Cegonhas: uma triste história da Guerra Mundial

Na minha primeira viagem à Rússia passei algum tempo no Cáucaso, em Vladikavkaz, na Ossétia do Norte. E, durante uma das viagens pela região, parei para tirar essa foto, especificamente neste monumento com sete cegonhas unidas pelas asas, em formação. A honraria fica à beira da estrada que liga Vladikavkaz a Alagir, uns 30km a oeste da capital norte-ossetina, antes da ponte sobre o famoso rio Fiagdon.

Eu no monumento

Antes, nunca poderia pensar que iria passar por um ‘monumento de cegonhas’, dos muitos espalhados pela Rússia, muito menos por esse, especificamente, que era o primeiríssimo de todos. Havia ouvido a história dele, algum tempo atrás, e fiquei muito emocionado. Bom, vou contar aqui algumas partes que lembro e de mais detalhes que achei na internet.

No pequeno povoado de Dzuarikay, na Ossétia do Norte-Alania, as notícias da Guerra Patriótica chegavam sem fim, no ano de 1941, dando conta de que todos eram necessários no front. E os sete filhos de uma das famílias da cidade, os Gazdanov, se apressaram e correram para a batalha. Magomed, Dzarahmat, Hadzhismel, Maharbek, Sozryko, Shamil’ e Hasanbek.

Monumento na Ossétia do Norte-Alania

O mais novo deles, Hasanbek, quando foi convocado tinha apenas 17 anos. Mesmo sem ter sapatos ou saber como voltar para seu povoado, não se furtou à luta. Dzarahmat, que partiu em 1941, foi o único a ter se casado e deixou a esposa grávida. Alguns meses depois, ele soube por carta do nascimento da filha, Mila.

Mas a sorte não sorriu para a família. Os Gazdanov realizavam funerais um após o outro. Hadzhismel e Magomed morreram em Sevastopol, Dzarahmat – em Novorossisk, Sozriko – em Kiev, Maharbek em Moscou, Hasanbek – na Bielorrússia, Shamil’ foi ferido mortalmente na véspera do Dia da Vitória, às portas de Berlim.

Selo comemorativo: cegonhas nos 50 anos da vitória

A mãe, Tassa Gazdanova, dia e noite esperava notícias de seus filhos e ia, todos os dias, até a estrada por onde os viu partir, à espera de cartas, que quase nunca chegavam até este remoto povoado no Cáucaso. Mas o que apareciam eram as notícias das mortes, uma atrás da outra. Após o terceiro luto, porém, ela não aguentou e morreu, com a pequena filha de Dzarahmat, Mila, no colo.

A família tinha uma enorme casa de dois andares. Logo após a partida do último dos irmãos Gazdanov, uma bomba alemã caiu e destruiu metade dela. Hoje, na escola do povoado, há um pequeno museu com uma maquete da casa e alguns dos pertences dos herois da URSS, bem como medalhas e honrarias. E, eventualmente, alguém da família recepciona os convidados.

Além da filha Mila, Dzarahmat teria hoje seis netos e 13 bisnetos. De emblemática, a União Soviética teve dois famosos casos de famílias que praticamente sumiram com a guerra: os Ivanov, que tiveram nove irmãos mortos; e os Gazdanov, com sete.

O monumento foi criado em 1963 pelo artista Sergei Pavlovich Sanakoev (1920-2002). É um pedestal, de onde partem para o céu sete cegonhas, unidas pelas asas. Sob a pedra, chora a mãe Tassa Gazdanova. Mas, de onde vem a ideia dos soldados mortos virarem cegonhas?

Em 1968, o poeta dagestani Rasul Gamzatov, em visita a Hiroshima, no Japão, ficou muito impressionado com a destruição da guerra e com aquelas pequenas cegonhas* feitas em origami por uma criança japonesa, em um monumento. Então, escreveu o poema ‘Cegonhas’, na língua Avar (do norte do Cáucaso). Algum tempo depois, Naum Grebnyov, um famoso tradutor de línguas caucasianas e colega de Gamzatov, fez sua versão em russo para a obra, que foi publicada na revista ‘Novyi Mir’.

Original (na língua avar)

Къункъраби
Дида ккола, рагъда, камурал васал
Кирго рукъун гьечIин, къанабакь лъечIин.
Доба борхалъуда хъахIил зобазда
ХъахIал къункърабазде сверун ратилин.

Гьел иххаз хаселаз халатал саназ
Нилъее салам кьун роржунел руго.
Гьелъин нилъ пашманго, бутIрулги рорхун,
Ралагьулел зодихъ щибаб нухалда.

Боржун унеб буго къункърабазул тIел,
Къукъа буго чIварал гьудулзабазул.
Гьезул тIелалда гъоркь цо бакI бихьула —
Дун вачIине гьаниб къачараб гурищ?

Къо щвела борхатаб хъахIилаб зодихъ
ХъахIаб къункъра лъугьун дунги паркъела.
Гьелъул гьаркьидалъул ракьалда тарал
Киналго нуж, вацал, дица ахIила.

Tradução original de Naum Grebnyov

Журавли
Мне кажется порою, что джигиты,
С кровавых не пришедшие полей,
В могилах братских не были зарыты,
А превратились в белых журавлей.

Они до сей поры с времен тех дальних
Летят и подают нам голоса.
Не потому ль так часто и печально
Мы замолкаем, глядя в небеса?

Сейчас я вижу: над землей чужою
В тумане предвечернем журавли
Летят своим определенным строем,
Как по земле людьми они брели.

Они летят, свершают путь свой длинный
И выкликают чьи-то имена.
Не потому ли с кличем журавлиным
От века речь аварская сходна?

Летит, летит по небу клин усталый –
Мои друзья былые и родня.
И в их строю есть промежуток малый –
Быть может, это место для меня!

Настанет день, и с журавлиной стаей
Я улечу за тридевять земель,
На языке аварском окликая
Друзей, что были дороги досель.

Расул Гамзатов.
Покуда вертится Земля.
Махачкала, “Дагучпедгиз” 1976.

Original da 1a tradução do poema, da língua Avar

Após a publicação, o famoso cantor soviético Mark Bernes adaptou a letra e, junto com a melodia de Yan Frenkel, compôs uma das mais belas e conhecidas canções sobre a Grande Guerra Patriótica – a nossa II Guerra Mundial. Chamada ‘Cegonhas’, é cantada sempre e emociona todo mundo. Uma daquelas que você tem que aprender e saber, se quiser entrar um pouquinho na língua e na alma russa, aliás, não só russa, mas soviética. Meu conselho? Aprenda. Ela é de um tempo que evoca uma grande verdade nos russos, explicitada em um comentário no vídeo do YouTube:

Это советская песня. И люди, которые писали, пели и играли ее – советские. Советские люди не делили друг друга по национальностям.
Советские люди дополняли друг друга своими национальными особенностями.
Сейчас национальными особенностями все больше разделяют друг друга.

É uma canção soviética. E as pessoas que compuseram, cantaram e tocaram essa canção eram soviéticas. Pessoas soviéticas não separavam uns aos outros por nacionalidade. Elas completavam umas às outras com suas particulariedades nacionais. Hoje, as particulariedades nacionais cada vez mais separam uns aos outros.

Essa é a versão de Bernes. Abaixo, minha humilde tradução.

Мне кажется порою, что солдаты
С кровавых не пришедшие полей,
Не в землю нашу полегли когда-то,
А превратились в белых журавлей.

Они до сей поры с времен тех дальних
Летят и подают нам голоса.
Не потому ль так часто и печально
Мы замолкаем глядя в небеса?

Летит, летит по небу клин усталый,
Летит в тумане на исходе дня.
И в том строю есть промежуток малый –
Быть может это место для меня.

Настанет день и журавлиной стаей
Я поплыву в такой же сизой мгле.
Из-под небес по-птичьи окликая
Всех вас, кого оставил на земле.

Мне кажется порою, что солдаты
С кровавых не пришедшие полей,
Не в землю нашу полегли когда-то,
А превратились в белых журавлей.

Me parece por vezes que os soldados
que de sangrentos campos não voltaram
quando não descansaram em nossa terra
transformaram-se em brancas cegonhas

Eles desde estes tempos tão distantes
Voam e descaem vozes para nós
Não será por isso, frequente e tristemente
Que silenciamos olhando para o céu

Eles voarão e voarão pelo céu, fatigados
Eles voarão pela névoa até o dia terminar
E naquela formação há um pequeno vazio
Pode ser que seja um espaço para mim

Chegará o dia que com a revoada de cegonhas
Eu flutuarei na mesma bruma plumbosa
Sob o céu, chamando como um pássaro,
por todos vocês, a quem eu na terra deixei.

*Segundo apontou a leitora Adriana Romano, a tradução correta seria ‘grou’ e não ‘cegonha’. Tem um texto muito bom sobre isso no blog ‘Muito Japão’, dá uma lida.

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8 respostas para “Cegonhas: uma triste história da Guerra Mundial”

  1. Liziane disse:

    Como já tinha dito uma vez adoro o seu blog e amei ver essa reportagem contando algo sobre a segunda guerra mundial,assunto que particularmente me interessa muito, já até li alguns livros sobre o assunto um em especial chamado Moscou 1941. Se você tiver mais dessas histórias, pode conta-las sempre, porque sou apaixonada por elas.

  2. Victor disse:

    Acompanho o blog há algum tempo e gostaria de saber se você saber algo sobre a educação na Russia, no caso nível graduação, se existem bolsas de estudo, etc. Pelo que andei vendo pelos sites, parece que o ensino superior é barato comparado com o brasileiro.

    • Boas Victor,
      Obrigado pela visita e pelo comentário!
      Então, sim, existem algumas bolsas universitárias para a Rússia. A maioria opera através de convênios com universidades brasileiras. Mas sugiro que vc se informe com a instituição de sua preferência, ou faça uma pesquisa pela sua área de interesse. A referência em convênios ainda é Patrice Lumumba, em Moscou.
      Não sei se é barato em comparação com o brasileiro. Na média, eu diria que regula mais ou menos o mesmo preço, por ano. Talvez seja barata em comparação com a Europa e EUA, na relação custo x benefício.
      Abraços!

  3. Carlos disse:

    Não entendo qual é a do autor desse blog. Ora coloca uma música da Grande Guerra Patriótica, ora coloca um texto exaltando a oposição bielo-russa, que levanta símbolos da ocupação nazi-fascista no país. Paradoxo!

    • Boas Carlos,
      Acho bom que vc não entenda qual é a minha. Significa que estou no caminho certo, de contar, não de propagandear.
      Agora, duas coisas: texto exaltando a oposição bielorrussa? Símbolos da ocupação nazifascista? Pra mim, são duas enormes bobagens. Primeiro pq a ‘oposição’ é apenas o povo exigindo democracia, coisa que o último ditador da Europa não permite.
      Segundo, pq à época da criação da República de Belarus o ‘nazifascismo’ sequer era embrionário. Hitler chorava de camarote a capitulação alemã durante a primeira guerra mundial…
      Acho que as pessoas precisam aprender que nem tudo na História alemã é nazifascismo, bem como nem todo nazifascismo é alemão. Lukashenko, por exemplo, por suas políticas homofóbicas, xenófobas, totalitárias, nacionalistas e crueis é sim, nazifascista.
      Mas obrigado pela visita e pelo comentário no blog! Apareça sempre!
      Fab

  4. Carol Rainner disse:

    Adorei o site, meus parabens!!

  5. Carol Rainner disse:

    Adorei o site, meus parabens!!

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