Dona Irene – um pedacinho da mesa russa no Rio

0
132
views

No último sábado, em busca de uma comidinha russa, partimos para Teresópolis, de olho na típica mesa russa do restaurante Dona Irene. E, como da primeira vez que fomos, não nos decepcionamos. Mesmo com o preço salgadinho, mas justo, a comida desceu muito bem, ainda mais com a ajuda da vodka nazdaróvie, feita na própria casa, e com teor alcoólico um pouco menor do que a vodka comum (37,5%, contra 45%).

Chegar lá não é tão difícil. Para quem está na Av. Feliciano Sodré – a principalzona de Terê – o restaurante fica na rua Tenente Luiz Meirelles, em direção ao bairro Bom Retiro. Mas lembre de fazer reserva antes, pelo telefone ou pelo e-mail. Sobretudo nos finais de semana, quando a casa costuma lotar. E, na reseva, você precisa ainda escolher seu prato principal: varyenki, pozharski, frango à Kiev, podzharka, filé, caquile ou beef strogonoff. Para ter um sabor mais russo, recomendo o varyenki. São pequenos pedacinhos de massa recheada com batatas e ervas, com cebolinha e filé. Varyenki é nome ucraniano para o prato. Na Polônia, é conhecido como ‘pierogi’, enquanto na Rússia são chamados de ‘pel´meni’. Os outros pratos são da chamada ‘alta cozinha’ russa, com muita influência ocidental. São gostosos? Sim. Mas não são muito russos não.


entradas - zakuski
entradas - zakuski
borsch com smetana
frango a kiev
varenki e file com cebolas fritas
varenki, pierogi ou pelmeni
sobremesas - pave de pitanga
vodka servida no gelo
armario com matryoshkas
matryoshkas na parede
matryoshkas na parede

Aliás, o prato principal é a quarta fase do banquete que o Dona Irene serve. A festa começa com os ‘zakuskis’, que meu grande professor Alberto da UFRJ costumava traduzir como ‘acepipe’. E gente insistia em dizer que eram ‘belisquetes’. Tem pepino, cenoura, pasta, pão, arenque, caviar. É bom mesmo para começar. A fase dois da brincadeira oferece um delicioso ‘borsch’ – a sopa de beterraba. Fato que no Dona Irene ele é forte, muito, muito ucraniano (o russo é mais ralinho). Mas o ‘borsch’ é muito popular por toda Europa, sobretudo na comunidade judaica. E aqui ele vem com a tradicionalíssima ‘smetana’, o creme azedo que a turma russa lasca em quase tudo. Uma delícia. Aqui você também pode provar os ‘pierozhki’, ou pastelzinhos russos. Que, aliás, lembram muito aqueles ‘thrash’ que a gente come em qualquer barraquinha pelos metrôs de Moscou. Só que aqui eles são mais gostosos…

Na terceira etapa, o prato principal. Aqui, vale falar algo sobre o frango à Kiev. É um clássico da gastronomia mundial, mas eu nunca vi nem comi isso na Rússia. Sempre que perguntava, alguém torcia o nariz. E, de fato, não tem muito a cara da culinária russa. Mas vá lá, ganhou fama… E também o beef strogonoff. Esse realmente tem lá na Rússia, aliás, bastante. Eu comi aquele que diz ser o original, em S. Petersburgo, com um molho bem forte e temperado, ao contrário da típica versão brasileira, o ‘strogoágua’. Mas o da Dona Irene não deixa a desejar ao original de Petersburgo – talvez a porção, pequena. Aliás, trata-se de outro prato ‘pan-eslavo’. Todo mundo diz que é seu: ucranianos, bielorrussos, poloneses…

Para fechar a farra gastronômica, a quarta fase: hora da sobremesa. Você pode escolher entre o pavê de pitanga, a charlotte russa, a taça russa, o supremo de nozes com chocolate e algumas outras variações, ainda menos russas. Novamente, a influência da alta cozinha se impõe. Nada das sobremesas típicas, como chocolates típicos, tortas e sorvetes. Os que mais se aproximam do dia-a-dia são a taça russa e o supremo de nozes. Enfim, gostosos, mas acho que é a elo fraco da corrente do Dona Irene.

O que adoro no restaurante – que tem tantas placas de prêmios nacionais quanto matryoshkas – é o ambiente. É uma casa bem russa. Mas bem mesmo. Desde a mobília até as toalhas, tudo realmente lembra uma ‘derevnya’, uma casa típica. Mas o toque é inevitavelmente pré-URSS, bem czarista mesmo. Tem todo um jeitão de corte russa do início do século. Imagino que, em dias de concerto, isso fique ainda mais evidente. E o que sinto falta, muita mesmo, é da ausência de nativos ali. Não há falantes de russo ou gente imersa na cultura. Música ou coisas mais modernas então, nem pensar. Fiz uma comparação inevitável com o restaurante polonês em Copacabana, A Polonesa, onde sempre que fui vi pelo menos metade dos frequentadores falando polonês. Dá um charme todo especial.

E um capítulo especial do Dona Irene é a vodka nazdaróvie. Como disse ali em cima, ela é feita artesanalmente na casa e é servida em um balde, com uma cobertura de gelo. Não estou acostumado a beber vodka gelada – a não ser, é claro, quando o tempo está gelado – mas a nazdaróvie (que significa “saúde” em russo, dito na hora do brinde) é uma delícia. Desce suave e é ótima para regar um bom papo. Numa noite de casa cheia, o jantar começa com cada convidado em sua mesa. Na medida em que as vodkas vão sendo “enxugadas”, a tendência é de uma grande confraternização entre as mesas próximas, ao final da noite. Fizemos alguns amigos ali, afinal, como bem diz o menu, devemos seguir os mandamentos da boa etiqueta da cerimômina de “beber vodka”. O primeiro é “nunca beber sozinho”. O segundo é “nunca beber sem comer algo logo em seguida”. E, por fim, “nunca tomá-la em pequenos goles ou misturada com o que quer que seja, mas de uma só vez e pura”.

E, sem dúvida, o mais legal também é que os donos do lugar – Dona Maria Emília e Seu Hismênio – sempre aparecem para falar com seus fregueses. E são sempre uma ótima conversa. Eles chegam, com toda a atenção do mundo, querem saber se está tudo bem, se a comida está boa, e sempre puxam um papo. Duas figuras muito agradáveis.

Enfim, vale a pena ir ao Dona Irene para conhecer um pouquinho da tradição russa – e até eslava. Boa comida, boa bebida, clima agradável, excelente serviço… Um somatório de fatores que justifica as tantas premiações que a casa já recebeu. E eu já planejo a próxima ida, para assistir a um concerto. Em um bom brinde (folclórico=)) russo “za sbichu vseh nashih mecht. Na zdaróvie. Davai!”

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here