Do baú: estreando no Cáucaso, em 2002 (pt.2)

Arrumando as malas para enfrentar o primeiro gigante: Karmadon. Pouco mais de 2 km acima do nível do mar. Isso sem escalar – coisa proibida nesta época do ano devido à alta umidade. São três horas de serras, rios, lindas paisagens e paredões assustadores. Mas lá em cima, tudo compensa: a vista é fantástica. Ao seu redor, somente montanhas enormes, nuvens, frio. O tempo munda a cada 5 minutos: sol, chuva, vento, neblina! E o mais impressionante: devido a uma combinação de fatores climáticos, você não sente muito os efeitos da altitude. Mas se tiver experimentado a vodca caucasiana, é melhor não debruçar nos penhascos…

Dormir nas montanhas é uma experiência fantástica. A impressão que se tem é que dá pra sentir a Terra rodar. O barulho do vento, frio, calor. Infelizmente, não tive sorte dessa vez, e o dia amanheceu completamente nublado. Fomos aconselhados a descer, pois havia risco de deslizamento. Viemos embora e de fato, uma semana depois, tudo veio abaixo. Mais de 3 mil toneladas de neve desceram, matando mais de 100 pessoas e destruindo completamente o local onde ficamos. Virou o túmulo do renomado diretor russo Sergei Badrov Jr.

De volta pra cidade, um dia de descanso, hora de comprar souvenires. E no Cáucaso, os kinjais – espécie de punhal típico -, o rag – chifre onde se toma vinho ou vodka em ocasiões especiais – e a vodca local são ótimas lembranças. Hora de descansar, pois no dia seguinte, um monstro maior: Feokdon, 3 km acima do nível do mar, e se possível, Tsei, quase 4 km…

Partimos cedinho, pois a viagem é longa e entediante. Quase cinco horas até o local. O tempo estava horroroso, com chuva, neblina, vento, e por isso a viagem foi muito entediante. Diz a lenda que existem alguns lugares nas montanhas do Cáucaso nos quais o sol sempre brilha. Eu comprovei, pois em algumas faixas da estrada, de fato o sol sempre brilhava, tanto na ida quanto na volta. Reparando nas montanhas, é possível ver os buracos nas pedras, onde os antigos moravam, e também as torres que construiam ao redor das cidadelas por lá, feitas de pedra. E também ao longo da estrada existem pequenas casas feitas de pedra, para os mortos, as ‘cidadelas dos mortos’. Já a mais de 2 mil metros, agora os efeitos da altitude são sentidos. O tempo estava péssimo, mas mesmo assim conseguimos chegar no camping. Mas não foi possível sair da barraca, pois ventava e estava muito frio mesmo. A solução foi dormir. Mas no dia seguinte, o tempo não estava muito melhor, mas pelo menos dava pra andar pelas montanhas e fazer algumas fotos. Quando a neblina dava uma trégua, dava para reparar que estávamos acima das nuvens, acima da chuva e pertinho do sol! E olhar para aquele gigante 4 mil metros de altitude, ao nosso lado, dá uma sensação de inutilidade incrível!

Hora de descer. Novamente, risco de deslizamento. Tsei, o segundo maior gigante, ficou para a próxima vez. Pena, mas ainda tivemos tempo de vê-lo entre a neblina. Coisa assustadora: gigantesco, imponente. Simplesmente não se vê o topo… Descendo a serra, no caminho de volta, fomos mais rápido, pois já estava escuro – 4 da tarde. Mau sinal. Felizmente, conseguimos chegar a cidade para dormir e partir no dia seguinte para a Geórgia.

Após 4 horas dentro de uma van, cruzamos a Ossétia do Sul e chegamos na fronteira com a República da Geórgia (Gruzia). Independente desde o fim da URSS, guiada pela mão-de-ferro do ex-secretário de relações exteriores da URSS Edward Schevardnadze, a Geórgia está sempre medindo forças com a Rússia. Sua capital, Tbilisi, como tive a oportunidade de ver, passou de uma das mais lindas e prósperas cidades da URSS a um lugar abandonado, sem ordem, feio, sujo, caótico e sem segurança alguma. Os antigos prédios, a arquitetura, as casas tudo está abandonado. Toda a infra-estrutura soviética foi desmantelada em função do orgulho de um ditador. Agora, os georgianos passam tempos difíceis, sem emprego, gás, luz e sobretudo sem perspectiva. O resultado é que muitos se engajam na guerra como forma de se garantir. Em algumas horas cruzamos a Geórgia, com poucas descidas do carro, quando tempo, lugar e condições de segurança permitiam (eu não tinha visto e não pareço muito com os locais, o que chama muita atenção).

Na fronteira com a Armênia, legendária república ao sul do Cáucaso, famosa pelas conquistas e por ter sido arrasada pelos turcos no séc. XVI, passamos tranquilamente. O povo armênio é muito simpático. Não existem muitos empregos oficiais, por isso a maioria das pessoas ganha a vida vendendo o que produz – em especial conhaque, vinho e queijos. Rodamos algumas horas por Erevan, e tive a sensação de estar numa cidade fantasma, mas com pessoas vivendo. Ao contrário da Geórgia, a infra-estrutura soviética ainda existe, mas funciona sem a menor condição. Nada aqui tem menos de 10 anos. Mas, definitivamente, não há muito o que ser visto por aqui. Dizem que uma grande reforma está prometida para os próximos anos. Dizem que a Armênia é uma das mais antigas civilizações do mundo – isto é, que sobreviveu para contar história.

Nas cidades, enfim, não há muito o que se ver. Sem contar a Ossétia do Norte, os países do Cáucaso sofrem com guerras, pobreza, abandono e falta de infra-estrutura. Por outro lado, seu povo é um exemplo de alegria e amizade. Aqui, o hóspede é mais importante que um santo. Você pode estar sendo recebido na casa mais pobre, mas tudo que eles tiverem, será oferecido a você na hora dos infinitos brindes regados com vodca fina. E ao redor das cidades, estão as fascinantes e assustadoras montanhas. Enormes, infinitas, túmulo de milhões que desafiaram sua altivez em nome da aventura. Dizem que quem mora no Cáucaso e sai, leva as montanhas consigo. E quem vem de fora e respira o ar das montanhas, está enfeitiçado: enquanto não voltar, vai parecer que sua vida não está completa.

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