Cyxymu – o twiteiro que derrubou o mundo. E a imprensa

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No fim dessa semana, os nerds de todo o mundo entraram em pânico: um ataque de DDoS tirou do ar Twitter, Facebook, LiveJournal e um bocado de outras coisas geek que a gente gosta. O motivo? O conflito ideológico – e eventualmente bélico – entre Geórgia e Rússia.

Acontece que, como a gente sabe, os hackers mais famosos e poderosos do mundo estão em três dos maiores países do planeta. Brasil e Rússia. E, vá lá, China também. A diferença é que, enquanto os nossos são ‘do bem’ e os chineses são ‘políticos’, os russos não têm lei. Se organizam em questão de segundos, gozam de uma internet absolutamente sem controle e de um conhecimento ignorado pela gente que vive no Oeste. Pra ilustrar, cito uma metáfora típica da guerra fria: nos anos embrionários da web, enquanto a gente tentava achar a distância entre dois pontos, eles tentavam achar a distância entre duas linhas.

Pois então, Cyxymu é uma figurinha clássica nos fóruns russos, caucasianos, abkházios, ossetinos e georgianos (sim, esses fóruns bizarros existem e, eventualmente, o Falando Russo dá uma espiadinha). Expõe seu ponto de vista com certa virulência, embora de forma eloquente. E, via de regra, é banido, ofendido, kickado… Mas, afinal, o que ele tem a ver com o nuke geral do Twitter?

Bom, vamos contar a história rápida. Cyxymu não se lê como está escrito. Na runet (internet russa), a gente usa o alfabeto latino para ‘emular’ o cirílico. Desta forma, Cyxymu se lê como Sukhumi (em bom português, surrumi). Aí que o rapaz derrubou toda a nossa imprensa, que caiu na corruptela e nem se tocou do absurdo que estava escrevendo. Até jornal grande escreveu ‘Cyxymu’…

Então, o que é Cyxymu – Sukhumi? Trata-se da capital da Abkházia, uma república pequenina na costa oeste do Mar Negro. Para a Geórgia, a Abkházia é parte integrante de seu território e goza de status de ‘república autônoma’. Para a Rússia, é uma república independente e integrante de sua esfera de influência. Exatamente o mesmo status que a Ossétia do Sul tem hoje. Ex-república autônoma georgiana -> independência de facto -> guerra.

Em 1993, a Abkházia entrou em guerra com a Geórgia e foi ajudada pela Rússia. Novamente, a velha história. Com ambas as partes se acusando de ter promovido ou de tentar realizar ‘limpeza étnica’, a minoria georgiana da Abkházia foi realmente expulsa do país. Cerca de 30 mil georgianos e 5 mil abkházios teriam morrido, e outros 250 mil teriam sido forçados a migrar. Mas esses números não são oficiais, lógico. Afinal, trata-se de uma terra absolutamente esquecida e ignorada. Menos pela Rússia.

Hoje, os cidadãos da Abkházia possuem passaportes russos, o rublo é amplamente utilizado como moeda comum, o russo é falado por todos – embora ainda tentem reviver as línguas locais, o khomshetsi e o mingrélio – e tudo leva a crer que, num futuro breve, a Abkházia de Cyxymu vá integrar a Federação Russa, com ou sem a aprovação da OTAN ou da UE.

Mas a ‘política da reciprocidade’ adotada pela Rússia tem precedentes. Afinal, toda a comunidade internacional reconhece a independência do Kosovo – tão sérvio quanto a Ossétia do Sul é georgiana.

A guerra ideológica tem muitas nuances. E nenhum relato é tão fiel quanto o que nos contam os locais. Muitos guardam o ranço pro-um-dos-lados, o que naturalmente contamina a narrativa. Mas o fato é que a tensão na área é tão grande, mas tão grande, que se espalha até para o ciberespaço.

E aí, nosso bravo Cyxymu – que agora a gente já sabe significar a bela cidade de Sukhumi – entra. O jovem, notadamente pró-Geórgia, virou boi-de-piranha para a turma de hackers russa. E isso é tudo que um ser humano virtual pode não querer para si. De repente, uma onda de servidores e máquinas zumbis iniciam o envio de pacotes em massa para todos os sites de relacionamento onde Cyxymu tem conta. Resultado: um nuke geral. Mas, pela natureza do ataque, pela força e pela organização, a coisa ainda está mal explicada.

E sobra pra gente, incautos usuários de Twitter, Facebook, LiveJournal e afins. Mas, pelo menos, a gente já sabe os motivos da bagunça. E também onde fica a Abkházia, cuja capital é Cyxymu. Ou melhor, Sukhumi.

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