Da triste rotina à consciência do risco de criar cobras

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A notícia de que mais um jornalista foi vítima de uma tentativa de homicídio na Rússia não me choca. Claro que é um drama inerente à profissão, sobretudo na Rússia. Mas não me choca. Os profissionais vivem um dilema: ou se arriscam tentando expor a verdade ou se calam para viver normalmente. O que você escolheria?

Bom, Oleg Kashin, (twitter) do ‘Kommersant’, escrevia eventualmente sobre temas polêmicos – como movimentos de ultra-direita, mas se criou escrevendo sobre cultura. Foi editor do finado Rulife.ru e escreveu um livro sobre a cantora Zemfira Romazanova, uma das artistas mais populares da Rússia.

Por participar sempre da ‘Марш несогласных‘ (Marsch nesoglasnyh – marcha dos que não concordam), uma passeata tradicional dos descontentes com os rumos da política no país, enfim, entrou para a lista negra do Kremlin, sendo sempre vetado dos grandes encontros políticos que envolvem chefes de estado.

Voltou aos holofotes recentemente, devido a artigos sobre a polêmica da floresta Khimki – especialmente um sobre ataques de anarquistas e antifascistas, que despertou a ira dos movimentos direitistas do país, o ‘Единая Россия’ (Edinnaya Rossiya – Rússia unida) e ‘Молодая Гвардия Единой России’ (Molodaya Gvardya Edinoy Rossii – Jovem guarda da Rússia unida). Ambos o decretaram ‘inimigo público’, ‘traidor’ e disseram que os artigos não sairiam sem punição.

Antes de ser espancado e entrar em coma, Kashin já tinha apanhado da polícia em 2004, quando se recusou a entregar o flash-card de sua câmera aos policiais, quando de um tumulto em frente ao prédio da câmara de Moscou.

Enfim, uma carreira nem tanto polêmica. Mas que, em algum momento desagradou a algum poder paralelo. Eu tenho certeza que o governo russo não simpatiza com uma imprensa livre – e faz pouco para impedir censura, agressões e assassinatos. Mas, honestamente, isso faz parte da cultura deles. Como dizia meu professor Alberto, é preciso entender que se trata de um país que viveu muito pouco em tempos de paz, sem guerras declaradas. E não se acostumou à liberdade de imprensa, com séculos de regimes severos um atrás do outro. Muito embora tenham uma literatura e uma expressão artística importantíssimos e valorizem a cultura como poucos, são sempre ou muito receosos ou extremamente críticos. Nada de meio termo.

Agora, é bastante hipocrisia a imprensa geral vir criticar a Rússia com esse argumento pseudo-bobalhão de ‘liberdade’. Lembro, para me restringir ao eixo RJ/SP, da execução do fotógrafo do jornal ‘O Dia’, e também do sequestro da equipe da TV Globo em 2006, para não falar nos tantos outros crimes contra a imprensa aqui no Brasil – cujo ícone maior é Tim Lopes, executado cruelmente e cujos supostos assassinos foram agraciados com penas brandas, condicionais e afins. Por outro lado, Pimenta Neves, assassino confesso, vive em liberdade, por ser jornalista, ex-editor-chefe, ter conchavos… Ou seja: o jornalismo é uma força instável. Lembro também da famosa capa do jornal Extra, daqui do RJ, criticando duramente o presidente Lula por tentar impor uma ‘censura’. E o que falar do ‘Estadão’, que vive sob censura há centenas de dias? E da ‘Folha de SP’, que fechou um blog que a criticava? Imprensa Livre? Onde?

Enfim, Oleg Kashin, assim como Anna Politkovskaya e dezenas de outros profissionais, são vítimas de um regime que poucos entendem e pouquíssimos têm envergadura moral para contestar. E que eles mesmos escolheram enfrentar, sabendo muito bem quais seriam as possíveis consequências. São mártires? Sim. Mas tinham plena consciência de que suas mortes podem ser 100% em vão.

6 COMENTÁRIOS

  1. Sometimes there is a heaviness to living in Russia.

    I heard it said in the US, ‘Never get too upset about something predictable’.

    It is often good advice, but the predictable violence against inquiring journalists must upset one who cares about the future of Russia.

    • Great advice, indeed, must be ‘Never get too upset about something predictable’. However in Russia, we are aware that the future tends to repeat the past in several unpredictable ways… The question ‘what is Russia?’ has only 1 answer: ‘This is Russia’…

  2. Triste… O que é mais triste é o numero das pessoas protestando contra esse crime na frente da Petrovka, 38. Infelizmente algo vai mudar na Russia somente quando esse numero vai ser não 20 pessoas mas 20.000.

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