Brasileira conta como é a vida de estudante na Ucrânia

Se tem uma coisa que me emociona é ver gente estudando sério fora do Brasil. Gente que sofre, bota a cara, aprende a língua e encara mil desafios para crescer profissionalmente e representar bem nosso país. Outro dia, conhecia a Oksana Jadvizak, brasileira descendente de ucranianos que voltou ao país de seus ancestrais para estudar História. Ela mandou esse texto que cobre basicamente todos os aspectos da vida de um estudante brasileiro no exterior. Sobretudo no leste europeu. Vale a pena? Muito. Mas você tem que ter em mente que a cobrança é monstruosa e a vida não vai ser nada fácil.

Dá uma lida no texto. É longo, mas é tão bem escrito, fluido e vivo que você nem vai perceber!
 

ESTUDAR NA UCRÂNIA

 

Este texto tem como objetivo, a partir de uma experiência pessoal, relatar a realidade universitária de uma estudante brasileira na Ucrânia, as dificuldades iniciais, os desafios, a superação dos obstáculos, os aspectos positivos e negativos, vantagens e desvantagens. De certa forma, este texto pode ser considerado também a voz e o sentimento de muitos estudantes na Ucrânia.

No Brasil, muitos jovens, descendentes ou não de ucranianos, sonham estudar no exterior. Poucos, porém, conseguem. Não basta sonhar e querer. É preciso, sobretudo, ter coragem e motivação suficientes para enfrentar os desafios que a nova realidade impõem. Diria também, é preciso ter coragem e determinação para lançar-se na aventura de fazer novas experiências de aprendizado, de convivência com pessoas de visão filosófica e de mundo diferente e, até mesmo, com nível de conhecimento superior ao de muitos jovens brasileiros.

No início, tudo é muito difícil. A dificuldade de falar a língua ucraniana, de comunicar-se com as pessoas na rua e com os colegas na universidade, de adaptar-se a uma realidade estranha e diferente, de pedir ajuda, pois estrangeiros nem sempre são bem vistos e, às vezes, ser tratado com desprezo e grosseria.

Se num mesmo país existem diferenças culturais enormes, então, o que dizer de continentes diferentes? Onde está o Brasil e onde está a Ucrânia? Além da distância geográfica, existe também uma enorme distância cultural. Costuma-se dizer que os desafios movem o mundo, posi forçam a busca de uma motivação a mais para conhecer aquilo que ainda não se conhece, de aprender coisas novas, de trocar experiências, de fazer experiências novas.

Quinze ou vinte anos atrás, quem, dos jovens brasileiros descendentes de ucranianos, pensava estudar na Ucrânia? Era algo não só impossível, mas impensável. Hoje é realidade que tornou-se possível graças ao Projeto da Representação Ucraniana Brasileira, conduzido pelo seu Presidente, Dr. Vitório Sorotiuk. É uma oportunidade que se abre para muitos jovens das comunidades e colônias ucranianas no Brasil. É claro, para alguns pode ser um privilégio, para outros a realização de um sonho, para muitos uma grande frustração. Na minha opinião, a questão de estudar na Ucrânia precisa ser pensada muito além de uma oportunidade profissional ou de realização de sonhos pessoais, mas também como uma necessidade de troca, e de contribuição com a comunidade ucraniana do Brasil, ou seja, de partilhar as aquisições culturais com os patrícios do Brasil.

Aqui na Ucrânia é muito valorizada a bagagem cultural que cada brasileiro traz e, frequentemente somos desafiados. Nos debates e mesmo nas conversas informais, afloram perguntas sobre o Brasil e sobre a imigração ucraniana no nosso país. É necessário ter um bom conhecimento sobre essas realidades, pois quem vem para cá tem o compromisso de representar o nosso país e o grupo ucraniano, principalmente quando diz “я з Бразилії»! Diga-se de passagem, temos passado por situações bastante constrangedoras diante de perguntas provocativas e comentários depreciativos a respeito do Brasil. É nesses momentos que a gente sente orgulho de ser brasileiro.

A Ucrânia, um país de mais de mil anos de história, antiga e rica arquitetura e construções centenárias, oferece um ensino de qualidade e de nível igual ao dos países europeus. Aqui está umas das mais antigas universidades europeias – a Universidade Nacional Taras Shevchenko, por exemplo.

O ensino funciona em período integral. O estudante passa a maior parte do dia na Universidade: em sala de aula, na biblioteca ou participando de seminários, debates, conferências e outros expedientes acadêmicos. Estudar aqui é dedicação total. A rotina acadêmica consome o dia todo – como dizemos no Brasil, é muito “puxado”. O ano letivo inicia-se em setembro e vai até final de junho. A Faculdade de História Geral da Universidade Católica de Lviv, por exemplo, oferece cursos de várias línguas, como latim, inglês, grego, língua eslava antiga (caso seja preciso ler documentos antigos), alemão, italiano e russo. Em cinco anos, que é o tempo de duração do curso, o estudante tem chances de aprender várias línguas ou pelo menos o necessário para poder dar conta dos conteúdos das disciplinas e das leituras obrigatórias em língua estrangeira.

O sistema de avaliação é interessante e produtivo. É através de seminários e debates. Não existem trabalhos coletivos. Cada seminário exige do aluno preparação, muita leitura e participação nos debates. Quanto mais o aluno participar, mais pontos acumula. Se não participar, não falar nada, zera a pontuação. No decorrer dos seminários acontecem as avaliações escritas. O exame acontece no final do período, porém, para fazer o exame o aluno deverá somar pontos suficientes. Se não somar, está automaticamente reprovado. Já presenciei inúmeras situações em que os alunos não somaram foram reprovados antes mesmo de prestar exames. Existe também a possibilidade de o aluno somar pontos através da elaboração de trabalhos escritos. Porém, precisam ser muito bem feitos. A exigência é muito grande e a avaliação é muito rigorosa. As provas finais podem ser escritas ou orais. São muito difíceis. Por exemplo, na disciplina de História da Ucrânia, somente sobre o século XVII, o professor elaborou um questionário de 120 questões e enviou para os alunos. Todas as questões deviam ser estudadas e preparadas. No exame ele pediu duas.

Estou falando desses detalhes para dizer que estudar na Ucrânia é uma batalha difícil. Os professores não fazem exceção. Os alunos estrangeiros são submetidos à avaliações de mesmo nível que os daqui. Disse uma Professora na Universidade ‘я не роблю винятку. Іноземці будуть писати такі самі іспити як всі.’ (eu não faço exceção. Os estrangeiros farão os mesmos exames que todos fazem).

Antes de concluir, gostaria de colocar uma questão delicada, mas necessária que tem a ver com o Projeto da Representação Ucraniana Brasileira de enviar jovens para estudar na Ucrânia. Trata-se do suporte econômico, ou seja, de bolsa que cobre não só os custos da Universidade, mas também o custo de vida do estudante tais como saúde, moradia, material para estudo (livros, xerox…) e dá condições dignas para que ele realmente estude. Alguns estudantes brasileiros que para cá vieram por conta do Projeto da Representação Ucraniana, no início, ficaram desamparados e sobreviveram graças à caridade de algumas pessoas. Isso não é bom. Aqui somos todos estrangeiros e as condições de vida daqui são diferentes das do Brasil e muitas vezes hostis, como por exemplo, o inverno. A Universidade também oferece bolsa (um valor que se recebe durante o mês para gastos com livros, xerox e material acadêmico), mas seus critérios são rígorosíssimos. É preciso atingir notas máximas em todas disciplinas, caso alguma nota seja somente média mínima, a bolsa é cancelada. Se reprovar em alguma disciplina, perde-se a vaga.

Não entendam isso como uma crítica maldosa ou desconsideração pelo trabalho da Representação, mas como uma observação e contribuição de quem está do “lado de cá” vivendo a realidade de estudante estrangeira na Ucrânia. O que se quer é que o Projeto da Representação prospere, se desenvolva, cresça e não caia em descrédito ou se fale dele coisas indevidas. Mas é preciso fazer alguns ajustes, repensar, rever acordos etc..

Apesar de tudo isso, estudar na Ucrânia é altamente valioso e compensatório. Agora, perto da conclusão do curso, a sensação é que o esforço, o sofrimento, a dedicação e as pequenas vitórias valeram a pena. Acima do valor do diploma está a experiência, o crescimento cultural, o aprendizado de outras línguas e sobretudo, o que é mais gratificante, a fluência da língua ucraniana. Inúmeras são as oportunidades para enriquecer-se culturalmente. Minha gratidão a todos que me ajudaram e continuam ajudando, desde os primeiros passos lá do Brasil. E aos daqui que me acolheram, que se tornaram meus mestres de ciência e vida, minha eterna gratidão. Os ucranianos dizem – СЛАВА УКРАЇНІ! E nós acrescentamos – СЛАВА БРАЗИЛІЇ!

Oksana Jadvizak
graduanda do Curso de História
da Universidade Católica de Lviv, Ucrânia.

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Ucrânia: repórter conta história do ‘Jogo da Morte’

A história do ‘Jogo da Morte’ é uma das mais conhecidas no mundo do esporte. Em linhas gerais, o FC Start era um time de ucranianos, egressos do Dínamo de Kiev e do Lokomotiv, formado durante a ocupação nazista de Kiev (ou Kyif), que disputou nove partidas, venceu todas, e acabou fuzilado ainda com os uniformes após golear a equipe de pilotos da Luftwaffe alemã.

A história inspirou o livro ‘Futebol ao sol e à sombra’, de Eduardo Galeano, e o filme ‘Fuga para a vitória’, com Pelé, Michael Caine e Sylvester Stallone, além de inúmeras outras obras ao longo da história, mundo afora que, inclusive, revisam a história, trocando um final trágico por outro, embora menos épico.

Agora, é a vez do nosso amigo e repórter do Globoesporte.com, Rafael Maranhão, contar essa história, visitando os locais onde tudo teria acontecido, na Ucrânia. Vale muito a pena ler, pois trata-se de um capítulo crucial da cultura e da vida ucraniana pós-soviética, além de uma das mais belas histórias do esporte mundial, que teria sido inspiração, durante muito tempo, para as resistências ucranianas a seus ocupantes, sejam eles quem fossem.

Desencorajada no tempo da União Soviética, a história é recontada agora pelo filme ‘Match’, com o ator Sergei Bezrukov, que fez também ‘Vysotskii’, ‘V yune 41′, ‘Master i Margarita’ e ‘Ironya Sudby – Prodolzhenii’. A produção estreia às vésperas da Eurocopa na Ucrânia, no fim de abril.

Assista aqui ao trailer do filme (em russo)

Aqui, imagens do filme ‘Fuga para a vitória’, de 1981, com Stallone e Pelé.

E não esqueça de conferir o blog do Rafael Maranhão, sempre com uma história bacana direto da Europa para contar.

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‘Não conta lá em casa’ na devastada Ossétia do Sul

Ontem foi dia de viajar pela outra Rússia, aquela sem Kremlins ou loiras em baladas de rico, no ‘Não Conta Lá em Casa’. A bola da vez é a Ossétia do Sul, devastada por uma guerra em 2008 que opôs, mais uma vez, Rússia e Geórgia.

Como a gente já falou um monte sobre guerra e história no último post, hoje eu vou tentar falar de uma coisa muito mais legal: comida. Não que eu saiba receitas da comida ossetina, mas, como convivi muito tempo com esse povo gente finíssima, aprendi, ao menos,quais os pratos, do que são feitos e, mais importante, como comer.

Então, aqui está o vídeo. Se quiser ler um pouco mais sobre o que viu na mesa – a culinária osseta – tem uns parágrafozinhos abaixo. Confira a viagem, que acabou com um mergulho na represa zonkarskoe.

Para começo de conversa, fiquei orgulhoso que a turma traçou tudo, bonitinho. Mas depois o @FelipeUFO confessou que não comeu a carne. Pecado mortal, recusar comida no Cáucaso. Eu já repeti várias vezes aqui: lá há um ditado que diz ‘o convidado é um santo’. Eles preparam tudo para você, botam o que há de melhor na mesa. Melhor comida, melhor vinho, melhor água, melhor vodka. Sugestão? Evite recusar. Respira fundo, reza e come. Eles sempre andam com um baita punhal na cintura… heheheh!

Bom, ali, à mesa, a gente vê três elementos básicos: o osetinskii pirogi, o baran e o pelmeni osetino, além do vinho feito em casa, do araká e da água mineral. O osetinskii pirogi eu traduziria como ‘pastelão ossetino’ ou ‘torta ossetina’. É feita do delicioso queijo ossetino (produzido com leite de ovelha ou de cabra), que é seco, salgado e é a base da culinária local desde tempos idos. A ‘torta ossetina’ pode ser de vegetais, só de queijo ou de carne. O baran é o bode, como nós conhecemos, assado, temperado e delicioso. O pelmeni ossetino é uma espécie de capeletti sem molho, feito só na água, em forma de trouxinhas. Tudo muito delicioso!

Num banquete ossetino, a mesa é farta. Como tudo é feito com queijo de cabra/ovelha e carne, fica muito, muito pesado. Sem contar o sal… Some-se a isso os brindes com araká – bebida tradicional feita de grãos de milho – e o vinho caseiro, e você tem um dia ou uma noite inteira de comilança e pança cheia.

Sobre as tradições, eu lembro de algumas. Sempre, sempre, nas mesas, os pirogis (ou pastelões), são servidos de 3 em 3, simbolizando os três elementos que dão vida ao homem: o sol, a água e a terra. Em caso de funerais, só são servidos dois, já que algo está faltando… Antes de se servir, há sempre um brinde. E os ossetas têm uma dezena de falas tradicionais. Em cada um, erguem-se os copos, fala-se o brinde em osseta e em russo, caso haja convidado. E este também é convidado a brindar na língua que quiser. Logo depois, vira-se o copo inteiro, seja vinho, vodka ou araká. Nada de bebericar ou ficar dando bicadinhas…

Ainda sobre as bebidas, tradicionalmente, um osseta nunca bebe sem motivo. Seja uma festa, casamento, feriado ou recepção a hóspede, é preciso uma boa razão para beber. E, aliás, beber até cair é muito, mas muito mal visto por lá. Você bebe até seu limite. E é incrível como todos fazem isso. Não lembro de ter visto ninguém cair de bêbado por lá.

Vale citar também a água mineral do Cáucaso. Eles dizem lá que é uma das melhores do mundo, tem propriedades medicinais e pode ser bebida virtualmente em qualquer lugar. Eu sempre ficava meio cabreiro, mas depois me acostumei. E fato: é deliciosa e eu não fui contaminado por nenhum parasita. No fim do vídeo e na penúltima foto, você vê os caras bebendo água dum cano. Aposto que estava deliciosa!

No Iriston, você encontra algumas receitas da culinária osseta (em russo). Além de muita coisa sobre a cultura deles. Recomendo uma visita!

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‘Não Conta Lá em Casa’ visita a escola de Beslan

Ontem, enfim, foi exibido no canal ‘Multishow’, o episódio do programa ‘Não Conta Lá em Casa’ gravado em Beslan, na Ossétia do Norte, no Cáucaso russo. A cidade entrou no mapa no dia 1 de setembro de 2004, quando um grupo de terroristas ingushes e chechenos fortemente armados invadiu a escola número 1, fazendo 1.100 pessoas reféns – entre elas, 770 crianças. Após três dias de tensão, 380 pessoas morreram, entre terroristas, crianças, professores, civis e militares russos.

Estive na Ossétia do Norte, também conhecida por ‘Alania’, alguns anos atrás. É um dos lugares mais simpáticos dentre todos os que conheci na Rússia. No âmbito do Cáucaso, onde praticamente todos as etnias têm problemas históricos com os russos, trata-se de um pequeno oásis, onde se fala bem a língua russa e não se alimenta nenhum problema com Moscou.

Tudo aconteceu no 1 de setembro, o День знаний (Dyen Znanii, dia do conhecimento), ou праздник Первого звонка (Prazdnik pyervovo zvonka, feriado do primeiro toque de sinal), quando os alunos da primeira série vão com suas melhores roupas, fazem festa, cantam e comemoram o início do ano letivo presenteando os professores com flores. Um dia de celebração nas escolas, que ficam lotadas, em todo o país.

Logo depois de partir de Beslan, o quarteto cruzou a fronteira com a Ossétia do Sul, rumo a sua capital, Tsikhinvali lugar onde, em 2008, houve uma ferrenha guerra entre russos e georgianos pelo controle do local. O vídeo do programa está logo aqui. E se você tiver quise saber mais sobre esse lugarzinho no mundo, o qual posso dizer que conheço muito bem, mais abaixo eu conto um pouco da história desse pequeno e belo enclave nas montanhas, onde se fala o ossetino, uma variação do iraniano.

E não esqueça de seguir a aventura dos caras. Todas as info estão no site oficial do programa ou na página do Facebook deles.

Ирыстон (Iryston), o nome do país na língua local, é habitado desde tempos imemoriais pelos ‘alanos’, que chegaram a dominar a Europa pouco antes do século X. O que é hoje a Ossétia do Norte foi anexada ao Império Russo no final do século XVIII. Já a parte sul é reclamada pela Geórgia como parte do principado de Kartli, e foi anexada pela Rússia no início do século XIX.

Logo depois da Revolução Bolchevique, a Ossétia foi oficialmente dividida: o norte ficou com a República Federativa Soviética Socialista da Rússia, enquanto o Sul, para atender aos anseios seculares georgianos, com a República Soviética Socialista da Geórgia. O país foi rachado ao meio, dividido pela principal cordilheira do Cáucaso.

Enquanto o Norte, a Alania, é homogêneo em sua população, o sul guarda uma enorme mistura com os georgianos – e nunca teve uma clara fronteira com o vizinho. Nas duas principais cidades do sul, Java e Tsikhinvali, a capital, a população é predominantemente osseta, e você vai ouvir somente essa língua, além do russo. Já nas outras cidades, essencialmente vilas, a maioria é georgiana – que mantém sua língua e tradições. No geral, no território sul-ossetino, a divisão étnica é algo em torno de 70-30 para os alanos.

Pouco antes da queda da União Soviética, a Ossétia do Sul exigiu mais autonomia, a Geórgia negou e, ao fim do Império Vermelho, os sul-ossetinos aprovaram sua independência em um plebiscito. Obviamente, a Geórgia refutou o resultado. Nesta mesma época, a URSS ratificou a unificação das Ossétias, mais uma medida abolida pela Geórgia. A primeira guerra entre os três lados, Rússia, Ossétia do Sul e Geórgia, estourou em 1990 e durou até 1992.

Após o conflito, foi criado um ‘corredor militar’ que durou até 2008. Uma zona observada por forças de Rússia e Geórgia, deixando uma Ossétia do Sul cuja situação política permaneceu no limbo: declarou independência, mas ninguém reconheceu. Quando eu fui lá, cheguei a cruzar esse corredor militar. E foi uma experiência tensa, apesar de ter transcorrido sem problemas.

Em 2008, após novas hostilidades, a Geórgia invadiu a Ossétia do Sul, para reclamar o controle de seu território, e foi repelida após poucos dias por uma coalizão entre forças russas, sul-ossetas e abkházias, outra parte do território georgiano que quer independência. Hoje, a Ossétia do Sul é ‘independente’, mas, na prática, está sob controle russo. Vale lembrar que a maioria dos sul-ossetas, desde muitos anos atrás, recebe passaporte da Federação Russa, ou seja, são parte da Rússia.

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Ativistas do Femen na Bielorrússia: isso é protestar

Quem acompanha o blog sabe que, hard news, as notícias do cotidiano, eu evito falar aqui, já que você vai ler em todos os sites de notícia. Por isso também, evito falar do Femen, aquele grupo ucraniano de mulheres que protestam de topless, pois elas são figurinhas carimbadas nos portais da vida. Mas essa prisão delas em Minsk, após um protesto, foi um ato temerário

Mas vou falar, rapidinho, desse ato delas na Bielorrússia (ou Belarus, se preferir). Tudo aconteceu no dia 19 de dezembro, em frente à sede da KGB de Minsk, com cartazes onde se lia ‘Viva a Bielorrússia’ e ‘Liberdade para prisioneiros políticos’. Uma delas, a mais gordinha, inclusive usava um bigode e imitava o presidente do país, Alexander Lukashenko, tido como o último ditador da Europa.

O protesto foi amplamente noticiado mundo afora, pois todo mundo sabe como o regime de Minsk trata os dissidentes políticos: tortura, prisão e até a morte. As três meninas, Alexandra Nemtchinova, Inna Schevtchenko e Oksana Shachko, mais a australiana Kitty Grin, acabaram, obviamente, presas, e seu paradeiro ficou desconhecido durante muitas horas.

A australiana apareceu, horas depois, em Vilnius, na Lituânia. Foi deportada e acompanhada pelos agentes da temida KGB local, após horas de interrogatório e ameaças. E Grin só foi solta após um trabalho intenso da embaixadora australiana. Mas as ucranianas seguiam sumidas e assim ainda seguiram por mais de 24 horas.

No fim do dia 20, elas foram, enfim, localizadas, na floresta de Beiki, na região de Gomel, sul da Bielorrússia. Foram levadas para lá por agentes, de olhos vendados. Lá, foram espancadas e tiveram os cabelos cortados. Após a sessão de tortura, os agentes largaram as três, nuas, na floresta gelada e partiram. Mas claro, filmaram toda a ação. As ucranianas conseguiram achar alguém que as ajudasse e conseguiram chegar até a embaixada ucraniana.

Ao jornal Komsomolskaya Pravda de Minsk, a KGB bielorrussa se justificou:

‘- Это спланированная и грубая провокация, которой будет дана соответствующая юридическая оценка’

‘É uma escandalosa e grosseira provocação, a qual irá merecer as devidas providências jurídicas’

Aqui, as meninas dão as primeiras entrevistas na Ucrânia após voltarem para casa.

Há muito tempo que, infelizmente, a Bielorrússia convive com a repressão severa de um regime absolutamente anacrônico e bizarro. E, ainda infelizmente, ninguém no mundo parece se importar. Recentemente, uma ‘primavera’ foi sufocada com violência em Minsk e, novamente, ninguém deu a menor importância. Claro, não há nem petróleo nem grandes riquezas na Bielorrússia. E, ainda por cima, Lukashenko é um aprendiz de Putin. Se você se mete com ele, se mete com Putin. E ninguém quer isso.

E há muito tempo que o Femen briga em seu país contra um sistema político também neossoviético, corrupto e cruel com o povo. Se a forma é correta ou não, não me cabe julgar. Mas pensemos: elas lutam com o que tem, protestam veementemente e levam isso a sério. Isso é protestar e exigir liberdade política e de expressão.

Os protestos que acontecem em Moscou – e nas outras cidades russas – são teatros. Não tenha dúvida, não vão mudar nada. Todos são autorizados pelo governo, acontecem com hora marcada, nos dias em que Putin permite. O clima é sempre de carnaval, de feriado – e a maioria da população inclusive encara como tal, um feriado.

O que o Femen faz, creiam, é protestar, é ser oposição, na verdadeira acepção da palavra. É como os que lutaram contra a ditadura aqui e em todos os países do mundo. Gente que está disposta a dar a vida pela liberdade em seu país. Gente que quer mudar. Elas estão arriscando tudo para mudar uma realidade absolutamente patética e surreal. E não medem esforços para isso. Isso é protestar e ser oposição.

Há um blogueiro – e eu já falei dele no Twitter e no Facebook do Falando Russo – chamado ‘La Russophobe’ que é um dos maiores e mais incisivos críticos da sociedade pós-soviética. Há anos, ele espinafra sem dó e sem medo. Leitura recomendada, mesmo que você, assim como eu, muitas vezes não concorde com ele. Em seu novo blog, ele expôs exatamente esse ponto de vista, essa comparação entre o Femen e a ‘primavera russa’. E é exatamente como eu penso. Leia a íntegra aqui.

Russians, it seems, do not yet even know the real meaning of the word opposition. Their efforts to challenge the neo-Soviet regime of Vladimir Putin are ineffectual, senseless, indeed pathetic. Their actions do not in any way indicate that Russians are willing to take real risks or that they feel any true sense of outrage or urgency. On behalf of the Russian people, we are ashamed.

Enfim, é para pensar. Se você quisesse mudar uma realidade – como tunisianos, egípcios, líbios, sírios, iemenitas e outros tantos ao longo da história mudaram – você iria mesmo achar que o poder central pudesse autorizar você a fazê-lo? Iria mesmo achar que, dialeticamente, alguém obcecado pelo poder, iria largá-lo?

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Matéria muito legal do Pravda - professor da USP visita Centro Lusófono em São Petersburgo - http://t.co/uq0vEQIC