‘Cerco de Leningrado’: resenha no Estadão lembra período negro

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Dos episódios infames da História da humanidade – e que não são poucos – o cerco alemão a Leningrado, durante a Segunda Guerra Mundial, certamente figura entre os piores. Neste sábado, o Estadão publicou uma resenha escrita pelo professor da USP Elias Thomé Saliba sobre o livro do historiador francês Pierre Vallaud, ‘Cerco a Leningrado’, que vale a pena ser lido por quem se interessa tanto pela II Guerra quanto pela História/cultura da Rússia.

Em Petersburgo – e por todo o país, aliás – a ‘Blokada‘, como é conhecida em russo este trágico período, deixou marcas profundas. Foram praticamente três anos de isolamento, quando mais de um milhão de pessoas morreram, uma enorme parte por fome. Até o estabelecimento da ‘Linha da Vida’, o caminho feito sobre o gelo que levou alimentos para a população, e à vitória na Grande Guerra Pátria, o tormento foi inimaginável.

Já li muita coisa sobre o cerco, assim como vi muitos filmes também, uns relatos mais prováveis do que outros, mas este de Vallaud me parece bem apurado e escrito. Confiram o texto do professor Saliba e, se tiverem a oportunidade e o interesse, vale conferir o livro. E aqui tem o link, para quem quiser ler ao menos o primeiro capítulo, em português.

Sobre o flagelo de uma cidade sitiada
23 de junho de 2012 | 3h 10
Elias Thomé Saliba – O Estado de S.Paulo

Todos os rastros documentais de eventos bélicos que envolvem crimes contra populações civis acabam apagados ou distorcidos. De todos os inúmeros episódios obscuros da extensa história da 2.ª Guerra Mundial, o cerco de Leningrado ocupa o topo da lista. Iniciado em junho de 1941, logo após o começo da inesperada invasão da URSS por Hitler, foi mantido como segredo militar, só revelado oficialmente quase um ano depois, por um telegrama impresso no Pravda. Mesmo as fontes soviéticas, liberadas nos últimos 20 anos, não ajudam muito na reconstituição, já que aquelas escritas durante o regime estalinista são omissas e exageram o papel do “Guia Supremo”, enquanto as do tempo de Khruchev aumentam a dose do heroísmo militar e diabolizam Stalin. Já os relatos testemunhais, por causa da vigilância crônica da censura, só são confiáveis quando não registram a atmosfera política. Documentos do lado ocidental também não constituem nenhum mar de rosas para os historiadores: as poucas fontes militares, que se referem ao episódio, foram compiladas por oficiais alemães, os quais, no contexto da Guerra Fria e sob inspiração norte-americana, encarregaram-se de “limpar sujeiras” da Wehrmacht, tornando seus quadros mais aceitáveis para formar o exército da futura RFA.

Lendo nas entrelinhas e equilibrando-se na intrincada balança das omissões e as distorções das fontes, Pierre Vallaud, experiente historiador da 2.ª Guerra, constrói em O Cerco de Leningrado, uma narrativa detalhada e, tanto quanto possível, bastante próxima daquela objetividade mínima, nascida da boa-fé historiográfica. Por que os alemães não ocuparam Leningrado em setembro de 1941, quando dominavam todas as posições-chave em torno da cidade? Muito se falou sobre tal decisão e Vallaud explora todos os motivos, incluindo as estratégias militares: o receio do desgaste das tropas pela falta de abastecimento; a disputa interna entre os oficiais alemães e a concentração do foco na tomada de Moscou, tornando incerta a logística da guerra e, por fim, a perversa política de Hitler de riscar do mapa a “bela cidade de Lenin” pelo aniquilamento total. A bela São Petersburgo, que trocara seu nome para Leningrado após a revolução de 1917 e contava, na época, com quase 3 milhões de habitantes -, era importante tanto como eixo estratégico no Báltico quanto pelo seu significado simbólico de antiga capital dos czares.

“Decidi apagar São Petersburgo da superfície da terra. O problema da sobrevivência da população e de seu abastecimento não cabe a nós e não deve ser resolvido por nós”, declara Hitler em setembro de 1941. Do lado soviético, foi espantosa e inacreditável a indiferença de Stalin e a negligência em relação aos suprimentos da cidade e à organização de sua resistência. Ainda assim, mesmo sem entrar numa Leningrado desguarnecida, os alemães bombardearam seus pontos estratégicos. Os dirigentes soviéticos improvisaram, reagindo apenas com medidas draconianas contra os possíveis espiões: todos os telefones são desligados, confiscam-se mapas, guias de viagem, aparelhos fotográficos, bicicletas e aparelhos de rádio. Estes últimos são devolvidos, mas devidamente acoplados com um botão enorme, chamado de “pires”, que travava o dial e só permitia sintonizar a emissora oficial.

O resultado foi um bloqueio completo da cidade, que durou quase três anos, abatendo-se como um flagelo sobre a população e resultando em cerca de 1 milhão de mortos, entre os quais, quase 800 mil pela fome. “É tão simples morrer hoje em dia. Começa-se por desinteressar-se de tudo, depois se deita em seu leito e não se levanta nunca mais”, registrou em seu diário, a jovem Elena Skjarbina. O abastecimento se desorganiza e a cidade tem carência de todos os alimentos. A farinha de trigo é substituída por qualquer cereal suscetível de ser transformado e, na sua ausência, recorre-se aos resíduos de feno ou de palha. Gatos, cachorros, pássaros e outros animais desaparecem das ruas. A multidão acaba por recorrer aos alimentos mais inverossímeis, como cola de tapeçaria, gesso e capim. Nos seis meses seguintes ao fim de 1941, nos quais a situação de penúria chega ao limite, a polícia chegou a prender cerca de 2 mil pessoas por terem consumido carne humana. “Distrofia” acaba virando um vocábulo que permanecerá ligado para sempre a Leningrado, mas cujo significado é simples: os efeitos devastadores da fome sobre o corpo humano. “Media-se a passagem do tempo pelo intervalo que separava um suicídio de outro”, registra Olga Berghotz, uma das raras sobreviventes desse genocídio lento.

Apesar da transformação de Leningrado numa estranha espécie de prisão-hospital-matadouro, alguns abnegados, arriscando suas vidas, conseguiram salvar grande parte do museu símbolo da cidade, o Hermitage. Graças ao idealismo do seu diretor Iosif Orbeli – descendente de uma velha família armênia -, milhares de obras de arte são embaladas e embarcadas em 22 vagões e transferidas para outras cidades. A partir daí, aproveitando a temperatura de -20°C e o congelamento de lagos e rios, uma pequena brecha temporária, apelidada de “estrada da vida”, é aberta no bloqueio alemão – e centenas de crianças são compulsoriamente transferidas e transformadas nas futuras legiões de “órfãos de Leningrado”. Bem antes delas, retiram-se intelectuais e artistas próximos ao regime, entre eles, o compositor Dimitri Shostakovich, que irá concluir fora dali sua Sinfonia n.º 7, que receberá na posteridade o nome de Sinfonia de Leningrado.

Contra a obscuridade, a distorção de julgamento e o apagamento de rastros, Vallaud mobiliza o que há de melhor do métier do historiador, mostrando – para além das taras do regime estalinista e da crueldade genocida dos nazistas – quanto o cerco de Leningrado virou um monumento da mais pura e simples luta pela sobrevivência humana.

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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