Chega de alimentar o radicalismo contra o Cáucaso

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Alexei Naválny é o principal, mais conhecido opositor de Pútin. Não politicamente, pois o blogueiro ainda não pode ser conhecido como tal, mas socialmente, quando opera e orquestra protestos pela democracia. Uma de suas ações mais polêmicas é a campanha ‘Hvativ Kormit Kavkaz’ (хватит кормить Кавказ), ou ‘Chega de alimentar o Cáucaso’.

A série de atos públicos já acontece há alguns anos e foi endossada, oficialmente, pelo blogueiro em setembro do ano passado. Oficialmente, a campanha tem um viés obviamente político, e não social: impedir que a dinheirama que sai do submundo do Kremlin chegue até as mãos de líderes acoitados com o poder, como Ramzan Kadyrov, o presidente da Chechênia. Mas, na prática, não é assim que funciona. Em meio a um cenário de tensão social, radicalismo e pós-guerra civil, a campanha acaba sendo usada para alimentar mais atos xenófobos e racistas.

Foram duas guerras entre Moscou e Grozny, como a gente sabe. Sangrentas, crueis e terríveis para ambos os lados. Atos extremistas horríveis atribuídos aos separatistas chechenos. Um país destruído que acabou vendo em Moscou, a próspera capital, como única saída para uma vida melhor. Afinal, estamos falando de cidadãos de um mesmo país que têm todo o direito de migrar internamente.

Ainda sobre a campanha, esses dias, enfim, li uma matéria do Komsomolskaya Pravda (também um jornal estatal), sobre o destino das verbas orçamentárias Rússia afora. Para surpresa geral – e tristeza de alguns – a Rússia não alimenta o Cáucaso. Pelo menos não tanto quanto o extremo oriente do país.

Aí vai uma explicaçãozinha. A Rússia tem 83 regiões, das quais 13 têm dinheiro em caixa (arrecadam mais do que gastam). Nas outras 70, há sempre um déficit, que é coberto pelo dinheiro federal. É como se você tivesse sua empresa. Você produz, arrecada, paga os impostos para o governo e, no fim, se sobrar dinheiro, você faz o que quiser com ele. E o governo federal também. No caso, usa essa verba para ajudar outras empresas (regiões, no nosso caso), que não arrecadam o suficiente para se manterem.

Pois bem. O que a matéria do KP mostrou é que Kamtchatka, Buryatya, Magadan, Sakha (Yakutya) e Tyva, todas lá no extremo oriente, recebem muito, mas muito mais dinheiro que todas as repúblicas do cáucaso juntas. Para se ter uma ideia, Kamtckatka recebe quase cinco vezes mais ajuda per capita do que a Inguchétia, a caucasiana que mais recebe verba federal. E aí, outra surpresa. Todos imaginariam que a Chechênia fosse o “sanguessuga” do país. Mas a terra de Ramzan Kadyrov recebe, na média, quase a mesma coisa que o Daguestão, a Ossétia do Norte-Alania, Adygeya e outras vizinhas.

O KP explica ainda que Kamtchatka é uma farta produtora de pescado, mas por uma combinação de fatores, incluindo aí os geográficos, esse recurso não sustenta o país. O alimento acaba indo para a Coreia do Sul e para o Japão. O fator geográfico, aliás, é também culpado pelo prejuízo que Sakha (Yakutya) dá: abastada produtora de diamantes e ouro, a região não conseguiria se manter sem dinheiro do Kremlin.

É claro que o Cáucaso recebe outros recursos, além do federal. Afinal, é preciso reconstruir tudo aquilo que foi arrasado durante a guerra. O dinheiro, oriundo de linhas especiais de crédito e iniciativas privadas, vai transformando economicamente a região. O objetivo é fazer com que apareçam empregos e indústrias. Mas, para isso, é preciso haver infraestrutura.

A matéria cita ainda o historiador romano Tácito, quando este fala sobre como os romanos tentaram pacificar, sem sucesso, a Gália na base da força. “Finalmente, os romanos perceberam que as pessoas que não têm mais nada a perder não dão valor sequer à própria vida. Vão à guerra. Logo, Roma construiu estradas, cidades, arenas, teatros e toda uma infraestrutura urbana. Resultado: os gauleses, enfim, se acalmaram e passaram a viver em paz”.

Ora, se não é esse o caminho, o de dar uma vida digna, não só para o Cáucaso russo, como também para favelas, África, Oriente Médio e demais regiões onde a tensão impera, qual seria?

Enfim, tudo isso para fazer pensar sobre como uma campanha irresponsável pode jogar ainda mais lenha na fogueira de uma sociedade perdida e com nervos à flor da pele. O “Nacionalismo Liberal” de Naválny, que reúne, tolera e ouve grupos neonazistas, radicais de esquerda e anarquistas, é muito complacente e sofre com a falta de uma plataforma concreta e real sobre o futuro da Rússia. Do jeito que está, não pode ser levado a sério.

E, a julgar pelo apoio que o blogueiro obteve nos últimos protestos pós-eleições (lembra que ele prometia milhões nas ruas? pois é, alguns milhares apenas apareceram), o russo de classe média percebeu isso. Afinal, os fins não justificam os meios. É preciso sim, democratizar a Rússia. Mas não às custas da demonização de Pútin e da radicalização de uma nação cosmopolita internamente e tão rica histórica e culturalmente.

‘Hvatit Kormit Kavkaz’ é um erro monstruoso. Que a História não vai deixar de punir.

Em tempo: se você quiser ler mais sobre Alexei Naválny e seu “Nacionalismo Liberal”, recomendo fortemente a leitura do artigo (em inglês) de Kevin Rothrock, do blog ‘A Good Treaty’. Ali está costurada, com links e citações, praticamente toda a história de Naválny. Sem ele, eu diria, não é possível saber quem é este rapaz em cujo colo jogam a responsabilidade de democratizar esse gigante que é a Rússia.

4 COMENTÁRIOS

  1. Esse tal de Navalny nunca me enganou. É um sujeito muito perigoso que flerta que com ideias liberais e pró-democracia apenas para angariar suporte do Ocidente. No fundo, é um lobo travestido de cordeiro. Mas é ótimo que gente como Kevin Rothrock vem à tona para desmarcará-lo. Navalny é um palhaço russo com ideias muito parecidas com a de certo austríaco que assumiu o poder na Alemanha nos anos 30, prometendo varrer o país da “escória judaica”.

    • Pois é, cara, eu também acho ele um fanfarrão. Podia continuar a luta dele contra a corrupção, que é cheia de méritos. Mas com essa campanha ridícula e andando lado a lado com gente do nível do Demushkin, não dá.
      Infelizmente, tá difícil pra eles.
      Valeu pela presença, Felipe!
      Abração

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