“Filho da mãe”. Mas sem pai

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Capa do livro "Filho da mãe"Outro dia no trabalho, o amigo Kaz me mostrou uma entrevista com Bernardo Carvalho, que estava, enfim, lançando seu livro “Filho da Mãe”, que faz parte do projeto “Amores Expressos”, da Cia. das Letras. A idéia básica foi enviar 16 autores para lugares do mundo onde estariam isolados e só pensando em produzir literatura para mostrar o “estado das relações e do amor pelo planeta”. Carvalho recebeu um bilhete para a Rússia, para a nossa São Petersburgo. Só tem um porém: o autor não conhecia muita coisa do país – além da rica literatura – e de língua russa.

“Filho da Mãe” junta o improvável romance gay entre um “gasterbaiter” (trabalhador imigrante) checheno e um russo-brasileiro de Vladivostok com a guerra no Cáucaso e o drama de mães. Os apaixonados, ao que parece, tentam deixar a cidade, descrita pelo autor como um “inferno”. Ainda não li o livro, mas a julgar pelas entrevistas de Carvalho para a “Folha de SP”, para “O Globo” e até para o “JB”, ele passou batido pela antiga capital da Rússia, meio que entendeu as coisas de ponta-cabeça e ficou marcado por impressões perdidas no tempo de um “turista-vitaminado”, já que em vez de ficar apenas alguns dias lá, passou um mês inteiro.

Na entrevista dada ao “Globo”, o autor dá logo o serviço: “O pânico durou pelo resto dos meus dias em São Petersburgo”. Ou seja, logo no terceiro, Carvalho foi assaltado – e o roubo virou o tal pânico, sentimento estranho para um brasileiro acostumado com a violência assustadora de nosso dia-a-dia. No blog ele conta como foi o ataque e suas impressões imediatas. Achei muito injusto com a cidade, rotulada de violenta, inóspita, decadente e intolerante. Píter é linda e está em processo de reconstrução. Uma cidade profundamente ferida por um feroz cerco nazista de mil dias, totalmente arrasada por bombardeios, nascida sob o signo de milhares que morreram em sua construção improvável, que deu à luz uma das cenas culturais mais ricas, proeminentes da história da humanidade, foi reduzida ao escombro maniqueísta de uma cidade opressiva, que faz tudo “às escondidas”.

Píter é, na minha opinião, a menos opressiva das cidades russas (soviéticas). Tem um ar fresco, música e literatura por toda parte, é florida, aberta, rasgada por canais no estilo Veneza ou Viena, e, por ser a cidade-natal dos últimos governantes russos, ganhou todo um carinho especial. Sobretudo na época pré-tricentenário (na vez que passei o maior período de tempo lá, justamente em 2002, tudo estava em obras), a mesma tratada no livro. E estive lá mais de uma vez, conheço muita gente por lá, brasileiros, europeus, americanos, e todos foram unânimes: é a capital cultural da Rússia, cidade tranquila, onde se pode tomar um café e relaxar.

É talvez a cidade mais “gay-friendly” do país e, se não é a mais segura, está no top 5. Agora, na Avenida Nevskii (uma espécie de calçadão de Copacabana ou Av. Paulista de lá), a mais movimentada da cidade, cheia de turistas e manés de todo tipo, não tem jeito. É salve-se quem puder. Não pode ficar hospedado ali perto e dar bobeira. Não pode passear de mochilinha com notebook, dar pinta ou ficar dias falando “do you speak english?”. São cinco milhões de habitantes e você está no centro turístico-comercial-econômico-político-social desse turbilhão.

Outra metacrítica que faço é ao comentário dado ao “JB”, que tenta reduzir S-Pb a uma cidade que tem “fachadas bonitas, mas por dentro tudo cai aos pedaços”. ora, se não é justamente o contrário. Quem vê os prédios residenciais fica com medo de entrar. São blocos de concreto sem o menor cuidado estético, cinzas, sujos e feios. As escadarias são medonhas – muitas vezes recheadas de seringas de viciados em drogas – e os elevadores são desencorajadores. Mas, dentro de cada apartamento, habita a sensibilidade e o aconchego de algum nativo, em uma decoração singular. Afinal, é ali que você passa boa parte da sua vida – durante um longo e melancólico inverno sem sol, com vento e muito frio. E não precisa ir muito longe do centrão. Nas regiões Kirov, Moscou, Frunze, Kalinin, tudo é assim. O último albergue onde fiquei (B&B Sabrina) era exatamente assim: horrível por fora, lindo por dentro.

E não é esconderijo, é vida. No inverno, você sai de um “Ashan” (hipermercado muito popular), vai pro estacionamento subterrâneo climatizado, entra no carro, chega em casa, entra e liga a TV. Tudo isso sem botar o nariz na rua. As boates (inúmeras delas gay friendly), lojas, bares, restaurantes, tudo é meio subterrâneo, pra escapar do frio e do vento. No inverno, tudo é igual. E tudo é noite. Basta lembrar que para todo sol da meia-noite (um mês de claridade) há uma lua do meio-dia (um mês sem luz solar). Minha esposa estranhou muito isso – e achou a mesma coisa. “Tudo é subterrâneo, escondido?”. É a vida de São Petersburgo. Em compensação, no verão, todos ficam nos parques e fazem questão de não ficar em casa.

Carvalho também incluiu na sua caldeirada skinheads e “lohatrony” (vigaristas). Mas isso não vou nem comentar. Como entender os skinheads russos se você não fala a língua, não pode ler as notícias, não conversa com as pessoas e não viu ataques? E tentar também reproduzir um checheno em S-Pb, não sei, mas me soa muito inverossímil. Eu não consigo imaginar como seria a vida de um checheno em qualquer cidade da Rússia. Que dirá um checheno gay e ladrão… Isso denota exclusão étnica? Sim. Mas tem muito mais nuance do que pura e simplesmente “preconceito”. E tudo bem, além da licença poética, existe mesmo a licença da literatura.

As idéias literárias, no entanto, são interessantíssimas e bem resolvidas. Para fugir dessa sinuca pessoal, de ser um estrangeiro isolado cultural e linguisticamente numa cidade como S-Pb, Carvalho resolveu contar a história sob a visão de dois migrantes. Apelou também para o superrealismo surreal de Vasilii Groissman (Vida e Destino), mas como ainda não li “Filhos…”, não tenho como comparar. E desenhou dramas de guerra com perspectivas maternas. Isso sim, é resolver uma equação complexa e cheia de variáveis com uma solução genial.

Como acabamos conversando, eu e o Kaz, do trabalho, muitas vezes nossos intelectuais se perdem na tentativa de entender o que não dá pra entender. Racionalizar algo que está além do seu racional. É bonito, ganha manchetes, mas a máscara não cola muito não. E, sinceramente, ainda não entendi o livro. Preciso mesmo ler. Afinal, é uma história de amor, polêmica, cativante e interessante, com uma cidade opressiva ao fundo, ou o ranço melodramático de um autor poderoso que se viu acuado e menor que uma cidade-cultura viva e seus inúmeros tentáculos?

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