Enfim, as eleições: a Rússia não foi feita em um dia

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Hoje foi dia de eleições na Rússia e todo mundo já sabe como acabou. Vladimir Pútin eleito para mais um mandato presidencial de seis anos. Não deu nem para ter um gostinho de “festa da democracia”: o atual premiê será eleito com esmagadores 64% de votos, dizem as pesquisas de boca de urna. O pleito, na verdade uma formalidade literalmente para inglês ver, foi um enorme “cala a boca” para a mídia ocidental e neo-russos, que insistiam em acreditar que, por algum milagre, Pútin não se reelegeria e/ou a chamada “oposição” iria conseguir anular ou postergar a votação.


Os 12 anos de Pútin, Simpsons Style

Assim como Pútin é soberano no coração dos russos, o mito da fraude cai por terra. Não que não tenha havido fraude em massa, certamente isso ocorreu, mas não que tenha sido determinante para o resultado. Afinal, TODAS as pesquisas de TODOS os institutos (VTSYOM, FOM, LEVADA) davam vitória garantida para Vladímir Vladímirovich em primeiro turno. Mas eu não estou aqui para falar das eleições propriamente ditas. Isso você vai ler nos sites de notícias. Quero tentar raciocinar sobre o significado das eleições parlamentares de dezembro de 2011 e presidenciais de março de 2012.

Em primeiro lugar, consolida-se um nome: Alexei Naválny. O blogueiro e ativista anticorrupção emerge, ainda sem capital político para disputar qualquer cargo relevante, mas já assusta o Kremlin com um posicionamento que agrada a praticamente todos na oposição. É jovem, carismático, objetivo, incisivo, destemido, enfim, características que vemos hoje no poder e, sabidamente, agradam a maioria dos russos. Dentre o monte de bobeiras que já li sobre Naválny – aí incluindo as de que ele é agente da CIA ou nazista – este artigo do Wall Street Journal é bem sensato. Vale uma espiada.

В 21:00 завершилось на всей территории России голосование. После обработки 15% бюллетеней Владимир Путин — 61,81%, Геннадий Зюганов — 17,89%, Владимир Жириновский — 7,98 % Михаил Прохоров — 7,53%, Сергей Миронов — 3,67%

Sobre as fraudes: sim, muitas, em muitos lugares. Mas como eu digo há muito tempo, elas são produto de puxa-sacos desesperados, muito mais interessados em manter seus “postos” e tentar agradar aos chefes, do que uma obra orquestrada diretamente pelo Kremlin. É claro que Pútin e Medvedev ignoram esses deslizes – afinal, a política é um jogo de manter aliados -, mas, no fim da contas, a fraude acaba sendo irrelevante. Os mesmos institutos internacionais que asseguram um “mar de fraudes” nas eleições russas estimam que o número não ultrapasse 6% do total. Ou seja, Pútin ganha fácil, mesmo descontando as falsificações.

Após o fim da votação e a divulgação dos resultados, todas as raposas felpudas da política russa se pronunciaram: os candidados Vladimir Zhirinovskii, Mikhail Prokhorov e Gennady Zyuganov. Os dois primeiros aceitaram o resultado e parabenizaram o vencedor. Já o terceiro, líder do Partido Comunista, se recusou a aceitar o pleito. Para o veterano político, as eleições não foram “nem justas, nem honestas, nem objetivas. Foram ilegítimas, injustas e não transparentes”, diz Zyuganov, que, fazendo seu papel, reclama da falta de diálogo de Pútin com a oposição e da utilização da máquina pública.

Putin-Plakat: faça o seu aqui.

Aliás, se a eleição enterra alguém é justamente Zyuganov e seu Partidão. Com 68 anos, certamente não terá cacife para concorrer nas próximas eleições, dentro de seis anos. Menos ainda em 12, tendo em vista que Pútin dificilmente deixará de se reeleger. E como o Partido Comunista Russo não tem mais nenhum grande nome – isso somado ao fato de que, nas próximas eleições, ainda menos eleitores terão vivido os “anos de ouro” da URSS – podemos declarar como fechado o caixão dos herdeiros de Lênin. Não obstante os 17% de votos de Zyuganov, sua volta a qualquer tipo de cargo majoritário relevante é altamente improvável. A não ser que haja um cataclisma do capitalismo, mas aí…

Veja fotos das eleições presidenciais na Rússia aqui e aqui.

Mas, afinal, uma “primavera russa” é possível? Como Pútin, um ditador, pode ser tão popular? Bom, se eu fosse sintetizar o que penso, chegaria num produto mais ou menos como o do sempre sóbrio Anatoly Karlin, colunista da al Jazeera, em seu primoroso artigo. Uma “primavera russa”, hoje, e nos próximos anos, é improvável. Os russos não têm a paixão religiosa dos árabes no coração, nem vivem na miséria ou em um estado caótico e calamitoso. O que os move – como a nós – é a economia de mercado. Pútin é, queiram ou não, o responsável pela melhor vida que os russos já tiveram em sua história. Como lista Karlin, contam com um PIB que dobrou e salários aumentaram em até 10 vezes nos últimos 10 anos. “Até operários podem passar férias na Turquia ou na Tailândia. Certo ou errado, Pútin é associado a isso”, diz Karlin.

Благодаря вебкамерам сегодня москвичи узнали о существовании остальной страны / Graças às webcams, hoje os moscovitas descobriram sobre a existência do resto do país.
@Varlamov

Ou seja, qual o motivo de se acampar, enfrentar polícia, exército, lutar, morrer, derramar sangue, se sua vida ordinária é efetivamente MELHOR do que era antes? E, na Rússia, mais uma Revolução? Logo, uma primavera russa, se a estabilidade de Pútin for mantida, está descartada. O caminho a ser trilhado é, sem dúvida, o da conscientização política. Veremos mais protestos e mais debates. Uma democracia nascendo. Mas há que se ter em mente: enquanto o Kremlin trabalha com TODA a mídia a favor, a oposição tem somente a internet como aliada. Isso é desigual.

Em um primeiro momento, a onda de inquietação deflagrada por Naválny e cia. teve três serventias, essencialmente:

1 – Fazer com que Pútin volte ao jogo político, não dando a vitória como certa. Afinal, foi a primeira vez, em muitos anos, que o atual premiê fez um discurso de campanha. Além disso, ainda escreveu sete artigos (sim, SETE!), onde explica suas políticas e traça seus planos. Além disso, ainda restaurou as eleições para governadores e flexibilizou as candidaturas para presidenciáveis e a criação de novos partidos. Isso não é pouco.

2 – Fazer com que os moscovitas redescubram seu país, além da capital. Isso é um interessante movimento, que pode desencadear uma fragmentação maior do poder, atualmente concentrado em Moscou. Ao prestar atenção nos protestos em outras cidades, o moscovita se sente parte do resto do país e vice-versa.

3 – Fazer com que as eleições entrem em um movimento de legitimidade e a balbúrdia tenha um fim. Hoje, mais de 20 mil câmeras estavam gravando toda a movimentação nas sessões eleitorais. E mais medidas de controle estão nos planos.

Mas, apesar de tudo isso dito acima, você certamente vai cruzar com os mitômanos da mídia ocidental alardeando aos sete ventos que o “malévolo” ditador Pútin venceu mais uma vez em eleições amplamente fraudadas (Veja algumas análises e exemplos de manchete aqui, em russo). Novamente, desconfie. A Rússia de Pútin está conseguindo trazer para a atmosfera de Guerra Fria a imprensa ocidental, que vive dias românticos, imaginando que uma brava e numerosa oposição tenta liberar a Rússia de um cruel ditador. Nem uma coisa, nem outra. A Rússia, uma nova república com 12 anos, está apenas amadurecendo.

PS1: O melhor das eleições foi, sem dúvida, a ação do grupo ucraniano Femen, que invadiu a seção eleitoral onde Pútin votou para roubar a urna com o precioso voto. Veja as fotos aqui e o vídeo aqui.

PS2: A oposição foi criativa o suficiente para, após o premiê e presidente eleito declarar, vertendo lágrimas, que havia vencido, fazer uma convocatória para um novo protesto, usando o título de um dos filmes mais populares da Rússia: ‘Moscou não acredita em lágrimas‘.

3 COMENTÁRIOS

  1. Cara, muito bom o seu blog. Realmente, votos pro-putin de 90% Chechenia não são exatamente plausíveis, mas ele parece ser genuinamente popular.

    Quanto à mídia, acho que em qualquer lugar (em graus variados), os analistas tentam entender novos eventos como uma variação sobre o tema da história pregressa. Assim, Putin como o ditador soviético, ou como Czar, são narrativas fáceis e razoavelmente plausíveis. Putin como Putin é mais complexo, mas também mais interessante.

    A midia Russa faz algo parecido (ou pelo menos a RT faz), tentando explicar qualquer ação ocidental como um lance da guerra fria; e cada crítico e opositor como um agente de influencia da CIA.

    • Boas Bruno,
      Estou escrevendo um post enorme sobre isso tudo, tentando explicar as votações no Cáucaso. Já, já sai.
      Sobre a RT, eles seguem uma linha editorial do Kremlin, que é a de desqualificar o ocidente usando ocidentais. Bem na escola da Al Jazeera. Mas nem precisava, com Guardian, Washington Post e afins – e a gente aqui seguindo eles – o trabalho da RT e cia. fica bem mais fácil.
      E vc tem razão: Pútin é tão intrigantemente simples, tão russo, que chega a ser complexo de tão fascinante. E isso não é um elogio! 😀
      Vamos nos falando!

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