Oposição ‘prende’ Pútin e corre risco de perder a razão
fev 15, 2012 Política, Vida na Rússia
Não curti esse vídeo do Pútin sendo preso, mas como isso virou um tremendo buzz, boto aqui e deixo minha opinião. Imagine que fazem um vídeo semelhante com Lula ou Dilma, em ano eleitoral? Pois é. Por mais que a gente não goste, não respeite, sempre tem que partir pro argumento democrático. Ainda que, em alguns casos, os outros lados não sejam lá muito dialético-democráticos…
Eu sempre cito o terrorismo que Collor e cia. faziam com Lula, nas eleições presidenciais de 1989. Hoje é exemplo do que NÃO fazer em uma eleição. E, por mais engraçadinho que isso seja, acaba desacreditando uma eventual oposição, talvez até provando um certo desespero. Mas eu também posso estar sendo amargo demais. Enfim, assistam, leiam o bom texto da AFP e tirem suas conclusões.
Vídeo de Putin ‘julgado’ por terrorismo é sucesso na web entre os russos
Da AFP
Uma montagem de vídeo que mostra o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, no banco dos réus em um julgamento por “planejamento de atos de terrorismo” já foi vista mais de 2 milhões de vezes nesta quarta-feira, três dias depois de ser postado na internet.
“A prisão de Vladimir Putin: reportagem do tribunal” mostra o homem forte do país no Tribunal Khamovnitcheski de Moscou, sendo julgado pelo magistrado Danilkine Viktor, que condenou no final de 2010 o ex-magnata do petróleo e crítico do regime russo, Mikhail Khodorkovsky.
A voz em off explica que Putin foi julgado por “apropriação indevida de propriedade do Estado”, “abuso de poder”, “maquinações financeiras” e “participação na preparação de atos terroristas destinados a espalhar o terror entre a população e influenciar os órgãos do Estado”.
“Nós soubemos que há três horas o ex-primeiro-ministro foi escoltado ao tribunal Khamovnitcheski”, explica a falsa reportagem.
Vídeo de Putin ‘julgado’ por terrorismo é sucesso na web entre os russos (Foto: Reprodução de vídeo)Vídeo de Putin ‘julgado’ por terrorismo é sucesso na web entre os russos (Foto: Reprodução de vídeo)“O porta-voz do juiz Viktor Danilkine deu esclarecimentos sobre a situação, explicando que o julgamento começa hoje”, prossegue.
Na imagem, vemos Putin, cabeça abaixada, de pé em uma cela, onde os réus permanecem durante os julgamentos nos tribunais russos. Às 15h GMT (13h de Brasília), o vídeo tinha sido visto por mais de 2 milhões de vezes.
“Eu não esperava todo este sucesso”, disse Vadim Korovine, cuja empresa de difusão de vídeos Lancelot postou a montagem. “Acho que muita gente ia preferir ver ele dentro da prisão”, acrescentou em uma entrevista à France Presse por telefone.
A eleição presidencial do dia 4 de março se aproxima e Vladimir Putin ainda é o favorito, “a questão é saber que tipo de pessoas é essa que vamos reeleger”, prosseguiu Korovine.
O vídeo postado na terça-feira na conta do youtube LancelotChannel, pertencente a Lancelot promove um documentário “O assassinato da Rússia”, de 2002.
Este filme acusa o Serviço Federal de Segurança (FSB) de orquestrar os atentados de 1999 na Rússia para justificar uma nova guerra na Tchetchênia e permitir a ascensão ao poder de Vladimir Putin, ex-oficial da KGB e ex-chefe do FSB.
Um dos diretores do filme era Alexandre Litvinenko, ex-funcionário do FSB e opositor do regime russo, morto em novembro 2006 em Londres após ser envenenado por uma substância radioativa.
Korovine explicou que dispõe dos direitos de exibição na Rússia do documentário realizado pelos diretores franceses Jean-Charles Deniau e Charles Gazelle, mas o Ministério da Cultura interditou a sua difusão.
Os opositores russos, sem acesso às mídias tradicionais, estão fortemente presentes na internet, e vídeos denunciando Putin alcançam regularmente o sucesso na rede.
‘Cinismo russo e chinês na crise síria’ – O Globo
fev 10, 2012 Na imprensa, Política, Vida na Rússia
O Globo – 10/02/2012
O ditador sírio Bashar Assad continua se aproveitando do veto de Rússia e China à ação do Conselho de Segurança da ONU para arrasar a cidade de Homs com bombardeio pesado, atacando homens, mulheres e crianças sob o pretexto de reprimir os que lutam contra seu regime. Os Assad estão no poder há 31 anos.
Rússia e China agiram movidas por lamentável cinismo ao vetar uma versão já desidratada de um plano da Liga Árabe, apoiado pelo Conselho de Segurança, com objetivo de deter a carnificina. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, diz considerar inadmissível a interferência em assuntos internos de outro país e oferece as garantias obtidas por seu chanceler em Damasco de que Assad vai parar com o banho de sangue.
É o caso de se perguntar: o que vale mais, um princípio diplomático ou a vida de milhares de pessoas? E só há uma coisa mais desvalorizada no mercado hoje que os títulos da Grécia: as promessas de Assad.
Rússia e China parecem movidos por velhas noções da Guerra Fria, felizmente já sepultadas.
Por trás dos princípios diplomáticos de Putin está o desejo de manter vestígios de poder da União Soviética em antigas áreas de influência, como o Oriente Médio. A Rússia herdou da URSS a única base naval em “mares quentes”, no Mediterrâneo, em Tartus, na Síria. Há motivos mais cínicos: o atual regime sírio é um grande comprador de armas russas, um cliente que Moscou não quer perder. Putin, atual premier russo, está em campanha para voltar à presidência, e falar grosso com o Ocidente pode render muitos votos na Rússia, às custas das vidas de milhares de sírios que ele finge defender.
A diplomacia se movimenta.
Os Estados Unidos, imobilizados pelo veto russo-chinês no Conselho de Segurança, propõem a criação do grupo dos Amigos da Síria para retomar a iniciativa. A União Europeia estuda novas sanções ao regime de Assad. A Liga Árabe anuncia que reenviará sua missão à Síria, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, concorda em torná-la conjunta. A Turquia diz que não pode mais ficar apenas observando a carnificina e desloca seu chanceler, Ahmet Davutoglu, para discutir com a Casa Branca a melhor forma de agir. Até a China resolve enviar um diplomata para contatos com a oposição síria.
A comunidade internacional deve implementar da forma mais eficiente possível as sanções contra Damasco, ao mesmo tempo em que insiste com Moscou e Pequim para que modifiquem sua posição e convençam Bashar Assad a deixar o poder. É patente que nem o Kremlin nem Pequim se sentem à vontade com primaveras árabes ou de outra natureza. Multidões nas ruas e praças pedindo a cabeça de ditadores não lhes fazem bem. Temem o efeito contágio.
Mas será imperdoável que ambos continuem bloqueando uma missão que, mesmo com seu apoio, é extremamente complexa: impedir que um ditador que nem desejava o cargo — assumiu com a morte do pai porque seu irmão mais velho, Basel, morrera num acidente de automóvel — prossiga martirizando a população síria.
Nota: Se O Globo ainda fosse um jornal da ‘Era Online’, eu postaria o link aqui. Como deixou de ser tem algum tempo, fica difícil.
Choque de gerações ganha conotação de ‘Guerra Fria’
fev 6, 2012 Matérias, Política, Vida na Rússia
No último sábado, nós vimos que uma ‘batalha ideológica’ foi travada não só nas ruas de Moscou, como nas principais cidades da Rússia: Petersburgo, Ekaterinburgo, Volgograd, Perm… Dezenas de milhares se mobilizaram para defender seu ponto de vista político, seja ele pró ou contra Vladimir Pútin, o ‘partido dos vigaristas e ladrões’ (партия жуликов и воров, nome dado por Alexey Naválny ao ‘Rússia Unida’) e o status quo de autoritarismo, censura e corrupção. Mas, afinal, o que isso tudo representa?
Bom, ainda em 2011, eu tentei justificar aqui minha tese, de que, inicialmente, trata-se de um choque de gerações. E isso não começou ontem. Para ficar no âmbito dos ‘descontentes’, cito uma música de Yuri Schevchuk, líder da banda DDT e ferrenho opositor da retórica Pútin, chamada ‘Pokolenie‘ (geração), que diz ‘Уходит Наше поколение НЕТ, приходит Ваше поколение ДА’ (Sai a nossa geração, do NÃO, chega a vossa geração, do SIM!’). Schevchuk já profetizou isso, 10 ANOS ATRÁS, em 2002. Simplesmente não é possível que essa geração soviética, autoritária e decadente continue no poder de uma Rússia pós-moderna, fadada a cumprir outro papel no mundo, que não o pesado fardo de ser uma reles alternativa ideológica aos EUA. A Rússia tem que ocupar seu espaço, não o que sobrou do país que não existe mais.
Censura ideológica e guerra de desinformação
Voltando aos protestos de ontem, os números oficiais são confusos. Na Praça Bolotnaya, onde reuniram-se os opositores, dados oficiais contaram 36 mil pessoas, enquanto os ‘discordantes’, 120 mil. Já na Poklonaya, onde estiveram os pró-regime, os dados da polícia dão conta de 138 mil pessoas, número do qual a oposição duvida muito. Em todo caso, todos são unânimes: o movimento ‘anti-laranja’, no mínimo, se equiparou à oposição já em seu primeiro grande protesto.
Laranjas? Em 2004, a Ucrânia realizou eleições presidenciais que foram consideradas ‘vergonhosas’, devido ao absurdo número de fraudes constatadas. O povo, então, foi às ruas, misturando desobediência civil (os protestos devem ser autorizados, como na Rússia de hoje) com insatisfação política e conseguiu mudar tudo, destituindo o presidente eleito fraudulentamente Viktor Yanukovich, que era apoiado pelo ‘ditador’ pós-soviético Leonid Kuchma. O movimento ficou conhecido como ‘Revolução Laranja’. Além disso, a cor era a da campanha de Yuschenko, candidato da oposição. Mais a fundo, “ânimo laranja” (oранжевое настроение) é uma expressão utilizada por russos e ucranianos, equivalente ao nosso “tudo azul”. É usada diariamente, de lojas de brinquedos, a de produtos naturais e tem até um hino, a música Оранжевое настроение (Oranzhevoe nastroenie), da banda Chaif, gravada em 1994.

Isso você, certamente, não vai ler na mídia ocidental, que insiste em números como 35, 40 mil pessoas, para os ‘satisfeitos’. Isso quando os jornais não ignoram completamente esse desagravo monumental a Pútin (como o Guardian) ou mesmo usam fotos desta ação, bizarramente, dizendo ser do ato da oposição. Como o fez, aliás, o Le Parisien, que usou uma foto do protesto errado, e que foi seguido por muitos outros jornais, inclusive, no Brasil…
Governo acusado de comprar simpatizantes e inflar números
Mas aí você pergunta, já que leu em alguns blogs que o protesto pró-Putin foi ‘armado’. Sim, há relatos de sindicatos que organizaram caravanas com dinheiro público para levar empregados aos protestos, de gente que recebeu 500 rublos para participar deles e de gente que estaria sendo ameaçada de perder o emprego, caso o premiê não se eleja presidente. Tudo isso, sim, existe, e nós já vimos esse filme aqui no Brasil, nas eleições de 1989, lembra? Collor apelava para o medo, dizendo que, caso Lula ganhasse, teríamos que abrigar sem-teto em nossos apartamentos, as fazendas seriam coletivizadas. Seu slogan era “contra a foice e o martelo, vou de verde e amarello”.
Da mesma forma que a situação usa artimanhas para inflar números, a oposição também o faz. Lembro que, sobretudo inicialmente, essas ‘marchas de discordantes’ eram movimentos hypados, alternativos, da elite e de uma classe média ocidentalizada: eram A moda. Concordo que agora as pessoas estão perdendo o medo de ir para as ruas e protestar. Mas ainda há temor de prisões e de represálias. Isso sim, é inconcebível num país que se diz democrático.
‘Se não for Pútin, quem será?’
Mas, afinal, qual o problema da oposição? Bom, a gente bem conhece nomes como Naválny, Udaltsov, Nemsov, Yashin, Soobshak, Kashin… Mas, quem é o líder da contra-corrente? Qual seu capital político? Quem vai governar o país, se Pútin sair? A gente sabe muito bem que os russos são extremamente paternalistas e fatalistas. E que a Federação tem, pelo menos, uma dúzia de sublíderes e estados loucos para pedir independência ou mesmo usurpar a união.
Nenhum dos nomes, dos que sobem aos palcos de protesto com discursos inflamados, tem o menor cacife político para fazer o que Pútin faz muito bem e ainda por cima colocar o país no caminho da democracia. Com essa geração de transição, seria necessário um líder do porte de um Winston Churchill para tal tarefa. Só para ilustrar: a grande personalidade da oposição É Alexey Naválny. Além de ser um ótimo advogado, um blogueiro de mão cheia, que faz discursos inspiradores, Naválny não tem experiência política quase nenhuma. Como diz um amigo meu, nunca foi nem síndico de prédio, nem escoteiro-chefe. E nem na internet tem tanta força, nesse mundo pós-poderno-redes-sociais: seu número de seguidores no Twitter estacionou na casa dos 190 mil há semanas… Número muito baixo para uma figura tida como ‘extremamente popular’, ‘líder da oposição’ e ‘altamente influente na RuNet’, sobretudo no momento político turbulento do país. Para se ter uma ideia, Luciano Huck, do nosso “Caldeirão”, tem 4,5 milhões.
Ação precoce x reação tardia
E a situação demorou para agir. Os protestos de ontem, no entanto, comprovam, que Pútin está bem antenado. Seus simpatizantes cruzaram pontos-chave para a alma russa: a marcha começou no Museu da Grande Guerra Pátria (como eles chamam a II Guerra Mundial) e foi até o Parque da Vitória (referente também à II Guerra). E os sites, blogs, facebooks e twitteres do Edinnaya Rossia (Rússia Unida) conseguiram emplacar a ação nos Trending Topics do Twitter, coisa que a oposição não atingiu, embora incentivassem ‘tuitadas’ a cada discurso. Sim, há boatos de que as telecomunicações nos arredores da Bolotnaya foram “minimizadas”, mas, teorias da conspiração postas de lado…
O fardo e a sina de ser rival ideológico dos EUA
Falando em conspiração, ao mesmo passo que a oposição sobe o tom contra Pútin e cia., o governo revida, subindo o tom contra os EUA e o Ocidente. Agora, os americanos estão financiando a oposição russa, incentivando a desordem, ingerindo em países alheios, minando os bancos russos, criando tensão étnica onde não há e até derrubando satélites. A instrução, nos meios de comunicação russo, é uma só: focar nos EUA. E gente que acompanha já percebeu que essas notícias surgem de maneira indiscriminada ao longo do dia. Como no caso da incrível notícia do Comitê criado para investigar as supostas fraudes nas eleições de 4 de dezembro: especialistas disseram que vídeos que provariam os crimes eleitorais eram “montagens” divulgadas pelos EUA para desestabilizar o regime.
‘Vladimir Putin é uma ameaça à paz mundial’ – Mitt Romney, provável candidado à presidência dos EUA
‘Os Estados Unidos não querem parceiros, querem vassalos’ – Vladimir Putin
O que o governo quer, no fim das contas, é assumir o espólio moral soviético de oposição aos EUA, internacionalmente apoiando massacres, como na Síria, ditadores insanos com ideologia do ódio, como Irã e Coreia do Norte ou mesmo paranoicos maniqueístas como Hugo Chávez e Raúl Castro. Isso enquanto os EUA têm um presidente negro – fato histórico e impensável até anos atrás -, que cresceu na Ásia e enfrenta ao mesmo tempo uma das maiores crises econômicas da história, além de uma onda de baixa popularidade em plena época de reeleição. Sim, Obama pensa MUITO na Rússia.
Ao mesmo tempo em que a situação política vai se aprofundando, que a classe média vai ganhando voz, Pútin segue absoluto no poder e não parece se importar com a oposição. Dados dos institutos de pesquisa russos, como o Vtsyom e o Levada, apontam que, mesmo descartando-se o porcentual de votos fraudados apurados por ONGs internacionais, Pútin ainda seria vitorioso facilmente no primeiro turno. Isso faltando apenas 1 mês para as eleições. Zyuganóv e sua falácia comunista não são páreo para Pútin, que ainda não tem rivais. Ou seja, um eventual processo de mudança apenas pode ter começado, mas está muito, muito longe de terminar. A Guerra Fria 2.0, por outro lado, pode estar só começando.
Tags: eua, guerra fria, política, propaganda, protestos, putin
Vídeo pró-governo mostra provável ‘Rússia sem Pútin’
fev 5, 2012 Cultura, Política, Vida na Rússia
Enfim, o governo Pútin resolveu reagir aos protestos em massa dos últimos meses, que exigem eleições limpas e que Vladimir Pútin deixe o poder. Além da marcha ‘Za Putina’ (a favor do governo), que reuniu quase tantas pessoas quanto as ‘marchas dos descontentes’, um vídeo viral circula pela internet, mostrando o que seria da Rússia sem o atual premiê e virtual futuro presidente.
As imagens são perturbadoras. E usam a tática do terror psicológico, uma distopia fulminante que causa impacto. Com a ação, Pútin e seu partido se aproveitam da maior fraqueza da oposição: justamente sua fragilidade e ausência de uma liderança forte. Lembro que, nas manifestações populares, andam lado a lado liberais, comunistas, anarquistas e neonazistas. Uma bomba-relógio. Todos têm seu microlíder e não há nenhum forte nome político.
Segundo as pesquisas para a eleição presidencial, apenas um nome pode sequer ameaçar que a eleição não tenha um segundo turno: Gennady Zyuganov, líder do partido comunista, nascido em 1944. Ou seja, de uma geração tão ou mais afeita ao autoritarismo e à ausência de quaisquer possibilidades democráticas. Além de zyuganov, não há a menor possibilidade de qualquer outro político russo sequer ameaçar Vladimir Pútin.
Por mais bizarro que isso possa parecer, o cenário distópico, exagerado e aterrorizador do vídeo viral pró-Pútin – ou pelo menos alguns dos eventos nele contidos – são extremamente possíveis. Grupos extremistas no poder, desmembramento da Federação Russa, enfraquecimento econômico, guerras internas. Tudo isso é e foi mantido longe do país, ao longo dos últimos anos, via mão de ferro do atual premiê. Esse autoritário pulso forte é sua maior qualidade – seu maior capital político – e sua maior fraqueza, pela qual é duramente criticado interna e externamente.
Assitam ao vídeo. Vale muito a pena. Abaixo, eu fiz uma tradução rápida do que o narrador fala, para que todos possam acompanhar mais esse capítulo da guerra ideológica na Rússia. E, como disse no Facebook ontem, eu não queria estar na pele dos russos, que terão que escolher entre Pútin ou Zyuganov. E, se não for Pútin, quem será? Triste dilema.
(Ah, antes que os democratas me crucifiquem por postar esse vídeo, lembrem-se: eu não sou nem a favor nem contra Pútin. Essa é uma escolha única e exclusiva dos russos. O que eu tento fazer é mostrar um pouquinho do que acontece por lá, coisas que vão além das bobagens que a gente lê por aí.)
Em Moscou, a oposição grita “Rússia sem Pútin”. Imagine, Vladimir Putin não existe mais. O que será da Rússia sem Pútin?
Março de 2012: eleições presidenciais canceladas. Duma dissolvida. Na avenida Sakhárov, realiza-se a maior manifestação de insatisfeitos. Em um mês, se formam no país 200 partidos. Os liberais dividem entre si o poder. É formado um governo de transição. A ONU saúda a chegada da verdadeira democracia à Rússia.
Maio de 2012: Todos os grandes negócios são limitados. Boris Nemtsov vira diretor da GazProm, esposa de Alexei Naválni – a VTB (banco nacional do comércio russo), Evgenia Chirikova, o ministério dos Transportes e a RosNeft. Em um gesto de boa vontade, todo o arsenal nuclear da Rússia é transferido para o controle dos EUA. Após o conflito no poder, os nacionalistas saem de controle e começam a propagar o caos.
Setembro de 2012: Mais uma onda da crise econômica. Centenas de bancos quebram. O governo de transição decide fechar a AvtoVaz. Em Toliati acontece o primeiro protesto exigindo independência da Rússia. Greves em massa das usinas e fábricas. Os negócios na bolsa são suspensos após o índice RTR cair ao seu nível mais baixo. Dólar dos EUA custa 100 rublos. O banco central começa a produzir dinheiro indiscriminadamente para pagar as dívidas das aposentadorias. Hiperinflação. O preço de uma bisnaga de pão sobe para 100, 200, 300, 500 até 1.000 rublos. Em Moscou, um em cada dois estão desempregados.
Novembro de 2012: conflitos entre nacionalistas fascistas e grupos étnicos acontecem em todas as grandes cidades russas. Milhares de mortos entre os inocentes. Para a Duma de São Petersburgo vencem os fascistas. A marcha dos aposentados famintos de toda a Rússia em Moscou é dissipada com armas de fogo.
Março de 2013: depois de um inverno de fome, decretam a saída da Federação Russa o Primore (no extremo oriente), Kaliningrad, Tatarstão, Bashkíria e a Yakútia. As repúblicas do Cáucaso Norte se unem em um Emirado. Centenas de exilados que não desejam viver sob um estado islãmico fogem para a Rússia. Os conflitos étnicos crescem e se tornam uma guerra civil. Nacionalistas põem em ação tentativas para tentar acabar com a ameaça do Cáucaso, que são frustradas. Em mais uma visita aos EUA, Alexei Naválny pede asilo político. O governo de transição declara sua própria dissolução.
Junho de 2013: Com o objetivo de se proteger a população civil, Kaliningrado é ocupado pelas forças da OTAN. Sob o pretexto do restabelecimento da ordem e de ajuda humanitária, a China ocupa e põe sob sua administração Yrkutsk, Chita, Blagovechenskii e Khabarovsk. Vladivostok é ocupado por uma força de paz japonesa.
Agosto de 2013: A Geórgia ocupa a Osétia do Norte e a região de Krasnodar. Stavropol, após severos conflitos pelas ruas da cidade, é ocupada pelos guerrilheiros do Emirado Caucasiano. O mundo fala em uma catástrofe global na Rússia.
Dezembro de 2013: Naválny recebe o Prêmio Nobel da Paz e o de Literatura, pelo livro “Memórias de um ano no poder”.
Fevereiro de 2013: A Geórgia realiza os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Os desportistas da Rússia não são aceitos no país. Durante a transmissão da abertura dos jogos, na Praça Bolotnaya, em Moscou, acontecem pogroms em massa e desordem completa. A cidade vive em estado de anarquia. Há lutas por remédios. Comunicações por satélite são desligadas. Não há televisão nem internet. Nas casas, luz e água quente são desligadas por 2 horas todos os dias. Os moradores da cidade são recomendados a não sair de seus apartamentos.
Rússia sem Pútin. You’re welcome.
Tags: eleições, política, rússia sem pútin, video, viral
Fim de semana de protestos contra e a favor de Putin
jan 29, 2012 Na imprensa, Política, Vida na Rússia
Sob o gelo de um inverno que começa a ficar cruel, há um caldeirão em ebulição na Rússia. Depois das eleições parlamentares de 4 de dezembro, o país parece ter perdido a estabilidade política. Em meio a acusações – nacionais e internacionais – de fraudes grosseiras, simpatizantes pró e contra o governo se organizam em protestos que vão ficando cada vez mais constantes e inflamados.
E, enquanto Dimitri Medvedev, o presidente atual e virtual futuro premiê até se esforça em eventos e discursos para tentar acalmar os ânimos (como no episódio na principal universidade do país, quando um estudante o perguntou se estaria disposto a aceitar uma pena similar a de Saddam Hussein), Vladimir Putin, o atual premiê e virtual futuro presidente debocha, ignora e minimiza o turbilhão político (como quando, num claro desdém, ao ser perguntado por uma repórter sobre as manifestações, respondeu ‘prostestos, que protestos?‘).
Ontem, dia 29 de janeiro, uma enorme manifestação de apoio ao governo – e a Vladimir Putin – aconteceu em Ekaterinburgo, a quarta maior cidade russa, na região central do país. Segundo a polícia, foram 15 mil participantes, mas os líderes da oposição duvidam dos números, baseados nas fotos do protesto. Os participantes chegaram de ônibus e trens, de várias cidades próximas, para a praça da cidade.
“Ônibus foram colocados para nós na fábrica, vimos listas com antecedência dos que iriam ao comício”, disse a Reuters Andrei Mandure, operária de uma fábrica de produtos químicos na cidade de Lesnoy. “Não há bons candidatos. Yavlinsky foi banido. (então) quem mais a não ser Putin?”, disse Sergei, um russo de 46 anos de Kirovgrad, quando questionado em quem votaria em março. O protesto em Ekaterinburg foi o segundo em grande escala a favor do governo. O primeiro aconteceu em Kemerovo, na Sibéria, em 24 de janeiro, atraiu cerca de 6 mil pessoas e foi prestigiado pelo premiê e candidato Putin, que não compareceu ao ato organizado em Ekaterinburgo.
Mas a resposta da oposição veio rápido, embora já estivesse planejada há tempos, capitaneada por Alexey Naválny e Boris Akunin, da ‘Liga dos Eleitores’ (“Лига избирателей” em russo). Em Moscou, Volgograd e outras cidades, os opositores organizaram uma enorme carreata por algumas das principais vias das duas cidades. Para participar, bastava exibir uma fita branca em algum lugar bem visível do veículo. O protesto foi batizado, principalmente, de ‘Rua Branca’, é chamado de ‘Círculo Branco’. (“Белое кольцо”, “Белый круг”, “Белое Садовое” или “Белая улица”). Veja o minuto a minuto da ação, em russo.
Чтобы акция удалась, надо выехать на внутреннюю сторону кольца и проделать не менее одного полного круга. Держитесь правых рядов, приветствуйте друг друга и подвозите пешеходов с белой символикой в руках и на одежде. Ведь те, у кого нет машины, тоже захотят присоединиться к Белому кругу…
Nas redes sociais, a adesão havia sido confirmada por 2 mil indignados, que seguem exigindo ‘eleições limpas’ (за честные выборы) no país. Segundo dados oficiais, da polícia russa, participaram da ação ‘cerca de 20 veículos’. Já os manifestantes estimaram em mais de mil os veículos que participaram da carreata (автопробег). Os dados oficiais foram alvo de deboche nos twitteres de opositores, que classificaram como ‘brincadeira’, ‘piada’ e até ‘miopia’ e ‘idiotismo espacial’.
E essa montanha-russa (e poucas vezes na história esse trocadilho fez tanto sentido) está longe de acabar. As eleições presidenciais são em 4 de março, mas, um mês antes, a oposição já conseguiu que fosse aprovado (sim, na Rússia, toda e qualquer manifestação pública deve ser aprovada antes pelas autoridades) o que pode ser o maior protesto de todos, no dia 4 de fevereiro. Por sua vez, Putin não cansa de declarar que não se preocupa com os manifestantes, que faz o melhor para todos os cidadãos e que as últimas eleições foram ‘as mais limpas da história’. Mesmo que seu maior parceiro político, Medvedev, já tenha admitido, repetidas vezes, ‘erros’ no transcorrer do pleito.
Tags: carreata, ekaterinburgo, eleições, moscou, protestos, putin


















