‘Cinismo russo e chinês na crise síria’ – O Globo

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O Globo – 10/02/2012

O ditador sírio Bashar Assad continua se aproveitando do veto de Rússia e China à ação do Conselho de Segurança da ONU para arrasar a cidade de Homs com bombardeio pesado, atacando homens, mulheres e crianças sob o pretexto de reprimir os que lutam contra seu regime. Os Assad estão no poder há 31 anos.

Rússia e China agiram movidas por lamentável cinismo ao vetar uma versão já desidratada de um plano da Liga Árabe, apoiado pelo Conselho de Segurança, com objetivo de deter a carnificina. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, diz considerar inadmissível a interferência em assuntos internos de outro país e oferece as garantias obtidas por seu chanceler em Damasco de que Assad vai parar com o banho de sangue.

É o caso de se perguntar: o que vale mais, um princípio diplomático ou a vida de milhares de pessoas? E só há uma coisa mais desvalorizada no mercado hoje que os títulos da Grécia: as promessas de Assad.

Rússia e China parecem movidos por velhas noções da Guerra Fria, felizmente já sepultadas.

Por trás dos princípios diplomáticos de Putin está o desejo de manter vestígios de poder da União Soviética em antigas áreas de influência, como o Oriente Médio. A Rússia herdou da URSS a única base naval em “mares quentes”, no Mediterrâneo, em Tartus, na Síria. Há motivos mais cínicos: o atual regime sírio é um grande comprador de armas russas, um cliente que Moscou não quer perder. Putin, atual premier russo, está em campanha para voltar à presidência, e falar grosso com o Ocidente pode render muitos votos na Rússia, às custas das vidas de milhares de sírios que ele finge defender.

A diplomacia se movimenta.

Os Estados Unidos, imobilizados pelo veto russo-chinês no Conselho de Segurança, propõem a criação do grupo dos Amigos da Síria para retomar a iniciativa. A União Europeia estuda novas sanções ao regime de Assad. A Liga Árabe anuncia que reenviará sua missão à Síria, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, concorda em torná-la conjunta. A Turquia diz que não pode mais ficar apenas observando a carnificina e desloca seu chanceler, Ahmet Davutoglu, para discutir com a Casa Branca a melhor forma de agir. Até a China resolve enviar um diplomata para contatos com a oposição síria.

A comunidade internacional deve implementar da forma mais eficiente possível as sanções contra Damasco, ao mesmo tempo em que insiste com Moscou e Pequim para que modifiquem sua posição e convençam Bashar Assad a deixar o poder. É patente que nem o Kremlin nem Pequim se sentem à vontade com primaveras árabes ou de outra natureza. Multidões nas ruas e praças pedindo a cabeça de ditadores não lhes fazem bem. Temem o efeito contágio.

Mas será imperdoável que ambos continuem bloqueando uma missão que, mesmo com seu apoio, é extremamente complexa: impedir que um ditador que nem desejava o cargo — assumiu com a morte do pai porque seu irmão mais velho, Basel, morrera num acidente de automóvel — prossiga martirizando a população síria.

 

Nota: Se O Globo ainda fosse um jornal da ‘Era Online’, eu postaria o link aqui. Como deixou de ser tem algum tempo, fica difícil.

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