendo dados nesta direção, como o fomento às indústrias de alta tecnologia e setor de serviços – não resta sombra de dúvida quanto ao profundo “gosto russo” pela riqueza que sempre o alimentou e que provém das profundezas de seu subsolo, desde tempos preteritamente longevos: o velho e valioso petróleo.
Tags: economia, gás natural, história, neft, oligarcas, petróleo, rússia
Forbes lista os 10 maiores ricaços da Rússia
abr 24, 2012 Cultura, Economia, Vida na Rússia
Na última semana, versão russa da revista Forbes fez um ranking com os mais ricos do país. Enquanto todo mundo pensa nos óbvios, como Roman Abramovich, dono do clube de futebol inglês Chelsea, e Mikhail Prokhorov (lê-se prorrorov), candidato à presidência nas últimas eleições, a lista traz nomes novos e interessantes.
Aqui, vale um parêntese. Enquanto todo mundo ainda vê a Rússia como um lugar tosco onde ex-comunistas lutam contra ursos em meio a nevascas e bebendo vodka, a realidade é bem diferente. O país é o que tem o 3º maior número de bilionários e assusta os estrangeiros com uma ostentação inacreditável, que vai desde um café que custa 90 euros até porsches e ferraris douradas pelas ruas, sobretudo em Moscou, a cidade do mundo com uma quantidade recorde de supermagnatas.
Voltando à lista da Forbes deste ano, vemos uma novidade no topo: o uzbeque Alisher Usmanov, dono da superpoderosa holding ‘Metalloinvest’, com sua fortuna estimada em US$ 18,1 bilhões. Outro magnata do setor metalúrgico e de logística, Vladimir Lisin ficou em segundo lugar da lista, com US$ 15,9 bilhões em sua conta bancária. Completando o top 3 está Alexei Mordashov, dono da ‘Severstal’, com US$ 15,3 bilhões para gastar onde quiser.
Completando o top 10, temos, enfim, alguns nomes conhecidos:
4. Vladimir Potanin (Noril’skii nikel’) – US$14,5 bilhões
5. Vagit Alekperov (Lukoil) – US$13,5 bilhões
6. Mikhail Fridman (Alfa-Grupp) – US$13,4 bilhões
7. Mikhail Prokhorov (Oneksim) – US$13,2 bilhões
8. Viktor Veksel’berg (Renova) – US$12,4 bilhões
9. Roman Abramovich (Millhouse Capital) – US$12,1 bilhões
10. Leonid Mikhel’son (Novate’k) – US$11,9 bilhões
E dê uma espiada no álbum com as carinhas do top 10 de ricaços da Rússia. Você precisa saber reconhecer esses caras, que vivem viajando pelo mundo e podem estar no seu caminho em qualquer lugar. É a hora de pedir um qualquer emprestado…
Tags: bilionários, forbes, lista, rússia, ricos
Quanto custa: a vida na Rússia é mais cara ou mais barata que no Brasil?
abr 15, 2012 Economia, Vida na Rússia
Uma das perguntas absolutamente mais recorrentes aqui no blog é: morar na Rússia é caro? Quanto se gasta com comida/moradia/transporte por lá? E as principais cidades, Moscou e Píter, são mais caras que grandes megalópoles brasileiras, como Rio de Janeiro ou São Paulo?
Não vou dizer aqui ‘seus problemas acabaram’, pois a resposta pode variar muito, dependendo do que você faz aqui, seu salário, sua cidade, e de sua viagem para lá, época, lugar, orçamento. Mas dois sites podem te ajudar muito nessa árdua tarefa que é fazer uma estimativa média de quanto você vai gastar na Rússia – seja para uma viagem de turismo de 1 semana, hospedado na Arbat e na Nevskii, ou 1 ano no meio do nada, na Sibéria.
O primeiro site é o ‘Expatistan’ (site em inglês), que compara custos entre dezenas de cidades espalhadas pelo mundo, com ajuda dos próprios internautas, que vão alimentando o site com dados. Você pode avaliar se é mais caro passar 15 dias em Moscou ou em Nova York, por exemplo. No meu caso, comparei os custos de vida entre Rio de Janeiro (onde moro) e Moscou. Vamos a algumas conclusões:
- O combo do Big Mac é 32% mais caro no RJ
- 1 litro de leite integral é 16% mais caro em Moscou
- 1 kg de tomates é 60% mais caro em Moscou
- 2 kg de batatas saem 16% mais caros no RJ
- Pão para 2 pessoas, por 1 dia, sai 40% mais caro no RJ
Ou seja, no geral, Moscou é apenas 7% mais barata que o Rio de Janeiro, se a questão for encher a pança.
Já no quesito ‘habitação’, nenhum susto: Moscou bate o RJ de longe, sendo 39% mais cara que a Cidade Maravilhosa.
- Aluguel de um apartamento mobiliado de 85m2 em uma área nobre é 55% mais caro em Moscou
- Internet de conexão 8MB é 59% mais cara no RJ
- Uma hora de faxina custa abundantes 161% a mais em Moscou.
Já no quesito ‘transportes’, novamente, sem surpresas. O Rio de Janeiro é 33% mais caro que a capital russa e é mais barata apenas na bandeirada do táxi.
Outro serviço interessante é do site ‘Numbeo’, que traz uma comparação um pouco mais detalhada. Dá uma espiada:
- Comer em um restaurante simples é 45% mais caro em Moscou
- 1 bisnaga é 148% mais cara no RJ
- 1 MINUTO DE TELEFONIA CELULAR PRÉ-PAGA É 704% MAIS CARA NO RJ!
- 1 par de sapatos de couro custa 34% a mais na capital russa
- Aluguel é 30% mais caro em Moscou, no geral
- O metro quadrado no Centro é 43% mais caro em Moscou
Confiram, façam suas contas e ajudem os sites com dados. E lembrando que também é possível comparar com outras cidades do mundo ou simplesmente colher os dados, caso onde você more não tenha dados disponíveis. São ótimas ferramentas para te dar uma noção exata de que a vida por lá não é muito mais fácil do que aqui não.
Tags: capitais, comparação, custo de vida, moscou, preços, rússia
As 4 Rússias da atualidade em um artigo indispensável
abr 3, 2012 Economia, Política
Volto ao tema “O que é a Rússia pós-soviética?”. Enquanto muita gente perde tempo traçando paralelos impossíveis com o que foi, há gente que analisa os fatos como são e pensam para frente. Como eu gosto de fazer, aliás. Neste excelente artigo (em inglês), Natalia Zubarevich, do OpenDemocracy, destrincha esse enorme país – que tem 83 unidades ou “regiões” – e o divide em 4.
Zubarevich lista alguns dados interessantes: no primeiro grupo estão apenas 75 das cidades russas. Um em cinco russos vive em uma das 14 maiores cidades. Pior: como o país tem uma população de 140 milhões de pessoas e, juntas, Moscou e São Petersburgo somam quase 16 milhões, conclui-se que 1 em cada 9 russos vive nestas duas cidades. Em Moscou, aliás, 25% das pessoas são aposentados e vivem de pensão. A capital recebe 60% dos migrantes internos, enquanto Piter, 20%. Ou seja, duas cidades continuam recebendo 80% de toda a massa populacional que se move internamente no país.
Nas outras cidades com mais de um milhão de habitantes – as “cidades do milhão”, a dependência econômica da indústria pesada herdada da URSS foi minimizada com as seguidas crises dos anos 1990. Ufa, Perm, Omsk, Chelyabinsk, Volgograd, Yekaterinburgo, Novosibirsk, Rostov-na-Donu e Kazan agora faturam muito mais dinheiro como provedores de serviços.
A partir da segunda Rússia, sim, a coisa vai cada vez mais se “sovietizando”. São cidades com população entre 30 mil e 250 mil habitantes. A maioria é empregada por grandes indústrias ou são funcionários públicos, altamente dependentes da volatilidade dos mercados.
Cerca de 25% da população da Rússia vive nesse “segundo país”. Aqui, o governo teve que agir com firmeza e pagou caro para não deixar indústrias como a AvtoVaz (fabricante dos carros Lada) e Uralvagonzavod (fabricante de vagões de trem) quebrarem.
Segundo ilustra Zubarevich, é essa Rússia que praticamente guarda o segredo da estabilidade do país. Por lutarem exclusivamente por empregos e salários, os habitantes da segunda Rússia só iriam aderir a protestos se vissem seu modo de vida ameaçado. E manifestações deste tipo são fatais em qualquer regime por gerarem uma poderosa comoção social. Por isso, o Kremlin paga caro para manter todos calmos e pior, vilanizar a classe média de Moscou e Petersburgo, jogando uns contra os outros, numa conta social difícil de entender e explicar, mas com resultados rápidos.
A terceira Rússia é praticamente rural, com pequenas cidades e vilarejos espalhados principalmente pelo centro do país e Cáucaso, onde, aliás, se concentra 27% dessa massa campesina. Esses cidadãos são alheios à política, já que sua vida praticamente independe de quaisquer condições macroeconômicas: eles vivem do que produzem e negociam entre si. Politicamente, é improvável que essa Rússia se manifeste de qualquer forma.
A quarta Rússia, segundo Zubarevich, não se encaixa em quaisquer modelos analíticos sociais. São as regiões do norte do Cáucaso e sul da Sibéria, que abrigam 6% da população do país. Há uma metrópole, a capital do Daguestão, Makhachkalá, com quase um milhão de pessoas, mas cuja maioria possui baixo nível educacional.
Natalia Zubarevich nota que, na quarta Rússia, a média de idade é baixa e a tendência vem sendo de crescimento. É a mais corrupta, com conflitos étnicos e religiosos.

Russia 1 – branco, Russia 2 – azul, Russia 3 – verde e Russia 4 – vermelho
Por fim, um dado sutil, que Natalia Zubarevich dá, mas não faz a conta. Se temos 24% na segunda Rússia e 34% na segunda e terceiras, temos 58% da população vivendo no ocaso político e com posição nitidamente pró-governo. E, se pegarmos o resultado da eleição, temos 61% dos votos a favor de Pútin. Descontando as estimativas de fraude de TODOS os institutos nacionais e internacionais, chegaríamos a mais ou menos esses 58%.
Na frieza dos números e no apagar das luzes, o artigo de Natalia Zubarevich é indispensável a todos. Confiram.
PS.: Quando eu estava acabando de resenhar o arigo da Zubarevich, pintou mais um texto do Anatoly Karlin (em inglês), que agora está no blog “Da Russophile”, explicando os motivos pelos quais Moscou NÃO pode ser considerada, por si só, um outro país, ao contrário do que adora decantar a mídia ocidental e, aliás, os próprios russos, com o clássico chavão “Москва — не Россия” (Moscou não é Rússia).
Eu poderia tomar esse texto como uma resposta ao artigo da Zubarevich, mas acho que é mais o contrário: ele corrobora que existem várias Rússias e, mesmo dentro da vastidão social da cidade que tem o maior número de bilionários do mundo, segundo a Forbes, existem diferentes classes.
Logo, eu pretendo reformular o clichê. Em vez de dizer “Moscou não é a Rússia”, eu preferiria dizer que “Moscou tem todas as Rússias”. Enfim, leiam o artigo do Karlin.
PS2.: Depois de tudo pronto, fui dar uma espiada na Gazeta.ru, onde achei mais uma nota interessante: Moscou fica apenas em 6º lugar no ranking de salários mais altos da Rússia. No topo, Yamalo-Neneskii, uma região rica em petróleo e gás no centro-norte do país, com um salário mensal médio de 2011 foi de US$ 1960 (RR$ 59.000).
Em Moscou, a média ficou em US$ 1450 (RR$ 43.500), enquanto São Petersburgo, que ocupa a modesta 12ª posição, registrou uma média de rendimentos mensais de RR$ 30.100, ou US$ 1003. Para efeito de comparação, a média salarial mais baixa da Rússia é do Daguestão, com RR$ 11.500, ou US% 383.Leia a nota aqui (em russo).
Tags: 4 rússias, artigo, economia, natalia zubarevich, política
Veríssimo, Merval e um editorial: três textos que vão te ajudar a entender melhor a Rússia
mar 11, 2012 Economia, Na imprensa, Política, Vida na Rússia
Gostaria de convidar os amigos para a leitura de 3 textos, publicados esses dias no jornal O Globo: um de Luis Fernando Veríssimo, outro de Merval Pereira e o terceiro, um editorial, com a opinião do jornal sobre o resultado das eleições e seus possíveis desdobramentos.
O primeiro me foi sugerido pela amiga Ana Cláudia. Com a ironia elegante que lhe é peculiar, o famoso escritor sintetiza Vladimir Putin e os caminhos históricos que teriam levado a Rússia a ter nele como seu líder. A Rússia, bom selvagem da Europa, ainda é um mistério mesmo para eles mesmos.
Até hoje o mundo não conseguiu decifrar bem aquela imensa terra de místicos e aristocratas, onde um primitivismo quase bárbaro convivia com uma cultura extraordinária e que nunca se decidia entre ser ocidental ou ser asiática.
Claro que, por tratar-se de uma reflexão – novamente, com uma dose cavalar de ironia -, Veríssimo lembra Reagan e sua definição canhestra de “Império do Mal”. Não se irritem, é uma crítica válida!
O enigma
Luis Fernando VeríssimoO Putin, não sei se já prestaram atenção, tem um andar de malandro. É um jeito de balançar o braço quando caminha que, combinado com um meio sorriso de eterna autossatisfação, lembra um galã de arrabalde desfilando pras moças.
Ele pratica artes marciais e gosta de ser fotografado sem camisa e que saibam que é um caçador de ursos, que presumivelmente abraça até a submissão.
Dizem que deve seu poder aos podres que sabia de todo o mundo, do tempo em que chefiava o KGB, mas fez sua carreira com grande habilidade política, e acaba de voltar à presidência da Rússia no lugar do seu indicado Medvedev, que o substituiu e de quem foi primeiro-ministro. E que só ficou esquentando a cadeira para a sua volta.
Putin, portanto, é mais um mistério russo. Até hoje o mundo não conseguiu decifrar bem aquela imensa terra de místicos e aristocratas, onde um primitivismo quase bárbaro convivia com uma cultura extraordinária e que nunca se decidia entre ser ocidental ou ser asiática.
A própria experiência comunista só enfatizou o enigma. Grande parte da armação teórica da revolução partiu da “intelligentsia” russa, mas não havia lugar mais improvável para uma revolução proletária do que a Rússia, com sua tradição de servos hereditários e submissos e seu feudalismo medieval. O próprio Marx levou um susto.
Um dos problemas do Ocidente na sua relação com a União Soviética durante a Guerra Fria era nunca saber se estava tratando com o comunismo soviético ou com o anacronismo russo, passional e imprevisível.
Um diplomata americano, na época, resumiu a questão. Disse que o que precisava ser levado em conta no confronto com a União Soviética, antes de diferenças ideológicas e de modelos políticos, era que os russos eram naturalmente ruins.
O “Império do Mal”, nas palavras do Ronald Reagan, seria do mal mesmo sem o comunismo. De tais simplificações era feita a política externa americana. Quando o comunismo caiu a Rússia adotou o capitalismo selvagem sem nem um período de adaptação. Talvez seja mesmo um caso de caráter nacional.
Especula-se que Putin quer ficar no poder, talvez revezando-se com o parceiro Medvedev até os dois não poderem mais dançar. Mas quem entende a Rússia?
O segundo texto da nossa rodada é de Merval Pereira, membro da Academia Brasileira de Letras, colunista do jornal O Globo e comentarista político na rede CBN e do canal Globo News. Tem quem goste, tem quem não goste. Eu sou indiferente. Por vezes me agrada, por vezes paro de ler na primeira linha. Exatamente como todos os meus favoritos.
Mas essa reflexão sobre o PIB, IDH, ranking das economias e perspectivas para os emergentes BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul) foi exatamente ao ponto, que muitos analistas ainda insistem em ignorar. Praticamente os divide em subgrupos, graças à desigualdade com que estes países tratam um elemento importantíssimo para o desenvolvimento: a educação.
Neste ponto, China e Rússia levam enorme vantagem sobre Brasil, Índia e África do Sul. Fatalmente, esse desnível levará, em algum momento histórico, ao desmantelamento do pequeno time. “Devido ao baixo índice educacional e à falta de infraestrutura, Brasil e Índia crescerão em velocidade menor que Rússia e China nos próximos 20 anos, segundo estudo da Goldman Sachs, criadora dos Brics”.
Por outro lado, Merval cita ainda os números do IDH, que ajudam a desmascarar a farsa do desenvolvimentismo alicerçado em PIBs com uma análise estrutural do investimento em educação. O Índice de Desenvolvimento Humano ainda é cruel com os BRICS. Leiam o texto. Vale MUITO a pena.
Os números enganam
Merval PereiraA não ser os populistas de sempre, que fazem da política trampolim para seus interesses pessoais, ou então os militantes que aproveitam qualquer brecha para valorizar as supostas vantagens de seu governo, mesmo quando vantagens aparentes são apenas fantasias manipuláveis, não se viu o governo comemorar a informação de que o Brasil chegou ao sexto lugar no ranking das maiores economias do mundo medidas pelo Produto Interno Bruto (PIB), confirmando previsões, apesar do pequeno crescimento ocorrido em 2011.
Mesmo o PIB do Brasil tendo crescido apenas 2,7%, foi o suficiente para ultrapassar o do Reino Unido e ficar próximo do da França, que, pelo andar da crise econômica internacional, deve ser o próximo país a ser superado pelo Brasil.
O PIB da França cresceu 1,7%, e o do Reino Unido apenas 0,8%. Embora não seja uma conquista banal, esta subida do Brasil de posto se deve mais à queda dos concorrentes do que a nossos próprios méritos.
E ainda nos falta muito para que consigamos ter no país o mesmo nível de vida que continuam tendo os países de economias “maduras”, ainda com muita gordura para queimar.
É claro que essa gordura em boa parte foi armazenada por ações colonialistas passadas e que ainda estão em prática em algumas regiões, mas uma revisão histórica não retirará desses países também avanços tecnológicos e progressos sociais que nos custarão muitas reformas estruturais e muitos anos para tentar igualar.
Apesar da crise financeira, a Alemanha cresceu mais que nós (3%), e também perdemos terreno para alguns emergentes que, junto conosco, subverteram a ordem hierárquica das maiores economias do mundo, até bem pouco tempo dominada pelos chamados “desenvolvidos”.Dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o Brasil cresceu menos do que três que já anunciaram oficialmente seus números.
A China continua puxando a economia mundial com um crescimento de 9,2%, a Índia manteve um crescimento na casa dos 6% (6,9%); a África do Sul cresceu 3,1%.
O Brasil, em compensação, cresceu mais que os Estados Unidos (0,7%) e grande parte da Europa: Espanha (0,7%); Itália (0,4%) e Portugal (- 1,5), mas mais uma vez ficou abaixo da média mundial, que foi de 3,8%.
Em termos de PIB per capita dentro dos Brics, a Rússia fechou 2011 com US$ 16,7 mil, seguida pelo Brasil, com US$ 11,6 mil; pela África do Sul, com US$ 11 mil; pela China, com US$ 8,4 mil; e pela Índia, com US$ 3,7 mil.
Devido ao baixo índice educacional e à falta de infraestrutura, Brasil e Índia crescerão em velocidade menor que Rússia e China nos próximos 20 anos, segundo estudo da Goldman Sachs, criadora dos Brics.
E mesmo que a lista das dez maiores economias do mundo sofra novas alterações nos próximos anos, apenas a Rússia tem condições de vir a ter uma renda per capita semelhante à dos países desenvolvidos.
Pelas projeções, os cidadãos dos Brics continuarão sendo mais pobres na média que os cidadãos dos países do G-6 tradicional.
No caso específico do Brasil, se conseguirmos manter uma média de crescimento do PIB de 3,5% ao ano chegaremos a 2050 com uma renda per capita de US$ 26.500, próximo à de Portugal hoje, muito longe do que já têm hoje França e Alemanha (cerca de US$ 44 mil), menos do que o Japão (cerca de US$ 45 mil) e os Estados Unidos hoje (cerca de US$48 mil).
Com o resultado do PIB do ano passado, essa meta não foi atingida se levarmos em conta os últimos três anos. Mas a média de crescimento dos oito anos do governo Lula (4%), embora tenha ficado abaixo da mundial, está acima desse patamar.
Há uma diferença fundamental entre a concepção econômica predominante, que leva em conta o PIB como medida de avanço de um país, e a que coloca como prioridade a qualidade de vida dos cidadãos.
A Noruega, por exemplo, não é nem de longe uma das maiores economias do mundo, mas é a número um no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), método criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq e pelo Prêmio Nobel Amartya Sen para avaliar outras dimensões que não apenas o PIB, utilizado pela ONU para medição da qualidade de vida de um povo.
Além do PIB per capita corrigido pela paridade do poder de compra de cada país, o IDH leva em conta a longevidade e a educação. Para aferir a longevidade, o indicador se vale da expectativa de vida ao nascer.
O item educação é avaliado pelo analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino.
Evidentemente o ideal seria unir os dois indicadores, e por enquanto são os países desenvolvidos que conseguem fazer isso.
A maior economia do mundo continua sendo a dos Estados Unidos, que é também o 4 colocado em IDH. A China, que já é o segundo PIB do mundo e, tudo indica, alcançará os Estados Unidos em alguns anos, mas quando se trata de qualidade de vida, está na rabeira da lista do IDH, em 101º lugar.
O Japão, que caiu para o terceiro lugar no ranking do PIB, está em 12º lugar no IDH. A Alemanha é a mais bem colocada entre os grandes da zona do Euro, em 9º lugar.
A França está em 20º lugar. O Brasil, que atingiu a sexta posição no PIB, está em 84º lugar no IDH, e perde para países da sua região, como Chile, Uruguai, Argentina, Cuba.
O Reino Unido, que ultrapassamos pelo PIB, está em 28º lugar na relação do IDH, enquanto a Itália está em 24º. Os dois últimos do ranking das dez maiores economias do mundo, Rússia e Índia, estão também na rabeira da lista do IDH: Rússia em 66º (melhor que o Brasil) e Índia em 124º (pior que a China).
Como se vê, os números podem mentir, dependendo do uso que se faça deles.
O último texto, o editorial que traz a opinião do Jornal O Globo, é sobre o desfecho das eleições russas. O assunto já queimou a lenha que tinha que queimar – embora a oposição siga tentando desestabilizar o regime nas ruas em vez de começar a se articular – trabalho este que será longo e árduo. Algumas sutilezas russófobas, porém, estragam o que poderia ter sido a opinião mais sóbra publicada na imprensa brasileira sobre o tema. “Mas o fez à maneira russa — muito autoritarismo, pouca democracia e nenhuma transparência” é uma frase tão abjeta quanto a referência que os estrangeiros fazem do Brasil, dizendo que tudo acaba em samba, que somos preguiçosos e lenientes.
Noves fora, a opinião do Globo acerta em duas coloções: não foi a fraude nas eleições que determinou seu resultado. Foi o domínio do Kremlin sobre toda a mídia que transformou Pútin em um líder inconteste. As pessoas efetivamente creem nisso, pois é só isso que veem na TV. E, se esse monopólio existe, cresceu sobre a desorganização da oposição, que, durante anos, viveu um processo de metástase, se dividindo, espalhando e infectando o processo democrático. Como durante os últimos 12 anos ninguém reclamou a coroa, Pútin a usa.
Para fechar, uma frase crucial para que todos possam entender o panorama político russo de hoje: “Ele é o único com autoridade para iniciar um processo de abertura”. O capital político que o presidente eleito acumulou em todos esses anos no poder permite que ele hoje seja, de fato, o único com autoridade suficiente para, enfim, liderar uma transição. Qualquer outro nome seria ou uma estúpida volta ao passado ou um devaneio sobre o futuro. Mas não se enganem: Pútin só vai seguir por esse caminho se a oposição conseguir, politicamente, encurralá-lo. Cartazes, twitteres, ocupações e delírios de revolucionários só vão desmoralizar ainda mais o regime.
Novo mandato impõe desafios a Putin
Máquina do Kremlin funciona, mas russo perdem medo de questionarSão estranhas as eleições na Rússia. Nas parlamentares de dezembro último, com vitória absoluta do partido Rússia Unida, do poderoso Putin, houve fraude generalizada — a favor do governo, claro. Multidões saíram às ruas para protestar. Houve repressão e prisões, é óbvio, porque o conceito de liberdade de expressão do Kremlin é peculiar.
No último domingo, Putin se apresentou ao eleitorado para o terceiro mandato como presidente — após o segundo ele se “contentou” em ser primeiro-ministro — e venceu amplamente, com 63,7% dos votos. Mas as acusações de fraude se ampliaram e milhares de russos, nas ruas de Moscou e São Petersburgo, denunciaram o resultado. Isto aconteceu apesar de as autoridades eleitorais terem instalado cerca de 180 mil web câmeras nas seções eleitorais para prevenir delitos. Os principais líderes do protesto já estão presos novamente.
Fraudes ocorreram de fato, mas talvez a melhor explicação para a dissonância entre o que dizem as urnas e o sentimento de revolta de parte dos cidadãos tenha sido dada pelos observadores europeus que monitoraram o pleito. Seu julgamento é que o resultado da eleição presidencial foi predeterminado pela cobertura tendenciosa (pró-Kremlin) da TV e pelo uso de dinheiro e recursos públicos em apoio à campanha de Putin. O que também não é novidade.
Esta, se houver, estará no fim da longa lua de mel entre o povo russo e Putin, que já leva 12 anos no poder e quer ficar outros tantos, batendo Leonid Brejnev (18 anos). Depois do caos que se seguiu ao fim da URSS, e do às vezes histriônico mandato de Bóris Yeltsin, Vladimir Putin emergiu das sombras para se tornar o líder frio, determinado e poderoso para recolocar a Rússia no seu lugar de direito. Ele o fez, surfando também na alta de preços de petróleo e minérios, o ponto alto da pauta de exportações. Mas o fez à maneira russa — muito autoritarismo, pouca democracia e nenhuma transparência.
Isso serviu por um bom tempo, mas hoje não é suficiente. A classe média, que melhorou de vida com o crescimento econômico, já não se conforma em ver o país dirigido ao bel-prazer de Putin e seu grupo, uma cleptocracia que tudo pode. O Parlamento é apenas um cartório de confirmação das deliberações dos poderosos. Os cidadãos querem ter vez e voz nos destinos do país. Precisam de instituições que os representem, em vez dos pronunciamentos do Kremlin prometendo fazer e acontecer depois de alguma grande tragédia ou acidente, que talvez pudesse ser prevenido ou atenuado se a burocracia estatal da era comunista funcionasse como deveria.
O comando ao mesmo tempo frio e enérgico de Putin, que remetia frequentemente à URSS superpotência e que por tanto tempo manteve os russos saciados, se defronta agora, apesar da vitória eleitoral, com uma sensação de ilegitimidade que deverá trazer-lhe problemas. Ele é o único com autoridade para iniciar um processo de abertura, que, ao fim dos seus mais seis anos de mandato, possa promover o casamento entre a Mãe Rússia e o regime democrático. É só Vladimir Vladimirovitch Putin querer.
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