Pravda: professor da USP visita Centro Lusófono em São Petersburgo
fev 19, 2012 Cultura, Na imprensa, Vida na Rússia
Como a maré tá braba pra mim (leia-se trabalho até o pescoço e sem carnaval), vou postar rapidinho aqui uma matéria do Pravda, em português, sobre um dos nossos, o professor Bruno Gomide, da USP, que esteve em São Petersburgo para divulgar nossos trabalhos aqui do Brasil. E também muito legal saber sobre esse centro lusófono da Universidade Hertzen.
Confira a matéria no original aqui.
Professor da USP visita Centro Lusófono em São Petersburgo
Bruno Gomide destaca em palestra o crescimento do interesse do leitor brasileiro por autores russos nos últimos temposSÃO PETERSBURGO – O Centro Lusófono Camões, da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, recebeu, na segunda quinzena de janeiro, a visita do professor de Literatura Russa do Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), Bruno Barretto Gomide, coordenador da pós-graduação na área.
Para alunos da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, o professor Bruno Gomide fez uma palestra abordando assuntos como o ensino da Língua e da Literatura Russa na USP e o grande interesse do leitor brasileiro pela literatura russa, especialmente nos últimos tempos, o que tem sido comprovado pela publicação de grande número de traduções. O professor destacou ainda o começo do interesse do leitor brasileiro pela literatura russa, a partir de traduções de segunda mão de edições francesas, lembrando que só mais tarde os livros de autores russos passaram a ser traduzidos diretamente para o português.
Durante a visita ao Centro, Gomide ofereceu vários exemplares de Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), por ele organizada e lançada recentemente, além de outros livros de autores russos, todos publicados pela Editora 34, de São Paulo. Ao lado de nomes como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov, a Nova Antologia do Conto Russoapresenta outros autores vistos como menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov e Sorókin, num total de 40.Durante sua estada em São Petersburgo, Gomide, em companhia da professora Diana Shpilevskaya, ex-aluna do Centro Lusófono Camões, foi recebido também pelo professor Vsevolod Bagno, diretor do Instituto de Literatura Russa da Academia das Ciências, instituição conhecida como Casa de Pushkin. Em seguida, foi recepcionado no Centro Lusófono Camões pelo professor de Português Vladimir Ivanov, que representou o diretor da instituição, professor Vadim Kopyl, afastado temporariamente por problemas de saúde. Em diálogo com alunos e ex-alunos do Centro, o professor voltou a abordar os temas de sua palestra.
CURRÍCULO
Bruno Gomide nasceu no Rio de Janeiro em 1972. É doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com estágio de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas Universidades de Illinois, Indiana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).
Tem publicado artigos em periódicos internacionais, como Tolstoy Studies Journal e Vopróssi Literaturi, e participado dos principais congressos de eslavística. Publicou o livro Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936) pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), sua tese de doutorado, que obteve menção honrosa no prêmio de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, no triênio 2004-2007.
CENTRO LUSÓFONO
Professor da USP visita Centro Lusófono em São Petersburgo. 16441.jpegFundado em 1999, o Centro Lusófono Camões começa o ano, em média, com 15 estudantes russos de Português. Os estudantes entram no nível zero, passando para o nível médio, chegando ao nível superior. Em média, formam-se de sete a oito alunos por ano. Desde a sua fundação, o Centro já publicou em edições bilingue livros como o Guia de Conversação Russo-Portuguesa Contemporânea, Poesia Portuguesa Contemporânea(2004), que reúne poemas de 26 poetas portugueses, e Vou-me embora de mim (2007), do poeta português Joaquim Pessoa.
Em 2006, com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou, o Centro publicou o livro Contos e, em 2007, Contos Escolhidos, de Machado de Assis (1839-1908), ambos em edição russo-portuguesa, com prefácios/ensaios do professor Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela USP. O Centro tem também a intenção de publicar em breve uma coletânea de contos e ensaios de autores brasileiros em edição bilíngue.
SERVIÇO – As instituições, editoras e autores do mundo lusófono que quiserem ajudar a enriquecer o acervo do Centro devem enviar os seus livros para:
Prof. Vadim Kopyl
CENTRO LUSÓFONO CAMÕES
Moica 48 – UNIVERSIDADE ESTATAL PEDAGÓGICA HERTZEN k. 14
Saint Petersburg – Russia
Tags: bruno gomide, centro lusófono, são petersburgo, universidade hertzen, usp
Oposição ‘prende’ Pútin e corre risco de perder a razão
fev 15, 2012 Política, Vida na Rússia
Não curti esse vídeo do Pútin sendo preso, mas como isso virou um tremendo buzz, boto aqui e deixo minha opinião. Imagine que fazem um vídeo semelhante com Lula ou Dilma, em ano eleitoral? Pois é. Por mais que a gente não goste, não respeite, sempre tem que partir pro argumento democrático. Ainda que, em alguns casos, os outros lados não sejam lá muito dialético-democráticos…
Eu sempre cito o terrorismo que Collor e cia. faziam com Lula, nas eleições presidenciais de 1989. Hoje é exemplo do que NÃO fazer em uma eleição. E, por mais engraçadinho que isso seja, acaba desacreditando uma eventual oposição, talvez até provando um certo desespero. Mas eu também posso estar sendo amargo demais. Enfim, assistam, leiam o bom texto da AFP e tirem suas conclusões.
Vídeo de Putin ‘julgado’ por terrorismo é sucesso na web entre os russos
Da AFP
Uma montagem de vídeo que mostra o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, no banco dos réus em um julgamento por “planejamento de atos de terrorismo” já foi vista mais de 2 milhões de vezes nesta quarta-feira, três dias depois de ser postado na internet.
“A prisão de Vladimir Putin: reportagem do tribunal” mostra o homem forte do país no Tribunal Khamovnitcheski de Moscou, sendo julgado pelo magistrado Danilkine Viktor, que condenou no final de 2010 o ex-magnata do petróleo e crítico do regime russo, Mikhail Khodorkovsky.
A voz em off explica que Putin foi julgado por “apropriação indevida de propriedade do Estado”, “abuso de poder”, “maquinações financeiras” e “participação na preparação de atos terroristas destinados a espalhar o terror entre a população e influenciar os órgãos do Estado”.
“Nós soubemos que há três horas o ex-primeiro-ministro foi escoltado ao tribunal Khamovnitcheski”, explica a falsa reportagem.
Vídeo de Putin ‘julgado’ por terrorismo é sucesso na web entre os russos (Foto: Reprodução de vídeo)Vídeo de Putin ‘julgado’ por terrorismo é sucesso na web entre os russos (Foto: Reprodução de vídeo)“O porta-voz do juiz Viktor Danilkine deu esclarecimentos sobre a situação, explicando que o julgamento começa hoje”, prossegue.
Na imagem, vemos Putin, cabeça abaixada, de pé em uma cela, onde os réus permanecem durante os julgamentos nos tribunais russos. Às 15h GMT (13h de Brasília), o vídeo tinha sido visto por mais de 2 milhões de vezes.
“Eu não esperava todo este sucesso”, disse Vadim Korovine, cuja empresa de difusão de vídeos Lancelot postou a montagem. “Acho que muita gente ia preferir ver ele dentro da prisão”, acrescentou em uma entrevista à France Presse por telefone.
A eleição presidencial do dia 4 de março se aproxima e Vladimir Putin ainda é o favorito, “a questão é saber que tipo de pessoas é essa que vamos reeleger”, prosseguiu Korovine.
O vídeo postado na terça-feira na conta do youtube LancelotChannel, pertencente a Lancelot promove um documentário “O assassinato da Rússia”, de 2002.
Este filme acusa o Serviço Federal de Segurança (FSB) de orquestrar os atentados de 1999 na Rússia para justificar uma nova guerra na Tchetchênia e permitir a ascensão ao poder de Vladimir Putin, ex-oficial da KGB e ex-chefe do FSB.
Um dos diretores do filme era Alexandre Litvinenko, ex-funcionário do FSB e opositor do regime russo, morto em novembro 2006 em Londres após ser envenenado por uma substância radioativa.
Korovine explicou que dispõe dos direitos de exibição na Rússia do documentário realizado pelos diretores franceses Jean-Charles Deniau e Charles Gazelle, mas o Ministério da Cultura interditou a sua difusão.
Os opositores russos, sem acesso às mídias tradicionais, estão fortemente presentes na internet, e vídeos denunciando Putin alcançam regularmente o sucesso na rede.
‘Cinismo russo e chinês na crise síria’ – O Globo
fev 10, 2012 Na imprensa, Política, Vida na Rússia
O Globo – 10/02/2012
O ditador sírio Bashar Assad continua se aproveitando do veto de Rússia e China à ação do Conselho de Segurança da ONU para arrasar a cidade de Homs com bombardeio pesado, atacando homens, mulheres e crianças sob o pretexto de reprimir os que lutam contra seu regime. Os Assad estão no poder há 31 anos.
Rússia e China agiram movidas por lamentável cinismo ao vetar uma versão já desidratada de um plano da Liga Árabe, apoiado pelo Conselho de Segurança, com objetivo de deter a carnificina. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, diz considerar inadmissível a interferência em assuntos internos de outro país e oferece as garantias obtidas por seu chanceler em Damasco de que Assad vai parar com o banho de sangue.
É o caso de se perguntar: o que vale mais, um princípio diplomático ou a vida de milhares de pessoas? E só há uma coisa mais desvalorizada no mercado hoje que os títulos da Grécia: as promessas de Assad.
Rússia e China parecem movidos por velhas noções da Guerra Fria, felizmente já sepultadas.
Por trás dos princípios diplomáticos de Putin está o desejo de manter vestígios de poder da União Soviética em antigas áreas de influência, como o Oriente Médio. A Rússia herdou da URSS a única base naval em “mares quentes”, no Mediterrâneo, em Tartus, na Síria. Há motivos mais cínicos: o atual regime sírio é um grande comprador de armas russas, um cliente que Moscou não quer perder. Putin, atual premier russo, está em campanha para voltar à presidência, e falar grosso com o Ocidente pode render muitos votos na Rússia, às custas das vidas de milhares de sírios que ele finge defender.
A diplomacia se movimenta.
Os Estados Unidos, imobilizados pelo veto russo-chinês no Conselho de Segurança, propõem a criação do grupo dos Amigos da Síria para retomar a iniciativa. A União Europeia estuda novas sanções ao regime de Assad. A Liga Árabe anuncia que reenviará sua missão à Síria, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, concorda em torná-la conjunta. A Turquia diz que não pode mais ficar apenas observando a carnificina e desloca seu chanceler, Ahmet Davutoglu, para discutir com a Casa Branca a melhor forma de agir. Até a China resolve enviar um diplomata para contatos com a oposição síria.
A comunidade internacional deve implementar da forma mais eficiente possível as sanções contra Damasco, ao mesmo tempo em que insiste com Moscou e Pequim para que modifiquem sua posição e convençam Bashar Assad a deixar o poder. É patente que nem o Kremlin nem Pequim se sentem à vontade com primaveras árabes ou de outra natureza. Multidões nas ruas e praças pedindo a cabeça de ditadores não lhes fazem bem. Temem o efeito contágio.
Mas será imperdoável que ambos continuem bloqueando uma missão que, mesmo com seu apoio, é extremamente complexa: impedir que um ditador que nem desejava o cargo — assumiu com a morte do pai porque seu irmão mais velho, Basel, morrera num acidente de automóvel — prossiga martirizando a população síria.
Nota: Se O Globo ainda fosse um jornal da ‘Era Online’, eu postaria o link aqui. Como deixou de ser tem algum tempo, fica difícil.
Algumas dicas legais para sua ‘russificação’
fev 9, 2012 Cultura, Língua Russa, Turismo, Vida na Rússia
Dando um tempo na densa política, fiz uma listinha das cerimônias, superstições e manias mais populares no dia-a-dia dos russos têm, e que podem ser úteis, seja para quem vai fazer viagens de trem e não vai naquele esquema primeira classe, seja para quem achou sua cara-metade por lá.
Provavelmente, você, que é interessado em cultura russa em geral, já leu algumas por aí. Nesse caso, não custa relembrar. Já para você que quer viajar para lá, é uma boa dica para fazer bonito e ganhar pontos preciosos com os amigos locais. Essas são as que me lembro, e mais importantes, acho.
Se você lembrar de outras, comente!
No trem:
- Quando você estiver compartilhando espaço com outras pessoas, mesmo que sejam total estranhos, é sempre de bom tom dividir o que quer que você tenha para comer, beber ou fumar.
- Recusar comida que lhe é oferecida pode ser uma ofensa muito séria
Bebendo vodka (ou qualquer coisa alcoólica):
- Vodka é para brindar, não para bebericar sozinho ou encher a cara aleatoriamente. Se você quiser muito beber ‘solo’, o que não é de bom tom, tente ir de 100 em 100 gramas (um copo pequeno), em vez de mamar direto na garrafa.
- Ainda sobre vodka, NÃO se enche copo erguido no ar, NÃO se brinda com copo vazio, NÃO se enche copos segurando a garrafa por baixo, NÃO se deixa garrafa vazia sobre a mesa e, sobretudo, álcool posto no copo NÃO volta para a mesa. Deve ser bebido!
Cotidiano:
- Se você for convidado para ir a casa de alguém, leve sempre alguma coisa, um presente, como um bolo, alguma bebida ou uma lembrança. Isso é MUITO bem visto.
- Apertar as mãos, enquanto não estão os dois no mesmo recinto (por exemplo, você está fora do vagão e a outra pessoa, dentro), dá azar. Entre ou saia!
- Se você for dar flores para alguém, assegure-se de que elas vão em número diferente. Um número par de flores só é usado em funerais…
Socialmente:
- Retire casaco, botas, chapeu e ornamentos sempre que entrar em algum lugar, seja vagão de trem, casa, bar ou no Teatro Bolshoi.
- É sempre melhor ir MUITO arrumado para algum lugar do que MAL arrumado. Russos não toleram muito bem informalidade ou a nossa ‘mulambagem’. A lógica lá é outra: mais fácil reparar numa simplicidade exagerada.
- Seja sempre cavalheiro. Embora os russos atualmente estejam muito mais para homens das cavernas, as mulheres russas sempre vão esperar que alguém lhe abra as portas, acenda seu cigarro, sirva seu vinho…
- Ao entrar em igrejas, homens devem abaixar a cabeça em reverência. Mulheres não são obrigadas a cobrir a cabeça, mas isso é um gesto de respeito. Minissaias, ombros de fora e decotes, jamais. E tirar fotos também é inadequado. Na dúvida, informe-se.
- Jamais, jamais, jamais, assobie dentro da casa de alguém. Certamente, isso vai lhe render uma bronca. Se vai ser polida ou uma tremenda grosseria, é impossível dizer. Assobiar dentro de casa afugenta o dinheiro, dizem.
- Jamais, jamais, jamais demonstre algo de ruim que aconteceu, em si mesmo ou em outra pessoa. Por exemplo, ao demonstrar que alguém quebrou o braço em 2 pedaços, jamais aponte para seu braço para mostrar onde. Faça isso no ar. Usar alguém como ‘cobaia’ pode acabar em briga séria…
Indo viajar:
- Está se preparando para viajar? Após tudo arrumado e antes de sair de casa, todos devem se sentar e fazer silêncio por alguns instantes. Preferencialmente, para lembrar se esqueceram algo…
- Da mesma forma, jamais volte para buscar algo esquecido em casa após uma viagem. Se não for o passaporte, deixe para trás.
Tags: cotidiano, dicas, manias, superstições, tradições
Choque de gerações ganha conotação de ‘Guerra Fria’
fev 6, 2012 Matérias, Política, Vida na Rússia
No último sábado, nós vimos que uma ‘batalha ideológica’ foi travada não só nas ruas de Moscou, como nas principais cidades da Rússia: Petersburgo, Ekaterinburgo, Volgograd, Perm… Dezenas de milhares se mobilizaram para defender seu ponto de vista político, seja ele pró ou contra Vladimir Pútin, o ‘partido dos vigaristas e ladrões’ (партия жуликов и воров, nome dado por Alexey Naválny ao ‘Rússia Unida’) e o status quo de autoritarismo, censura e corrupção. Mas, afinal, o que isso tudo representa?
Bom, ainda em 2011, eu tentei justificar aqui minha tese, de que, inicialmente, trata-se de um choque de gerações. E isso não começou ontem. Para ficar no âmbito dos ‘descontentes’, cito uma música de Yuri Schevchuk, líder da banda DDT e ferrenho opositor da retórica Pútin, chamada ‘Pokolenie‘ (geração), que diz ‘Уходит Наше поколение НЕТ, приходит Ваше поколение ДА’ (Sai a nossa geração, do NÃO, chega a vossa geração, do SIM!’). Schevchuk já profetizou isso, 10 ANOS ATRÁS, em 2002. Simplesmente não é possível que essa geração soviética, autoritária e decadente continue no poder de uma Rússia pós-moderna, fadada a cumprir outro papel no mundo, que não o pesado fardo de ser uma reles alternativa ideológica aos EUA. A Rússia tem que ocupar seu espaço, não o que sobrou do país que não existe mais.
Censura ideológica e guerra de desinformação
Voltando aos protestos de ontem, os números oficiais são confusos. Na Praça Bolotnaya, onde reuniram-se os opositores, dados oficiais contaram 36 mil pessoas, enquanto os ‘discordantes’, 120 mil. Já na Poklonaya, onde estiveram os pró-regime, os dados da polícia dão conta de 138 mil pessoas, número do qual a oposição duvida muito. Em todo caso, todos são unânimes: o movimento ‘anti-laranja’, no mínimo, se equiparou à oposição já em seu primeiro grande protesto.
Laranjas? Em 2004, a Ucrânia realizou eleições presidenciais que foram consideradas ‘vergonhosas’, devido ao absurdo número de fraudes constatadas. O povo, então, foi às ruas, misturando desobediência civil (os protestos devem ser autorizados, como na Rússia de hoje) com insatisfação política e conseguiu mudar tudo, destituindo o presidente eleito fraudulentamente Viktor Yanukovich, que era apoiado pelo ‘ditador’ pós-soviético Leonid Kuchma. O movimento ficou conhecido como ‘Revolução Laranja’. Além disso, a cor era a da campanha de Yuschenko, candidato da oposição. Mais a fundo, “ânimo laranja” (oранжевое настроение) é uma expressão utilizada por russos e ucranianos, equivalente ao nosso “tudo azul”. É usada diariamente, de lojas de brinquedos, a de produtos naturais e tem até um hino, a música Оранжевое настроение (Oranzhevoe nastroenie), da banda Chaif, gravada em 1994.

Isso você, certamente, não vai ler na mídia ocidental, que insiste em números como 35, 40 mil pessoas, para os ‘satisfeitos’. Isso quando os jornais não ignoram completamente esse desagravo monumental a Pútin (como o Guardian) ou mesmo usam fotos desta ação, bizarramente, dizendo ser do ato da oposição. Como o fez, aliás, o Le Parisien, que usou uma foto do protesto errado, e que foi seguido por muitos outros jornais, inclusive, no Brasil…
Governo acusado de comprar simpatizantes e inflar números
Mas aí você pergunta, já que leu em alguns blogs que o protesto pró-Putin foi ‘armado’. Sim, há relatos de sindicatos que organizaram caravanas com dinheiro público para levar empregados aos protestos, de gente que recebeu 500 rublos para participar deles e de gente que estaria sendo ameaçada de perder o emprego, caso o premiê não se eleja presidente. Tudo isso, sim, existe, e nós já vimos esse filme aqui no Brasil, nas eleições de 1989, lembra? Collor apelava para o medo, dizendo que, caso Lula ganhasse, teríamos que abrigar sem-teto em nossos apartamentos, as fazendas seriam coletivizadas. Seu slogan era “contra a foice e o martelo, vou de verde e amarello”.
Da mesma forma que a situação usa artimanhas para inflar números, a oposição também o faz. Lembro que, sobretudo inicialmente, essas ‘marchas de discordantes’ eram movimentos hypados, alternativos, da elite e de uma classe média ocidentalizada: eram A moda. Concordo que agora as pessoas estão perdendo o medo de ir para as ruas e protestar. Mas ainda há temor de prisões e de represálias. Isso sim, é inconcebível num país que se diz democrático.
‘Se não for Pútin, quem será?’
Mas, afinal, qual o problema da oposição? Bom, a gente bem conhece nomes como Naválny, Udaltsov, Nemsov, Yashin, Soobshak, Kashin… Mas, quem é o líder da contra-corrente? Qual seu capital político? Quem vai governar o país, se Pútin sair? A gente sabe muito bem que os russos são extremamente paternalistas e fatalistas. E que a Federação tem, pelo menos, uma dúzia de sublíderes e estados loucos para pedir independência ou mesmo usurpar a união.
Nenhum dos nomes, dos que sobem aos palcos de protesto com discursos inflamados, tem o menor cacife político para fazer o que Pútin faz muito bem e ainda por cima colocar o país no caminho da democracia. Com essa geração de transição, seria necessário um líder do porte de um Winston Churchill para tal tarefa. Só para ilustrar: a grande personalidade da oposição É Alexey Naválny. Além de ser um ótimo advogado, um blogueiro de mão cheia, que faz discursos inspiradores, Naválny não tem experiência política quase nenhuma. Como diz um amigo meu, nunca foi nem síndico de prédio, nem escoteiro-chefe. E nem na internet tem tanta força, nesse mundo pós-poderno-redes-sociais: seu número de seguidores no Twitter estacionou na casa dos 190 mil há semanas… Número muito baixo para uma figura tida como ‘extremamente popular’, ‘líder da oposição’ e ‘altamente influente na RuNet’, sobretudo no momento político turbulento do país. Para se ter uma ideia, Luciano Huck, do nosso “Caldeirão”, tem 4,5 milhões.
Ação precoce x reação tardia
E a situação demorou para agir. Os protestos de ontem, no entanto, comprovam, que Pútin está bem antenado. Seus simpatizantes cruzaram pontos-chave para a alma russa: a marcha começou no Museu da Grande Guerra Pátria (como eles chamam a II Guerra Mundial) e foi até o Parque da Vitória (referente também à II Guerra). E os sites, blogs, facebooks e twitteres do Edinnaya Rossia (Rússia Unida) conseguiram emplacar a ação nos Trending Topics do Twitter, coisa que a oposição não atingiu, embora incentivassem ‘tuitadas’ a cada discurso. Sim, há boatos de que as telecomunicações nos arredores da Bolotnaya foram “minimizadas”, mas, teorias da conspiração postas de lado…
O fardo e a sina de ser rival ideológico dos EUA
Falando em conspiração, ao mesmo passo que a oposição sobe o tom contra Pútin e cia., o governo revida, subindo o tom contra os EUA e o Ocidente. Agora, os americanos estão financiando a oposição russa, incentivando a desordem, ingerindo em países alheios, minando os bancos russos, criando tensão étnica onde não há e até derrubando satélites. A instrução, nos meios de comunicação russo, é uma só: focar nos EUA. E gente que acompanha já percebeu que essas notícias surgem de maneira indiscriminada ao longo do dia. Como no caso da incrível notícia do Comitê criado para investigar as supostas fraudes nas eleições de 4 de dezembro: especialistas disseram que vídeos que provariam os crimes eleitorais eram “montagens” divulgadas pelos EUA para desestabilizar o regime.
‘Vladimir Putin é uma ameaça à paz mundial’ – Mitt Romney, provável candidado à presidência dos EUA
‘Os Estados Unidos não querem parceiros, querem vassalos’ – Vladimir Putin
O que o governo quer, no fim das contas, é assumir o espólio moral soviético de oposição aos EUA, internacionalmente apoiando massacres, como na Síria, ditadores insanos com ideologia do ódio, como Irã e Coreia do Norte ou mesmo paranoicos maniqueístas como Hugo Chávez e Raúl Castro. Isso enquanto os EUA têm um presidente negro – fato histórico e impensável até anos atrás -, que cresceu na Ásia e enfrenta ao mesmo tempo uma das maiores crises econômicas da história, além de uma onda de baixa popularidade em plena época de reeleição. Sim, Obama pensa MUITO na Rússia.
Ao mesmo tempo em que a situação política vai se aprofundando, que a classe média vai ganhando voz, Pútin segue absoluto no poder e não parece se importar com a oposição. Dados dos institutos de pesquisa russos, como o Vtsyom e o Levada, apontam que, mesmo descartando-se o porcentual de votos fraudados apurados por ONGs internacionais, Pútin ainda seria vitorioso facilmente no primeiro turno. Isso faltando apenas 1 mês para as eleições. Zyuganóv e sua falácia comunista não são páreo para Pútin, que ainda não tem rivais. Ou seja, um eventual processo de mudança apenas pode ter começado, mas está muito, muito longe de terminar. A Guerra Fria 2.0, por outro lado, pode estar só começando.
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