Chechênia: a república de contrastes vira doc no RT

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Tenho uma confissão a fazer: eu gosto do canal Russia Today (RT, para os íntimos). E, no início do mês, tive a chance de ver o documentário “Chechênia: república de contrastes”. Profeticamente, o programa mostrou o lado bom de uma terra devastada inúmeras vezes ao longo da história poucos dias antes de mais um capítulo negro para a pequena república caucasiana: os atentados na maratona de Boston. (Clique nas imagens para ampliar)

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Antes de falar do programa, um preâmbulo. O Russia Today é um canal de notícias no melhor estilo CNN, totalmente em inglês (embora tenha versões em russo, espanhol e árabe) e com estrutura de dar inveja. Começou a transmitir em 2005, para ajudar a mudar a imagem que os ocidentais têm da Rússia: neve, comunismo e pobreza. E, como mais um canal estatal, ajudar a dar um levante na imagem combalida do polêmico presidente e dublê de primeiro-ministro Vladimir Pútin.

Bom, agora, vamos ao documentário sobre a Chechênia. Com 25 minutos, o especial não foi a fundo nas grandes questões do país. Apenas mostrou que, após duas sangrentas e longas guerras, sob o falso pretexto da “independência”, que deixaram cerca de 300 mil mortos, o país, enfim, consolida seu reerguimento. Pelo menos na capital, Grozny, única parte mostrada no programa.

O início já é um prelúdio do que virá. Diz o narrador: “Antes, eles explodiam bombas, agora, constróem casas. Onde havia ruínas, agora há arranha-céus e hotéis cinco estrelas”. A capital Grozny é mostrada como uma cidade islâmica, na periferia da Rússia, onde o luxo convive com a tradição muçulmana, onde o consumismo disputa espaço com a sharia e a milenar herança do povo local, os orgulhosos chechenos.

De fato, a Chechênia pode ser considerada uma república islâmica, já que cerca de 96% de sua população 1.3 milhão professa a fé. Uma minoria, que beira os 4%, segue o catolicismo ortodoxo ou armênio. Uma pequena polêmica – que, aliás, é a grande propaganda turística da república caucasiana – é sobre aquela que seria a ‘maior mesquita da Europa’, a Ahmad Kadyrov. Em primeiro lugar, os europeus tremem de receio ao incluir a Chechênia na Europa (embora seja, geograficamente, correto). Em segundo lugar, a Mesquita de Roma ainda é maior que o templo checheno.

Ainda seguindo os passos do islã na república, o documentário mostra um menino de sete anos como representante de um sistema educacional rígido, no qual aspirantes religiosos devem decorar o Corão em árabe – mesmo sem entender a língua árabe. Para o menino, a definição paraíso e inferno é simples. O primeiro é o lugar dos que seguem a fé muçulmana, enquanto o segundo é o lar dos infiéis.

Além da religião, os estudantes têm aulas de esporte, para mostrar que a vida é uma luta. Mas uma inconsistência me chamou atenção: de acordo com a Sharia, a lei islâmica, não se pode atingir a cabeça. Me veio imediatamente a lembrança de Muhammed Ali, um dos maiores boxeadores de todos os tempos.

Outra inconsistência é sobre o Mawlid (aniversário do profeta Maomé). O doc mostrou os fogos, a festa, a celebração, mas, para mim, infiel, isso sempre foi condenado pelos sunitas, que, teoricamente, só festejam Eidul Fitr (final do Ramadã) e o Eidul Adha que vem antes do Hajj (a peregrinação de Meca à Medina). Fui perguntar para uma amiga, especialista em islã, e a resposta foi direta: “Todas as outras comemorações são consideradas invenções e inovações, pois não constam nas tradições islâmicas e nos exemplos deixados pelo Profeta Muhammad. Alguns países que celebram o Mawlid são muito mal vistos pelo mundo islâmico.”

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Uma coisa interessante que notei – e, na verdade, já tinha notado, sem nunca ter feito o link – é sobre a dança. No caso, tanto a Lezginka, típica dança cossaca, quanto os movimentos típicos locais, sobre mulheres erguerem os braços sobre os homens, são justificados pela religião muçulmana. Porém, tanto na Armênia, quanto na Geórgia, e até mesmo na vizinha Ossétia do Norte, eu vi as mesmas danças, com pequenas variações. O que me faz pensar que, dificilmente, isso tenha mesmo a ver com o Islã.

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Além dos aspectos religiosos, o programa se esforçou para mostrar uma Chechênia que tenta superar os traumas da guerra, com arranha-céus, hotéis como o Grozny City, o único cinco estrelas no Cáucaso, concursos de modelo (adaptados para o estilo muçulmano), grifes caríssimas de moda, como a Firdaws, que vende roupas típicas, cravejadas de diamantes Swarovski…

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Outros dois pontos legais do doc são a culinária e o “Blues Brothers Bar”. A primeira é representada com um delicioso Gigig-Galnash, uma espécie de massa acompanhada de frango ou carne. E o segundo traz uma versão bem decente de “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd, uma coisa extremamente curiosa. Será que eles têm a exata noção do que essa música significa, sobretudo, para uma sociedade religiosa extremamente rígida?

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Enfim, “Chechênia: uma república de contrastes” é um documentário do Russia Today, canal que, lembrando, quer mostrar ao Ocidente o melhor do país. É interessante para que as pessoas conheçam esse lado progressista do Cáucaso, de um país devastado por uma guerra recente. E, como disse um dos personagens, “antes, a Chechênia era conhecida no mundo por ser um foco de guerras e tensões. Hoje,é uma região russa, muçulmana, lutando para estar no centro das atenções”.

Vale a pena ser assistido. Só lembro aos leitores que, ali, do ladinho de Moscou, tem segunda república mais importante da Rússia, o Tatarstão. Cuja população é, predominantemente, muçulmana. Ou seja, é preciso despir-se dos preconceitos e tentar não enxergar o modo de vida deles sob o nosso prisma. Afinal, como brasileiros, sabemos muito bem que quem julga, um dia acaba sendo julgado.

7 COMENTÁRIOS

  1. Não relacionado ao post, gostaria de saber se você tem alguma recomendação literária que fale sobre história da Rússia (pode ser vários títulos sobre diferentes épocas ou uma coleção). Parabéns pelo site, e obrigado desde já.

    • Boas Raphael,
      Tem muita, muita coisa legal. E muita porcaria. Eu tenho preferido ler os russos mesmo. Atualmente tou lendo Peter Kropotkin, Russian Literature. Tem uma abordagem diferente. Mas não sei se vc curte.
      abraço

  2. Fabrício Yuri! Tudo bem?
    Cadê você, o leste europeu “pegando fogo” e não tem nada pra falar? O ‘dublê’ de premiê/presidente/Czar/ditador-abestado (rsrs) tá mais enrolado que papel higiênico e você poderia dar sua humilde opinião, sei lá. Quando voltará de suas férias “eterna”! rsrs
    Brincadeiras à parte, curto muito o teu blog, ele só me faz ter mais vontade de conhecer os ex-países soviéticos. Já li mil vezes várias de suas “histórias”. Já tentei inúmeras vezes me programar para fazer uma viagem, mas na hora “H” acaba não dando, enfim…
    Gostaria de dizer que estou sempre de olho aqui.
    Um forte abraço!

    • Boas Cleo,
      Pois é… Me doi o coração e me coçam os dedos, mas pra fazer qq coisa, é melhor fazer nada… Com trabalho, filhos nascendo e fim do mestrado, tive que sacrificar alguns prazeres: o blog e a música. Mas esse suplício logo acaba. Acho que, depois de agosto, volto com força total.
      Te peço desculpas pela ausência e agradeço por voltar sempre! =)

  3. Fala Fabrício!
    Magina, nem precisa se justificar cara. Aliás, parabéns papai!!! De coração mesmo. Eu tinha lido em outro post, mais preferi não entrar de “bicão” na conversa.
    Aqui em casa são três e eu sei bem como é que é, tá explicado então! hehehe
    Enfim, era só pra saber do seu “paradeiro” mesmo.
    Muita sorte pra vc cara!

  4. Você poderia me indicar algum filme que mostre a vida dos russos na época comunista, como eles dividiam as casas entre famílias distintas, as filas para a compra de bens, etc?
    Desde ja agradeço a atenção,
    Isabela

  5. Fala Fabrício!
    Cara, to com um problema, não estou conseguindo encontrar os posts mais antigos, você deletou eles? Sempre que clico em um link volta para página inicial – mesmo aparecendo a URL da página “clicada”. Já tem um tempo isso. Será um bug do site? Estou desesperado man!!!..kkkk

    Forte abraço!

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