Do baú: estreando no Cáucaso, em 2002

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Não gosto muito de posts fragmentados em blog. Mas revirando os alfarrábios digitais, achei uns emails interessantes, do tempo que ainda estava do lado de lá do mundo. Eu contava as viagens para a família, em emails longos, mas com uma ‘edição MTV’.

Vou postar a primeira parte da viagem para a Ossétia do Norte. Depois tem cruzando a Ossétia do Sul, Geórgia e Armênia. E vou complementando com fotos. Boa viagem!

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Oi pessoal

Cheguei do Cáucaso, vivo, são e salvo. E os dias que passei na região montanhosa ao sul da Rússia foram fantásticos. Digo sem quaisquer remorsos que foi a viagem mais fantástica de minha vida. Não somente pela riqueza natural daquela região, mas pela oportunidade impressionante de estar frente à frente com culturas tão distintas entre si, num território tão pequeno.

Bom, preparei o roteiro de acordo com preceitos básicos: segurança, viabilidade diplomática – leia-se vistos – e distâncias. Assim, os primeiros seis dias fiquei na pequena mas impressionante república autônoma da Ossétia do Norte, que faz parte da Federação Russa, e por isso, dispensava visto. Depois, dentro de uma minivan, partimos para a Geórgia (Gruzia) e para a Armênia – passando a míseros 30km das repúblicas rebeldes da Inguchétia e a 50km de Groznyi, capital da Chechênia. Em ambos os países, Armênia e Geórgia, é necessário o visto, e para brasileiros lá isso é praticamente impossível. Mas na fronteira, com um bom papo e com alguns rublos, você pode até se tornar cidadão desses países…

Onde ficar: na Ossétia os hotéis são muito bons. Outra boa pedida é alugar um quarto. 10 dólares é uma montanha de dinheiro por lá. Mas a língua é um problema: só o russo ou a língua local. E também não é recomendado ir sozinho. Ande sempre com algum amigo do local. Nos outros países, por enquanto, não vale a visita. Fique em casa.

Comecei minha viagem na estação Kazanskyi, em Moscou, de onde parte o “expresso Vladikavkaz”. São quase 50 horas ouvindo o barulho de trilhos e batentes, rasgando a Rússia num vagão com os mais variados tipos de pessoas, línguas e nacionalidades. O caminho pode ser um sonho romântico, com infintos campos verdes, floridos, cidades vivas, catedrais e prédios lindos, mas também pode ser um pesadelo, com tanques à beira da estrada de ferro, usinas nucleares monstruosas, campos queimados e mortos, pobreza e policiais acharcando passageiros dentro do trem.

Os vagões não chegam a ser um hotel 5 estrelas, mas são bem confortáveis. Basicamente, são 3 principais categorias de viagem: platskart, com camas, mas aberto no corredor; coupe, com camas e portas, e sidiatshii, sentados. Optei pelo platskart, que custa coisa de 45 dólares ida e volta, com direito a chá e café. Nas infinitas paradas, velhinhas e crianças se amontoam às portas dos vagões vendendo de tudo. A fila para sair e respirar é inevitável, pois o trem soviético não tem janelas que possam ser abertas. No verão, é abafado e quente, no inverno, o frio é congelante. Por isso, viajar de trem pela Rússia, aconselho na primavera ou no outono.

A República Autônoma da Federeção Russa Ossétia do Norte – Alania é um pequeno oásis de paz, cultura e prosperidade no Cáucaso. É o berço dos famosos guerreiros “Alans”, que junto com outras tribos conquistaram parte da Europa no séc. IV. Originalmente, os alanos – ou ossetinos – tem ligações históricas com os persas, e sua língua soa como árabe, embora seja escrita num alfabeto misto de cirílico, latim e grego. No século XVIII, se uniram voluntariamente ao Império Russo, e durante a Revolução Russa desempenharam um papel fundamental no redesenho geopolítico da região do Cáucaso. Na Segunda Guerra Mundial, foi exatamente entre as montanhas ossetinas que o Reich foi detido pelos partizans e soldados do Cáucaso – muitas vezes lutando a pé ou a cavalo sob chuva de morteiros e investidas de tanques alemães. A Ossétia do Norte é o país que tem o maior número de heróis da União Soviética proporcionalmente a sua população. A cultura é a principal ocupação dos ossetinos. Músicos, atores, pintores, escritores, dançarinos estão por toda parte. É muito raro encontrar um ossetino que não seja artista por natureza. Falam russo melhor que na própria Rússia, embora haja um forte processo de reavivamento da língua nativa.

Ponto-base: Vladikavkaz, Ordzhonikdze nos tempos soviéticos. A cidade em si não tem muita coisa de especial. São 3 ou 4 avenidas principais – bem charmosas – e vários quarteiroes com predios sovieticos onde milhares de pessoas se amontoam. O agito da cidade acontece na avenida Prospekt Mira e na Beira-rio, Naberezhnoi, na beira do rio Terek, que corta a cidade e aponta para as enormes montanhas, cobertas de neve o ano todo. Na cidade, os pontos principais são os monumentos aos heróis de guerra, a sinagoga, a mesquita e os teatros e museus. Mas isso é padrão em toda ex-União Soviética. Dá para passear bastante e saborear a água mineral, eleita a 2ª melhor do mundo, e a vodka, a melhor do mundo, dizem. Mas não se pode abusar, já que no dia seguinte, as montanhas nos esperam.

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Continua aqui…

2 COMENTÁRIOS

  1. […] Depois de alguns dias na Ossétia do Norte (ou Alania), decidi que precisaria comprar uma lembrança típica do local. E as variedades não eram poucas: tipos de vodka, tecidos, minaturas dos montes karmadon e feokdon e muitas outras coisas me chamavam atenção. Mas nada se comparava ao “kinzhal” (adaga) e ao “rog” (chifre) típico do Cáucaso, para beber vinho e, eventualmente, vodka. […]

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