Copa da Rússia: hooligans são ameaça à segurança? Relembre as brigas em 2002

Histórico recente da Rússia mostram que brigas e destruição, infelizmente, criaram raízes na cultura do futebol no país.

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A Copa do Mundo da Rússia chegou e, com ela, a dúvida: existe a chance de vermos brigas de hooligans pelas ruas de Moscou, São Petersburgo e cia. durante o Mundial da Fifa? Enquanto muitos especialistas acreditam que não, eu, sinceramente, acho que é uma possibilidade extremamente real. Afinal, praticamente TODO confronto entre Rússia e Ocidente nos últimos 20 anos, seja de seleções ou de clubes, teve incidentes em Moscou, São Petersburgo ou Kazan.

Nos últimos meses, o grande rumor tem sido de que o presidente ‘Pútin teria feito um pacto com hooligans pela segurança na Copa‘. Claro, a informação não é oficial – segue restrita ao campo das especulações. Mas, segundo as apurações, as forças de polícia locais não teriam conseguido controlar os grupos de ultras russos, que se vangloriam de serem os torcedores mais violentos e incansáveis do mundo. A conclusão é óbvia: uma vez que se gabam dos atos de violência, se consideram os melhores no que fazem e teriam os principais rivais em sua casa, durante a Copa, a única saída seria forçar os hooligans a assinar um termo de ‘bom comportamento’ durante o Mundial.

Nos fóruns na internet, comentários em redes sociais e mesmo em conversas informais, o tom dos hooligans russos é sempre o mesmo: ‘Nós não iremos começar as brigas. Mas se elas acontecerem, não iremos parar’. Prova disso é a reação da classe política russa aos confrontos na última Eurocopa, realizada na França, em 2016. Os tumultos entre russos e ingleses, em Marselha, espalharam o caos pela cidade e, após deportações e punições, os brigões foram ‘saudados’ na chegada à Rússia.

Primeiro, pelo polêmico deputado Igor Lebedev, que disse ‘É isso aí, meninos’ (referindo-se à vitória na briga). Em seguida, o ex-premiê (e ex-presidente do comitê organizador da Copa, além de um dos responsáveis pelo escândalo de doping russo) Vitaly Mutko, que classificou os tumultos como ‘armação contra a Rússia’. E, por fim, Vladímir Pútin, o líder russo desde 2000, que usou de sua eterna ironia para descrever o fato: ‘Como é possível 200 torcedores russos espancarem mais de mil ingleses?

E, de fato, a violência da torcida russa, profundamente ligada a questões nacionalistas e (por incrível que pareça, neonazistas), pode explodir a qualquer lugar. Lembro que, em 2002, eu morava em Moscou durante a Copa do Japão/Coreia. Para os jogos da seleção russa, foi instalado um telão na praça Manejnaia, ao lado do Kremlin, onde uma multidão se reunia a cada partida.

Ainda na primeira fase, a ‘sbórnaia’ jogava contra os donos da casa, o Japão, quando levou o primeiro gol (que determinaria a vitória dos nipônicos e a dramática eliminação dos russos). Já no meio do segundo tempo, brigas estouravam em todos os lugares. Torcedores russos, bêbados ou não, atacavam toda e qualquer pessoa com aparência asiática. Eu, que estava perto do telão, vi espancamentos, destruição de prédios, carros, estações de metrô, tudo sob os olhares atônitos das forças policiais. Claro, o incidente envergonhou o país e ganhou as manchetes de todos os jornais e revistas – essa aqui, abaixo, eu guardei de recordação.

'Ensinando a amar a pátria'
‘Ensinando a amar a pátria’
‘Os tumultos demonstraram que nossas forças de segurança não estão preparadas para tais situações’
'Os entusiastas marcham' e 'Pogrom nas ruas de Moscou'
‘Os entusiastas marcham’ e ‘Pogrom nas ruas de Moscou’
'Nacionalistas avançam'
‘Nacionalistas avançam’

O fato é que a massa incontrolável, capitaneada por ultras, avançou pelo Centro de Moscou, deixando um rastro de morte e destruição. Foram 79 feridos – dentre eles 16 policiais – e um morto. Era a primeira vez que o mundo via a fúria dos torcedores hooligans russos – até então, um assunto tabu, e que virtualmente não existia na recente história do país, ou da Era Soviética. Em 2002, escrevi sobre isso, falando sobre o uso da palavra ‘pogrom’ para descrever os tumultos e as brigas. O trauma, pelo visto, foi esquecido.

Após anos de brigas, tumultos, mortes e feridos, no final de fevereiro deste ano, o jogo entre Spartak de Moscou x Athletic Bilbao pela Liga Europa da UEFA, realizado no país Basco, Espanha, terminou com um agente policial morto e dezenas de feridos após cenas de guerra pelas ruas de Bilbao. O evento foi o ápice dos preparativos dos hooligans para a Copa do Mundo, e consagrou definitivamente a rixa entre russos e europeus ocidentais – notadamente ingleses, espanhois e italianos. Alguns meses depois, a ESPN conseguiu se infiltrar nos ultras da Rússia e mostrar sua rotina de preparação, e como eles afiam as garras para um ‘espetáculo de destruição’ durante a Copa do Mundo.

Nas camisas dos ultras do Spartak (os fratrias): 'Vitória ou morte'
Nas camisas dos ultras do Spartak (os fratrias): ‘Vitória ou morte’

Ao mesmo tempo em que Pútin toma medidas duras para prevenir e, se for necessário, punir os brigões, como cadastro total, revista, crachás e um efetivo policial e de inteligência nunca antes mobilizado em um evento esportivo, os países que participarão da Copa tomam suas precauções, alertando torcedores, autoridades policiais e controlando minuciosamente quem vai ao maior país do mundo ver a festa do futebol.

A esvaziada e fracassada Copa das Confederações, realizada ano passado, foi apenas um pequeno teste, onde times B passaram pelos gramados russos, atraindo poucos torcedores e despertando pouca atenção da mídia – logo, não pode ser usada como comparação. Não é de se estranhar que tenha sido a última edição do torneio.

A Copa da Rússia vai ser segura? Acredito (e torço) para que sim. Porém, o histórico recente me faz crer que será difícil controlar o ímpeto dos hooligans.

Se somarmos a fraca seleção nacional,  candidatíssima à eliminação já na 1ª fase e ao nada honroso recorde de ‘pior campanha de um anfitrião da história’ (vale lembrar o fiasco da seleção russa na Copa das Confederações), aos ânimos acirrados entre Rússia e ocidente, com inúmeros atritos políticos nos últimos meses, culminando com o banimento de sua delegação dos Jogos Olímpicos de Inverno, temos o cenário perfeito para os bem-nutridos hooligans mostrarem, nas arquibancadas e nas ruas, uma disposição de fazer inveja aos comandados do técnico Stanislav Tchertchessov.

Revista 'Meu Futebol', de julho de 2002, com 'Brasil pentacampeão' na capa. Guardo com carinho.
Revista ‘Meu Futebol’, de julho de 2002, com ‘Brasil pentacampeão’ na capa. Guardo com carinho.

Se tudo correr bem, isso sim, será uma surpresa. Mas a torcida é para que, quando o Brasil erguer a taça, tenhamos tido a mais pacífica Copa do Mundo da história – o Mundial que mostrou ao mundo como a Rússia é um país incrível e encantador.

(Em tempo: o blog voltou em regime de ‘edição especial’. Se quiser continuar a conversa, estou no twitter @fabyuri. Me segue lá!)

4 COMENTÁRIOS

  1. Olá Yuri,
    Além dessa eventual preocupação, não podemos deixar de lado a questão do terrorismo, uma vez que Moscou é sempre um alvo em potencial.
    Abraços.

  2. ” temos o cenário perfeito para os bem-nutridos hooligans mostrarem, nas arquibancadas e nas ruas”

    Resposta: Na verdade mais de 500 pessoas que fazem parte dos hooligans russos, não pdoerão frequentar os estádios.

    PS:Particularmente sou fã da política do Putin. Mas isso é outra coisa rsrs.

    • Oi Rafael,

      Vc acha que, de 16 times, falando apenas da premier-liga russa, temos apenas 500 pessoas ligadas ao hooliganismo? E sobre ser ‘fã de Putin’, tudo bem. Eu admiro muitos pontos de sua política, e discordo de outros tantos. Mas cada um se define como quiser!

      Abração!

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