Choque de gerações ganha conotação de ‘Guerra Fria’

No último sábado, nós vimos que uma ‘batalha ideológica’ foi travada não só nas ruas de Moscou, como nas principais cidades da Rússia: Petersburgo, Ekaterinburgo, Volgograd, Perm… Dezenas de milhares se mobilizaram para defender seu ponto de vista político, seja ele pró ou contra Vladimir Pútin, o ‘partido dos vigaristas e ladrões’ (партия жуликов и воров, nome dado por Alexey Naválny ao ‘Rússia Unida’) e o status quo de autoritarismo, censura e corrupção. Mas, afinal, o que isso tudo representa?

Bom, ainda em 2011, eu tentei justificar aqui minha tese, de que, inicialmente, trata-se de um choque de gerações. E isso não começou ontem. Para ficar no âmbito dos ‘descontentes’, cito uma música de Yuri Schevchuk, líder da banda DDT e ferrenho opositor da retórica Pútin, chamada ‘Pokolenie‘ (geração), que diz ‘Уходит Наше поколение НЕТ, приходит Ваше поколение ДА’ (Sai a nossa geração, do NÃO, chega a vossa geração, do SIM!’). Schevchuk já profetizou isso, 10 ANOS ATRÁS, em 2002. Simplesmente não é possível que essa geração soviética, autoritária e decadente continue no poder de uma Rússia pós-moderna, fadada a cumprir outro papel no mundo, que não o pesado fardo de ser uma reles alternativa ideológica aos EUA. A Rússia tem que ocupar seu espaço, não o que sobrou do país que não existe mais.




Censura ideológica e guerra de desinformação

Voltando aos protestos de ontem, os números oficiais são confusos. Na Praça Bolotnaya, onde reuniram-se os opositores, dados oficiais contaram 36 mil pessoas, enquanto os ‘discordantes’, 120 mil. Já na Poklonaya, onde estiveram os pró-regime, os dados da polícia dão conta de 138 mil pessoas, número do qual a oposição duvida muito. Em todo caso, todos são unânimes: o movimento ‘anti-laranja’, no mínimo, se equiparou à oposição já em seu primeiro grande protesto.

Laranjas? Em 2004, a Ucrânia realizou eleições presidenciais que foram consideradas ‘vergonhosas’, devido ao absurdo número de fraudes constatadas. O povo, então, foi às ruas, misturando desobediência civil (os protestos devem ser autorizados, como na Rússia de hoje) com insatisfação política e conseguiu mudar tudo, destituindo o presidente eleito fraudulentamente Viktor Yanukovich, que era apoiado pelo ‘ditador’ pós-soviético Leonid Kuchma. O movimento ficou conhecido como ‘Revolução Laranja’. Além disso, a cor era a da campanha de Yuschenko, candidato da oposição. Mais a fundo, “ânimo laranja” (oранжевое настроение) é uma expressão utilizada por russos e ucranianos, equivalente ao nosso “tudo azul”. É usada diariamente, de lojas de brinquedos, a de produtos naturais e tem até um hino, a música Оранжевое настроение (Oranzhevoe nastroenie), da banda Chaif, gravada em 1994.


Isso você, certamente, não vai ler na mídia ocidental, que insiste em números como 35, 40 mil pessoas, para os ‘satisfeitos’. Isso quando os jornais não ignoram completamente esse desagravo monumental a Pútin (como o Guardian) ou mesmo usam fotos desta ação, bizarramente, dizendo ser do ato da oposição. Como o fez, aliás, o Le Parisien, que usou uma foto do protesto errado, e que foi seguido por muitos outros jornais, inclusive, no Brasil…

Governo acusado de comprar simpatizantes e inflar números

Mas aí você pergunta, já que leu em alguns blogs que o protesto pró-Putin foi ‘armado’. Sim, há relatos de sindicatos que organizaram caravanas com dinheiro público para levar empregados aos protestos, de gente que recebeu 500 rublos para participar deles e de gente que estaria sendo ameaçada de perder o emprego, caso o premiê não se eleja presidente. Tudo isso, sim, existe, e nós já vimos esse filme aqui no Brasil, nas eleições de 1989, lembra? Collor apelava para o medo, dizendo que, caso Lula ganhasse, teríamos que abrigar sem-teto em nossos apartamentos, as fazendas seriam coletivizadas. Seu slogan era “contra a foice e o martelo, vou de verde e amarello”.

Da mesma forma que a situação usa artimanhas para inflar números, a oposição também o faz. Lembro que, sobretudo inicialmente, essas ‘marchas de discordantes’ eram movimentos hypados, alternativos, da elite e de uma classe média ocidentalizada: eram A moda. Concordo que agora as pessoas estão perdendo o medo de ir para as ruas e protestar. Mas ainda há temor de prisões e de represálias. Isso sim, é inconcebível num país que se diz democrático.

‘Se não for Pútin, quem será?’

Mas, afinal, qual o problema da oposição? Bom, a gente bem conhece nomes como Naválny, Udaltsov, Nemsov, Yashin, Soobshak, Kashin… Mas, quem é o líder da contra-corrente? Qual seu capital político? Quem vai governar o país, se Pútin sair? A gente sabe muito bem que os russos são extremamente paternalistas e fatalistas. E que a Federação tem, pelo menos, uma dúzia de sublíderes e estados loucos para pedir independência ou mesmo usurpar a união.

Nenhum dos nomes, dos que sobem aos palcos de protesto com discursos inflamados, tem o menor cacife político para fazer o que Pútin faz muito bem e ainda por cima colocar o país no caminho da democracia. Com essa geração de transição, seria necessário um líder do porte de um Winston Churchill para tal tarefa. Só para ilustrar: a grande personalidade da oposição É Alexey Naválny. Além de ser um ótimo advogado, um blogueiro de mão cheia, que faz discursos inspiradores, Naválny não tem experiência política quase nenhuma. Como diz um amigo meu, nunca foi nem síndico de prédio, nem escoteiro-chefe. E nem na internet tem tanta força, nesse mundo pós-poderno-redes-sociais: seu número de seguidores no Twitter estacionou na casa dos 190 mil há semanas… Número muito baixo para uma figura tida como ‘extremamente popular’, ‘líder da oposição’ e ‘altamente influente na RuNet’, sobretudo no momento político turbulento do país. Para se ter uma ideia, Luciano Huck, do nosso “Caldeirão”, tem 4,5 milhões.

Ação precoce x reação tardia

E a situação demorou para agir. Os protestos de ontem, no entanto, comprovam, que Pútin está bem antenado. Seus simpatizantes cruzaram pontos-chave para a alma russa: a marcha começou no Museu da Grande Guerra Pátria (como eles chamam a II Guerra Mundial) e foi até o Parque da Vitória (referente também à II Guerra). E os sites, blogs, facebooks e twitteres do Edinnaya Rossia (Rússia Unida) conseguiram emplacar a ação nos Trending Topics do Twitter, coisa que a oposição não atingiu, embora incentivassem ‘tuitadas’ a cada discurso. Sim, há boatos de que as telecomunicações nos arredores da Bolotnaya foram “minimizadas”, mas, teorias da conspiração postas de lado…

O fardo e a sina de ser rival ideológico dos EUA

Falando em conspiração, ao mesmo passo que a oposição sobe o tom contra Pútin e cia., o governo revida, subindo o tom contra os EUA e o Ocidente. Agora, os americanos estão financiando a oposição russa, incentivando a desordem, ingerindo em países alheios, minando os bancos russos, criando tensão étnica onde não há e até derrubando satélites. A instrução, nos meios de comunicação russo, é uma só: focar nos EUA. E gente que acompanha já percebeu que essas notícias surgem de maneira indiscriminada ao longo do dia. Como no caso da incrível notícia do Comitê criado para investigar as supostas fraudes nas eleições de 4 de dezembro: especialistas disseram que vídeos que provariam os crimes eleitorais eram “montagens” divulgadas pelos EUA para desestabilizar o regime.


‘Vladimir Putin é uma ameaça à paz mundial’ – Mitt Romney, provável candidado à presidência dos EUA


‘Os Estados Unidos não querem parceiros, querem vassalos’ – Vladimir Putin

O que o governo quer, no fim das contas, é assumir o espólio moral soviético de oposição aos EUA, internacionalmente apoiando massacres, como na Síria, ditadores insanos com ideologia do ódio, como Irã e Coreia do Norte ou mesmo paranoicos maniqueístas como Hugo Chávez e Raúl Castro. Isso enquanto os EUA têm um presidente negro – fato histórico e impensável até anos atrás -, que cresceu na Ásia e enfrenta ao mesmo tempo uma das maiores crises econômicas da história, além de uma onda de baixa popularidade em plena época de reeleição. Sim, Obama pensa MUITO na Rússia.

Ao mesmo tempo em que a situação política vai se aprofundando, que a classe média vai ganhando voz, Pútin segue absoluto no poder e não parece se importar com a oposição. Dados dos institutos de pesquisa russos, como o Vtsyom e o Levada, apontam que, mesmo descartando-se o porcentual de votos fraudados apurados por ONGs internacionais, Pútin ainda seria vitorioso facilmente no primeiro turno. Isso faltando apenas 1 mês para as eleições. Zyuganóv e sua falácia comunista não são páreo para Pútin, que ainda não tem rivais. Ou seja, um eventual processo de mudança apenas pode ter começado, mas está muito, muito longe de terminar. A Guerra Fria 2.0, por outro lado, pode estar só começando.

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7 respostas para “Choque de gerações ganha conotação de ‘Guerra Fria’”

  1. diogo felix disse:

    Costuma-se dizer que o Brasil não é para iniciantes. Acho que a Rússia tampouco.

    Excelente post.

    abs!

  2. Felipe Goltz disse:

    Pois é, Fabricio, esse tal de David Meyers é um cretino sem tamanho. Mas me pergunto se a mídia americana, como um todo, já não começou seus ataques contra Putin em “solidariedade aos protestos” ou se este artigo de quinta categoria é apenas uma exceção. Sei lá.
    Abs

    • Boas Felipe,
      Também tenho essa percepção, de que a mídia americana está focando demais Pútin. Seria uma tendência, para desviar o foco da crise e, eventualmente, criar um novo inimigo para mobilizar os americanos – sobretudo republicanos? Ainda mais se levarmos em conta que temos um embaixador dos EUA novo em Moscou, Michael McFaul um eslavista que estudou na URSS, fala muito bem russo e conhece muito bem o país. McFaul foi mandado para lá justamente para isso. Mas o destino é inglório: logo que chegou, tem que lidar com crise de mísseis, crise no Irã, na Síria, eleições presidenciais, protestos e, como se não bastasse, a ameaça Romney, que critica escandalosamente Pútin. Que, por sua vez, esculhamba os EUA – e Hillary Clinton – sempre que tem chance.
      Mas uma coisa que pouca gente – ou ninguém entendeu – é QUEM e PARA QUE McFaul foi mandado para a Rússia, neste momento histórico. Dá uma olhada no livro pelo qual McFaul é famoso…
      http://www.amazon.com/Advancing-Democracy-Abroad-Politics-Economics/dp/1442201118
      Se eu fosse Pútin, realmente, estaria muito irritado com esse recadinho!
      Abraços!
      Fab

  3. Felipe Goltz disse:

    Fabricio,
    Dá uma lida nisto aqui, se te sobrar um tempo. Vale muito a pena.

    http://www.jpost.com/Opinion/Op-EdContributors/Article.aspx?id=257032

    Abs

  4. […] a perspicácia de criar uma coalizão para tentar mudar algo. Isso é compreensível. Tratava-se de outra geração – e eu vivo batendo nessa tecla -, de políticos forjados na União Soviética, que não tinha a menor vocação para o jogo […]

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