Fraudes, protestos, prisões… Que eleições são essas?

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Urna eleitoral russaO assunto do momento, pelo menos pra gente, que se ocupa disso, é o sopro de primavera que esquenta, literalmente, o inverno russo. As eleições, de acordo com observadores internacionais, tiveram irregularidades e fraudes. Por outro lado, o governo exalta a ‘festa da democracia’, diz não acreditar nos vídeos e fotos, onde ‘não se vê nada’ e ameaça o ocidente, dizendo que o que acontece dentro da Rússia é assunto russo.

Embarque neste carrossel

Vou tentar começar do começo. Quem está lendo as matérias russas sobre as eleições, frequentemente bate com duas palavrinhas: карусель ou вертолёт (carrossel e vertolyot, helicóptero). Basicamente, são os métodos de fraude eleitoral mais populares da história da Rússia. Consiste em, basicamente, entrar na urna com um monte de cédulas eleitorais já preenchidas, geralmente 10, e depositar tudo na urna. Já o ‘helicóptero’, envolve ainda o voto em trânsito, quando o camarada obtém uma ‘oткрепительное удостоверение’, uma espécie de ‘licença de afastamento’ que dá a ele direito de votar onde quiser. Como o sistema não é eletrônico, eleitores são enfiados em ônibus e levados por várias seções, votando várias vezes.

Cédula marcada dada para o golpe do carrosselO ‘Carrossel’ foi muito bem descrito nessa matéria da ‘Gazeta.ru’. Os jornalistas se infiltraram no grupo, foram orientados a usar uma daquelas ‘doleiras’ de viagem, cheias de cédulas, entrar na seção e enfiar os votos na urna e não se preocupar com os fiscais, que, quando não comprados, estariam orientados a fazer vista grossa. A remuneração para quem participa desses esquemas varia: pode ser mil rublos, pode ser uma garrafa de vodka, pode ser um pedaço de carne, um casaco velho. Mas em geral, é uma garrafa de vodka. Antigamente, dava-se um pé de bota antes da fraude e, após a saída do criminoso eleitoral, ele recebia o outro calçado. Já o ‘vertolet’ (que também pode ser chamado de ‘carrossel’) foi descrito aqui, pelo site ‘Lenta.ru’.

Votos fraudados e licença de afastamento

Licença de afastamento

Um outro sistema mais óbvio e prático, menos trabalhoso, mas um pouco mais caro, é simplesmente pagar alguém da seção eleitoral, para alterar o boletim de fechamento de urna. Ou seja, digamos que o partido X tenha tido 100 votos e o partido Y, 50. O fiscal altera a apuração, dizendo que o partido X teve 140 votos e, o Y, 10. Mas, às vezes, não há muito espaço para esse capricho matemático. O fiscal simplesmente lança, numa seção com 400 eleitores, 450 votos para o partido X, 2 para o Y e 1 para o Z. Lembre-se, é a Rússia, e sutileza não é muito o tom aqui.

Durante a apuração

Repara nas contas dessa apuração, do canal Russia 24
Apuração do Canal Russia 24: votos ultrapassam 140%!

Sites que denunciaram tiveram ‘problemas técnicos’

Bom, explicadas as principais formas de mutreta eleitoreira – que aconteciam no Brasil antes do advento das urnas eletrônicas e ainda acontecem em mais de 60% dos países do mundo, segundo dados da ONU – vamos aos fatos. Todas as pesquisas indicavam que o partido de Putin, o Edinaya Rossia (Rússia Unida) iria perder maioria no parlamento, e isso aconteceu. O desastre nas urnas só não teria sido maior em função das supostas fraudes. E os primeiros sites que denunciaram as irregularidades, ainda no domingo de eleição, foram atacados e passaram várias horas fora do ar: Эхo Москвы, Коммерсант, Slon.ru, Большой город”, The New Times, site dos observadores eleitorais Голос e seu portal Карта нарушений. O editor-chefe do Эхo Москвы, Alexei Benediktov, deu uma entrevista serena falando sobre isso, que você pode ler aqui.

Resultado final das eleições (oficial)

Rússia Unida 49,3%,
Partido Comunista 19,2%
Liberal Democrata 12.0%
Rússia Justa 13.25%

Toda ação tem uma reação

A partir daí, o que se viu foi uma bola de neve. Também no domingo, centenas de jovens se reuniram no centro de Moscou, bem como em outras cidades russas como São Petersburgo e Ekaterinburgo, para protestar contra as fraudes e exigir eleições limpas, já que uma recontagem de votos, do jeito que foi, além de ser impossível, seria absurdo. E já no domingo, começaram as prisões. Lembro que, qualquer ação popular ou protesto na Rússia, tem que ser solicitada, pré-aprovada e acompanhada pelas forças policiais. Somando domingo, segunda e terça, já quase 1.000 russos foram detidos, em ridículas situações de filas de ônibus cheios de simples manifestantes.

E os juízes, um atrás do outro, estão legalizando as prisões de políticos da oposição, como Ilya Yashin, dando 15 dias para todo mundo, usando como argumento o já famoso internacionalmente artigo 19.3 do meu querido КоАП РФ (Código de Infrações Administrativas da Federação Russa): ‘неповиновение законному распоряжению представителя власти’, algo como insubordinação à lei de ordem pública. Outros conhecidos opositores, como Boris Nemtsov e Alexei Navalnyi, também já foram detidos – e esses já conhecem bem o caminho do ‘обезянник’. Para os ‘populares’, a pena também pode chegar a 15 dias de ‘spa’, mas, em geral, fica em uma multa de 500 rublos, por ‘неповиновение действиям полиции’, ou insubordinação a ordens policiais.

Enquanto isso, na Chechênia…

Um dado que vale ser ressaltado – e esse vai para os analistas políticos e partizans pró-guerrilhas -, e que deixou ainda mais indignados os russos, numa espécie de revolta nacionalista, foi o resultado das eleições na Chechênia, famosa república russa cujo movimento terrorista prega a independência da Rússia. No total, 99.51% dos votantes do pequeno enclave caucasiano votaram a favor do partido de Putin, que, ironicamente, se chama ‘Rússia Unida’. Veja bem, 99.51%! Isso prova que a política populista do presidente – e fã declarado de Vladimir Putin – Ramzan Kadyrov vem surtindo o efeito desejado.

E enquanto os russos vão, dia após dia, saindo da letargia política – coisa que, aliás, eles têm ampla expertise em fazer, vide 1905, 1917, 1919, 1991 – ainda estamos longe de ver a Praça Vermelha se tornar uma Praça Tahrir, em um paralelo com a ‘primavera árabe’ (leia este interessante artigo aqui). No sábado, há uma enorme manifestação sendo organizada nas redes sociais, que deve reunir mais de 10 mil pessoas (mais uma vez), no centro de Moscou, bem como em Petersburgo e Ekaterinbugro (convocação aqui e página do Facebook aqui). Ainda que Hilary Clinton, a OSCE e entidades internacionais sigam condenando o resultado do pleito, a força de Putin, Medvedev e do sistema ainda é muito, muito forte.

Bronca na mídia

Recomendo também que você leia e ouça, em russo, do artigo de Stanislav Kucher, comentarista de política da rádio Kommersant, dando um tremendo esporro em seus colegas de mídia, acusando-os de ‘falta de profissionalismo’, quando ignoram os eventos importantíssimos que estão acontecendo nas ruas das principais cidades russas. Bem contundente. E ainda esse artigo da Yulia Latyninna, da Novaya Gazeta, que dá uma bronca nos russos que ignoram o momento político

10 COMENTÁRIOS

  1. Fábio, você gosta de poesia!

    Pensei que não gostasse quando mandei os comentários do nobel de poesia, e você não comentou muito empolgado.

    Ou será o jeito russo de ser sem poder dar nem sorrisos virtuais? Descobri o site casa vazia.

    • Boas Nicolas,
      Sim, gosto, claro, ninguém faz Letras e passa incólume, né? E o casa vazia é uma experiência desse tipo. E é que aqui é o ambiente mais sério, claro. Mas deixa estar que qq dia a gente papeia melhor! 😀
      Ah, e olha a gafe, meu camarada, meu nome é Fabrício, heheheh! (desculpa, não pude perder a piada!)
      Abraços e valeu pelas visitas!

  2. Verdade isso, mas me apeguei ao seu email, que vem abreviado, nem reparava direito em seu nome nas respostas, ia direto pra mensagem.

    Enfim erro identificado.

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