Forbes lista os 10 maiores ricaços da Rússia

Na última semana, versão russa da revista Forbes fez um ranking com os mais ricos do país. Enquanto todo mundo pensa nos óbvios, como Roman Abramovich, dono do clube de futebol inglês Chelsea, e Mikhail Prokhorov (lê-se prorrorov), candidato à presidência nas últimas eleições, a lista traz nomes novos e interessantes.

Aqui, vale um parêntese. Enquanto todo mundo ainda vê a Rússia como um lugar tosco onde ex-comunistas lutam contra ursos em meio a nevascas e bebendo vodka, a realidade é bem diferente. O país é o que tem o 3º maior número de bilionários e assusta os estrangeiros com uma ostentação inacreditável, que vai desde um café que custa 90 euros até porsches e ferraris douradas pelas ruas, sobretudo em Moscou, a cidade do mundo com uma quantidade recorde de supermagnatas.

Voltando à lista da Forbes deste ano, vemos uma novidade no topo: o uzbeque Alisher Usmanov, dono da superpoderosa holding ‘Metalloinvest’, com sua fortuna estimada em US$ 18,1 bilhões. Outro magnata do setor metalúrgico e de logística, Vladimir Lisin ficou em segundo lugar da lista, com US$ 15,9 bilhões em sua conta bancária. Completando o top 3 está Alexei Mordashov, dono da ‘Severstal’, com US$ 15,3 bilhões para gastar onde quiser.

Completando o top 10, temos, enfim, alguns nomes conhecidos:

4. Vladimir Potanin (Noril’skii nikel’) – US$14,5 bilhões

5. Vagit Alekperov (Lukoil) – US$13,5 bilhões

6. Mikhail Fridman (Alfa-Grupp) – US$13,4 bilhões

7. Mikhail Prokhorov (Oneksim) – US$13,2 bilhões

8. Viktor Veksel’berg (Renova) – US$12,4 bilhões

9. Roman Abramovich (Millhouse Capital) – US$12,1 bilhões

10. Leonid Mikhel’son (Novate’k) – US$11,9 bilhões

E dê uma espiada no álbum com as carinhas do top 10 de ricaços da Rússia. Você precisa saber reconhecer esses caras, que vivem viajando pelo mundo e podem estar no seu caminho em qualquer lugar. É a hora de pedir um qualquer emprestado…

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10 respostas para “Forbes lista os 10 maiores ricaços da Rússia”

  1. Felipe Goltz disse:

    Caro Fabricio,
    É sempre um prazer ler as suas matérias sobre tudo aquilo que diz respeito à Rússia e demais ex-repúblicas soviéticas. Realmente impressiona o número de bilionários na Rússia, os nossos mui queridos e estimados “oligarcas”. Chama a atenção o fato de uma economia ainda em ascensão e um tanto primária, pois baseia-se em commodities, ter tantos e tantos miliardários. Apenas duas ressalvas: primeiro, quando a Forbes diz que determinado sujeito tem X bilhões não significa que ele tenha de fato isto na conta bancária, como escrito no post. Significa que a estimativa de tudo aquilo que esta pessoa possui, especialmente em bens como indústrias ou ações, por exemplo, corresponde, mais ou menos, àquele valor. Em outras palavras, Roman Abramovich não tem U$ 12,1 bilhões para “gastar à vontade”, mas sim um capital estimado deste valor. E assim vai. Segundo, chamou-me a atenção para a presença de Leonid Mikhelson da Novatek no top-10 russo. A Novatek é a segunda maior empresa de gás natural da Rússia, atrás apenas da nada mais nada menos maior do mundo neste setor, a Gazprom. Acontece que Mikhelson sequer é o dono da empresa, embora seja seu CEO. O maior acionista é o armênio Gennady Nikolayevich Timchenko,com mais de 20% das ações. Mikhelson não tem nem a metade disto, mas está a frente de Timchenko. Estranho, mas não na Rússia.
    Abs,
    Felipe

    • Boas Felipe,
      É claro que a gente sabe que o sujeito não tem essa grana em caixa ou em cash. É apenas um recurso jornalístico que usamos (e eu incluo TODO mundo nesse ‘usamos’) pra desenhar a ideia. Afinal, nem todo mundo é insider e ficaria muito chato entrar numa conta ativo + passivo + patrimônio…
      E vc está certo em sua observação sobre commodities e ‘economia primária’. Não estranha esse patrimônio estar diluído em investimentos que vão de times de futebol a casas na Zona Sul do RJ, Ile St. Louis e Manhattan. E é uma crítica que russos expats fazem sempre: o país não investe em cadeias produtivas rentáveis de longo prazo, como China, Japão, Coreia e EUA. Dê uma espiada na lista dos chineses mais ricos e suas ocupações, p. ex….
      É aquela coisa da música do Schevchuk: quando a acabar o petróleo… http://www.falandorusso.com/2011/10/as-musicas-desencorajadas-que-criticam-putin/
      abraços e obrigado pelas visitas e pelas ideias de sempre!!!
      fab

  2. Gustavo disse:

    Boa tarde Fabrício,
    Apenas ratificando sobre a ostentação dos “novos ricos russos”, eu estive em Miami à pouco, e percebi, ainda que de forma minimizada, exatamente o que a matéria colocou.
    As lojas de relógios mais caras do mundo, tais como HUBLOT, A. PIGUET, dentre outras, estavam sempre repleta de russos comprando com se não houvesse amanhã, e como estivessem comprando uns exemplares de Swatch.
    O socialismo/comunismo é muito lindo, mas na teoria…..
    Grande abraço,
    Gustavo.

    • Boas Gustasvo!
      Exatamente, cara. Os caras estão gastando tudo! E aqui no RJ tb é assim: os russos são os favoritos das joalherias e lojas chiques. Nem tanto pelo temperamento, mas pelo fato de que, com eles, não tem miséria!
      E o comunismo acabou faz tempo. A Rússia é mais capitalista que os EUA.
      fab

  3. Felipe Goltz disse:

    Caríssimo Fabrício,
    Conforme escrito em outras ocasiões, sempre é um prazer visitar o seu blog. Espero que o mantenha ativo ainda por muito tempo. Uma consideração ao seu comentário sobre a economia russa – e seus bilionários excêntricos – vai na onda do “quando o petróleo acabar” do Yuri Shevchuk, que, aliás, vem denunciando as autoridades sobre o cancelamento de shows que a DDT faria na Sibéria (http://www.themoscowtimes.com/news/article/ddt-accuses-officials-of-canceling-concerts/457588.html ). Realmente, o Kremlin anda com a paciência curta nestes últimos tempos, com uma quase-Revolução Laranja, pós-eleições parlamentares e presidenciais, na janela de Vladimir Putin. Mas gostaria mesmo é de discutir contigo esta adicção russa ao petróleo e gás natural, que parece não ter fim. Ultimamente, os czares russos do petróleo comandados e vigiados de muito perto por Vladimir Putin vem acertando parcerias multibilionárias – e põe multibilionárias nisso! – com companhias estrangeiras para explorar aquilo que dizem ser um verdadeiro eldorado do ouro negro: as profundezas do Mar de Barents no Ártico. Os russos não tem o know-how em água profundas, muito menos capacidade tecnológica em temperaturas extremas – por mais irônico que isso possa parecer a um povo que praticamente vive abaixo de zero – e sequer o volume de recursos necessários para extrair de lá aquilo que parece garantir à Rússia décadas de exploração vultuosa e ininterrupta de petróleo e, muito provavelmente, faraonicamente lucrativa. Afirma-se que as estimativas de 200 bilhões de barris estão altamente subestimadas. Na verdade, o volume real pode ser até 10 vezes maior! Se assim for, é um montante colossal, para dizer o mínimo. Para se ter uma idéia, Fabrício, do que isto significa, as estimativas do pré-sal brasileiro não passam de 100 bilhões de barris, o que já é, por si só, um volume extremamente significativo de petróleo. A parceria acertada ontem entre a italiana ENI e a Rosneft é de um investimento inicial de U$ 125 bilhões ( !!! ) nos próximos anos naquele fim de mundo (http://www.themoscowtimes.com/business/article/eni-signs-for-125bln-oil-investment/457606.html ). Conta a ser paga, logicamente, pela ENI, o que garantiria ao italianos direitos de exploração naquelas bandas. A Exxon-Mobil também já assinou um memorando com a Rosneft ano passado, pagando valores estratosféricos à Rússia para também ter o direito de extrair o petróleo do Mar de Barents. Deve acontecer o mesmo com a francesa Total e as inglesas Shell e BP. Muito provavelmente, outros players de igual calibre também aparecerão com um navio-tanque abarrotado de dinheiro para participar deste jogo.
    E assim, caro Fabrício, os russos se embriagam no petróleo cada vez mais. Analisando este panorama, parece até uma insanidade a “música-profecia” do Shevchuk.
    Abração e desculpe pelas muitas linhas,
    Felipe

    • Boas Felipe,

      Cara, vc está convidado, aliás, intimado a fazer esse post, sobre Rússia x Petróleo = futuro. Que tal? Prepara aí, mas pensa sempre que vc está escrevendo para todos (insiders e gente completamente leiga!).
      Podemos contar contigo???
      Quando ao Schevchuk, encaro a crítica dele da seguinte forma: não é que o petróleo vá acabar amanhã ou depois (embora seja possível estimar, mais ou menos, até onde deve durar, levando-se em consideração extração x consumo x preço / viabilidade). Mas sim que a Rússia SÓ vive de petróleo. Não há, na história do mundo, uma experiência de monoeconomias de sucesso. E outra: o petróleo é sujo, em todos os sentidos. No rastro de sua extração estão destruição do meio-ambiente, doenças, extrapolação dos limites do capitalismo, corrupção, abuso de poder e desigualdade social. Basta ver o cenário sócio-político nos grandes produtores mundiais…
      Mas é arte e, como arte, permite várias interpretações!
      Fab

  4. Felipe Goltz disse:

    Caro Fabrício
    Claro que pode contar comigo! Será uma honra. Vou providenciar aquilo que você me pediu.
    Abração,
    Felipe

  5. Luis Felipe Goltz disse:

    Caro Fabrício, conforme prometido, uma concisa história do petróleo e gás natural – passado, presente e futuro – na Rússia. Não são poucas linhas, é verdade. Mas este é um assunto enciclopédico, por isso peço desculpas de antemão pelo tamanho do post:
    A indústria do petróleo na Rússia origina-se em meados do século XIX quando o então Canato de Baku, situado às margens do Mar Cáspio, transformou-se em uma verdadeira Meca do petróleo. Poucos sabem, mas graças ao empreendedorismo de um grupo de três irmãos suecos – até então desconhecidos do grande público, Ludwig, Alfred e Robert Nobel – que a cidade azeri tornou-se a maior produtora deste hidrocarboneto no mundo. Os irmãos Nobel foram os pioneiros em conceber uma nova dinâmica ao florescente negócio naquela região atrasada do mundo: construíram as primeiras refinarias privadas, assentaram o primeiro oleoduto e distribuíram o petróleo russo via navios-petroleiros construídos pelos próprios suecos. Até então, carregava-se o petróleo de Baku em barris sobre o lombo de burricos. De acordo com a pesquisadora sueca Brita Asbrink, quando Alfred Nobel criou, em 1901, o prêmio que contém o nome de sua família parte dos recursos que custearam este projeto – que perdura até hoje, como é sabido – provinha da empresa de petróleo dos irmãos Nobel, a Nobel Brothers Petroleum Company ou Branobel, como ficou conhecida entre os russos, uma corruptela de Bratiá Nobel, ou Irmãos Nobel em português. Pois Baku, uma antiga e esquecida cidade nos confins meridionais do velho império czarista, logrou a façanha de superar um país inteiro, os Estados Unidos da América, até então lideres mundiais na produção de petróleo, graças à mitológica Standard Oil Company, fundada em 1870 pelo não menos mitológico, John Davison Rockefeller.
    A situação da então nascente e próspera indústria do petróleo local tomou um rumo dramaticamente diferente com a queda do czarismo em 1917 e ulterior fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1922. Com a planificação e coletivização compulsórias da economia por decreto de Lenin, todos os empreendimentos, refinarias, oleodutos e afins na região de Baku foram estatizados pelo governo soviético sem quaisquer compensações ou reparações a seus antigos proprietários, como os irmãos Nobel, por exemplo. Pelo contrário. Não foram poucas as violências cometidas pelos bolcheviques durante os tempos de confisco. Apesar das profundas mudanças políticas, o petróleo permaneceu soberano, assim como nos tempos dos czares, constituindo a pilastra econômica mais sólida e confiável da União Soviética. Com o fim da antiga superpotência em Dezembro de 1991, a recém-formada Federação Russa não podia mais contar com os importantes centros produtores de petróleo e gás natural da era soviética, como o Azerbaijão, a bacia de Shah Deniz no Cáspio, as imensas reservas de gás natural do Turcomenistão e os ainda inexplorados e promissores campos do Cazaquistão. Para o Kremlin, não era mero detalhe explorar e descobrir outras regiões que contivessem em suas entranhas o ouro negro. Era uma questão de sobrevivência.
    O eixo do petróleo e gás natural começou a tomar outro rumo na antiga União Soviética com a descoberta de uma gigantesca reserva na Sibéria em 1965, na região de Tyumen: o campo de Samotlor, hoje controlado pela companhia anglo-russa TNK-BP. Trata-se de um colosso com centenas de quilômetros quadrados. Até hoje, um dos maiores campos petrolíferos do planeta e o maior da Rússia, apesar de 47 anos ininterruptos de exploração. Habitar ou explorar uma região antologicamente conhecida por ser tão erma e inóspita como a Sibéria sempre foi um desafio. Se durante o famoso inverno siberiano, atingem-se facilmente temperaturas próximas a 60 graus negativos, durante o verão, a tundra siberiana descongela-se parcialmente, com a formação de pântanos com enxames de mosquitos e outros insetos, tornando a vida dos moradores locais um constante desafio às leis de Darwin. Mas a necessidade russa de aumentar as suas combalidas receitas durante os caóticos anos 90 fez Vladimir Putin, ao assumir o poder em 2000, mudar inteiramente a atitude do Kremlin para com a sua maior preciosidade. O antigo Ministério do Petróleo e Gás soviético havia sido desmembrado em uma série de novas corporações como a Gazprom, Yukos, SIDANKO, ONAKO, RUSIA Petroleum, Slavneft ( estas quatro últimas, junto com a inglesa BP, foram agrupadas em uma única companhia nos anos de 2003 e 2004, a Tyumenskaya Neftyanaya Kompaniya/British Petroleum ou TNK-BP ), Lukoil, Sibneft, Rosneft, Surgutneftgaz, Tatneft e Bashneft, sendo privatizadas – ou roubadas, de acordo com muitos russos – em sua grande parte durante o turbulento governo de Boris Yeltsin. Explicação etimológica: “neft” em russo significa petróleo.
    Quando o assunto é petróleo sempre foi e continua sendo complicado fazer negócios com os russos. A coisa se torna ainda mais difícil, quando o petróleo é extraído no país deles. Todas as grandes companhias de petróleo do mundo sabem disso, mas também sabem que não podem ter a ousadia de impor quaisquer exigências “desagradáveis” ao Kremlin, sob pena de não participarem de um dos últimos eldorados do ouro negro que se tem notícia. Nos anos 90, a BP inglesa já teve um investimento de mais de U$ 500 milhões na antiga SIDANKO, digamos, “furtado” por seus parceiros russos. Pode parecer um contrassenso, mas os ingleses decidiram passar uma borracha no passado conturbado que tiveram com os seus antigos sócios russos e fazer novamente negócios com as mesmíssimas pessoas que desfalcaram a companhia britânica na era Yeltsin. Fácil entender: uma companhia de petróleo vale tanto quanto tem de reservas provadas em suas mãos. Como há pouquíssimos lugares ainda “virgens” disponíveis e/ou financeiramente factíveis, a proverbial fleuma britânica da BP não resistiu e teve de se sujeitar à maneira pouca ortodoxa dos russos nos negócios. É o tal “russkie bizinetz”, onde só um lado ganha, ou seja, sempre os eslavos.
    Vladimir Putin percebeu que apesar de seu país ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo e gás natural, menos de 15% estava nas mãos do Estado. A maior parte do bolo pertencia aos chamados oligarcas, como Mikhail Khodorkovsky ( Yukos ), Vagit Alekperov e Leonid Fedun ( Lukoil ), Boris Berezovsky e Roman Abramovich ( Sibneft ), Mikhail Fridman e Viktor Vekselberg ( TNK-BP ) e Vladimir Bogdanov ( Surgutneftgaz ). A fim de resgatar a Rússia da enorme decadência pós-soviética em que se encontrava, era crucial reavivar a economia e eliminar o mandarinato político que exerciam os oligarcas. Segundo o projeto de Vladimir Putin, isso só seria possível realocando a maior parte dos recursos energéticos do país sob o pálio do Kremlin e retirando de cena aqueles magnatas que se opusessem ao planos do governo. Se necessário fosse, a ferro e fogo. E assim, um implacável e draconiano Vladimir Putin foi como um rolo compressor atrás deste objetivo. Em 2000, o oligarca mais poderoso da Rússia, Boris Berezovsky, então aliado e mentor de Putin, exilou-se em Londres. A Procuradoria de Justiça de Moscou incriminava-o em um cipoal de denúncias: participação em máfias, inúmeras fraudes fiscais, assassinatos de jornalistas – como o do famoso apresentador da TV russa Vladislav Listyev – e empresários, envolvimento com a guerrilha separatista chechena, dentre outras acusações graves. Com a sua prisão uma mera questão de tempo, isolado e sem poder contar com o seu agora inimigo Vladimir Putin, o polêmico oligarca vendeu o que pôde ao seu antigo protegido e sócio, e agora igualmente inimigo, Roman Abramovich e fugiu. Com isso, Abramovich, aliando-se ao interesses de Vladimir Putin, passou a ser o único dono da gigante Sibneft. Em 2005, em um jogo de cartas marcadas, o proprietário do Chelsea vendeu à Gazprom – na qual o governo é acionista majoritário – a sua participação acionária na empresa. A Sibneft foi extinta pelo Kremlin e formou-se a Gazprom Neft. Vitória de Putin. Próximo passo: Mikhail Khodorkovsky, então o homem mais rico do país, foi preso em um aeroporto na Sibéria em 2003 sob alegações semelhantes às de Berezovsky: mandante de assassinatos de rivais políticos e de negócios, fraude e evasão fiscal em massa. Bilhões de dólares em impostos e taxas atrasados. A solução? Liquidar a então maior empresa privada de petróleo do país, a Yukos. O comprador? A estatal Rosneft. Os defensores do antigo magnata alegam perseguição política. Khodorkovsky atualmente está preso em uma penitenciária na Carélia, próximo à fronteira com a Finlândia, até 2017. Todos os pedidos de vistas de seu processo ou perdão pelo governo russo foram categoricamente recusados até o momento.
    A prisão de Khodorkovsky, apesar de muitos considerarem uma vitória de Pirro de Vladimir Putin, cristalizou o retorno inequívoco do Kremlin a um “quase-monopólio” sobre as imensas reservas energéticas russas, evocando, ao menos parcialmente, os tempos de domínio absoluto do setor pela antiga União Soviética. Além disso, também serviu como um importante recado de Putin aos demais oligarcas: as empresas que estes bilionários detêm ( adquiridas – em sua imensa maioria – através da ilegalidade durante a era Yeltsin, diga-se de passagem ) apenas permanecerão com os atuais donos enquanto estes colaborarem com o governo. Caso contrário, perderão tudo. Inclusive a própria liberdade.
    Uma das principais políticas de Vladimir Putin é promover as empresas petrolíferas russas – estatais ou privadas, não importa – em “national champions”. Em outras palavras, corporações de âmbito global que operam nos mais diversos países, projetando desta maneira os próprios tentáculos geopolíticos do Kremlin mundo afora. Assim o fazem as firmas americanas – do setor de energia ou não -há muitas décadas. A maior empresa petrolífera privada da Rússia, a Lukoil, atua em lugares tão díspares como Iraque, Irã, Bélgica, Bulgária, Turquia, Colômbia, Venezuela, Uzbequistão e Egito. Além de ser dona de milhares de postos de combustível nos EUA, quando adquiriu as operações da Getty Oil em 2000 e as operações da Exxon-Mobil em Nova Jersey e Pensilvânia em 2004.
    Os russos, desde os tempos czaristas, sempre viram com enorme desconfiança a participação de estrangeiros no “seu” petróleo. Vladimir Putin, a contragosto, aprovou a aquisição de 20% da Lukoil pela americana ConocoPhillips em 2004, assim como 50% na TNK também em 2004 pela inglesa BP. A francesa Total é dona de 12% da Novatek, segunda maior empresa de gás natural do país. Apesar desta “invasão estrangeira” aos olhos de Vladimir Putin, que chegou a dizer que o acordo assinado entre a russa TNK e a londrina BP mais se assemelhava a um “tratado colonial”, os russos sabem que não há outra saída. A Rússia possui reservas de hidrocarbonetos valiosíssimas, mas localizadas em territórios inóspitos, com clima inclemente a maior parte do ano, cuja obtenção com eficiência e segurança ambiental só pode ser obtida mediante a participação de empresas estrangeiras, detentoras de tecnologia de perfuração e extração em condições extremas de temperatura e profundidade que os russos ainda não possuem.
    Em Agosto de 2011, foi anunciada uma parceria estratégica para a exploração do Mar de Barents, considerado a “Arábia Saudita do Ártico”, entre a estatal Rosneft e os eternos “inimigos americanos” da Exxon-Mobil, não apenas a maior empresa de petróleo do planeta, mas a mais valiosa dentre todas as empresas do mundo. Em Abril deste ano, a italiana ENI, velha parceira dos russos desde os tempos soviéticos, também confirmou a sua participação no projeto. Além disso, deve-se mencionar a faraônica empreitada, a tapas e pontapés entre o Kremlin e a Shell desde 2002, nas Ilhas Sakhalinas, reserva de enormes depósitos de gás natural de imenso potencial econômico. O Japão está logo ali, a poucos quilômetros de distância ao sul, e necessita desesperadamente de novas fontes energéticas, após a hecatombe com o reator nuclear de Fukushima. Segundo especialistas, é altamente provável que os japoneses sejam forçados a abdicar de grande parte de suas usinas nucleares, face à sempre iminente possibilidade de novas tragédias naturais. Para não perder tempo, a Mitsui e a Mitsubishi juntaram-se a Shell e a Gazprom em 2006. A condição dos russos à participação estrangeira invariavelmente é: aos russos, sempre com a maior fatia de lucros futuros, mas sempre com os menores custos operacionais – sempre gigantescos – em projetos desta envergadura. Assim que iniciar à distribuição de gás natural sob, muito provavelmente, a forma LNG, Coréia do Sul, China e até a Índia – economias altamente dependentes da importação de energia – certamente serão prospectadas como futuros clientes.
    Portanto, por mais que o Kremlin saiba que é fundamental diversificar e modernizar a economia russa para um maior desenvolvimento do país como um todo – e alguns passos, um tanto modestos ainda, estão sendo dados nesta direção, como o fomento às indústrias de alta tecnologia e setor de serviços – não resta sombra de dúvida quanto ao profundo “gosto russo” pela riqueza que sempre o alimentou e que provém das profundezas de seu subsolo, desde tempos preteritamente longevos: o velho e valioso petróleo.
    Abraços,
    Luis Felipe

  6. Luís Felipe Goltz disse:

    Caro Fabrício,
    Pode parecer um contrassenso, mas sou médico com formação na UFRGS, tenho 30 anos, natural e residente em Caxias do Sul. Na verdade, meu sobrenome verdadeiro é Holtz. Passei a assinar “Goltz” por um motivo prosaico: não agüentava mais responder às pessoas qual era o meu parentesco com a atriz Vera Holtz. Que eu saiba, nenhum.
    De qualquer forma, é um grande prazer ser um colaborador deste blog, recheado de uma cultura tão fascinante para mim. Como, certa feita, escreveu Luís Fernando Veríssimo, “riquíssima e ao mesmo tempo selvagem”. E poder compartilhar com todos o pouquinho que sei me torna parte dela também.
    Abraço,
    Luís Felipe

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