Geórgia x Rússia: “dia do ódio”

Sou um fã incondicional do Cáucaso. Adoro as montanhas, o povo, as festas, as tradições e a sinceridade dos povos do sul – seja da Rússia ou não. Outro dia estava conversando com uma amiga, que mora em Tbilisi, e fiquei sabendo que, no último dia 25 de fevereiro, a Geórgia criou o “dia do ódio” contra os russos, chamados de “ocupantes” ou “invasores”. O fato é que as relações entre os dois países, intimamente ligadas e interdependentes, piora cada dia mais.

Depois do fim da URSS (a Geórgia se separou em 9 de abril de 1991), o país teve inúmeros os conflitos com alguns de seus vizinhos (ossetinos, abkházios e russos) e estreita seus laços dia após dia com os EUA. Mas o “inimigo” comum e maior do estado georgiano é, sem dúvida, a Rússia. Digo “do estado” para ressaltar que boa parte do povo georgiano e da imprensa não está nem aí pra isso e acha que essa briga é uma perda de tempo, dinheiro e ainda deixa o país em péssimos lençóis na comunidade internacional. Mas a criação de um “dia do ódio” para homenagear o gigantesco vizinho beira o exagero.

Emissoras de rádio e TV foram “convidadas” a não exibir nada na língua russa e toparam. Placas de ruas tradicionais foram trocadas e agora lembram mortos na guerra na Ossétia do Sul. Alunos de escolas fizeram poesias lembrando a ocupação soviética de 1921. Ao meio-dia, os motoristas foram convidados pelo prefeito de Tbilisi a buzinarem em protesto contra os “ocupantes”. Enfim, um circo, que se promove a difícil e desconhecida língua georgiana, complica cada vez mais a possibilidade de tornar o país numa janela para o Ocidente.

Mas segundo matéria do Komsomolskaya Pravda, o povo se dividiu durante o “dia do ódio”. Muita gente aderiu à onda, mas muitos também debocharam. “Se querem se recusar a falar russo, precisam antes se recusar a usar o gás russo”, teria dito uma jovem ao KP. De acordo com Nino Burdzhanadze, ex-líder do parlamento georgiano e atual chefe do partido “Geórgia Unida”, esses factóides do governo têm como objetivo desviar o foco dos problemas internos do país e botar a culpa de tudo nos “vizinhos malignos”: “São ações deliberadas para culpar a oposição e os russos pela catastrófica situação em que do país”.

E a articuladora política tem razão: outrora paraíso de férias, para onde iam líderes e personalidades de todo o país, a Geórgia hoje se encontra numa situação calamitosa. Tive a oportunidade de ir ao país em 2002 e me assustei. Estava acostumado a ver as fotos dos tempos soviéticos e ler histórias de grandes escritores, mas vi apenas abandono, pobreza, falta de infraestrutura e descaso. Apesar disso, a simpatia do povo ainda é cativante. Uma pena que a Geórgia hoje ocupa a 11 posição no triste ranking dos países mais perigosos para serem visitados, de acordo com o guia Petit Fouté, publicado em fevereiro.

Por sua vez, a Rússia também não deixa barato: proibiu, ainda em 2006, a venda e distribuição de quaisquer bebidas provenientes da Geórgia, uma tragédia econômica para o país do Cáucaso. O governo de Moscou alegou “falta de condições de higiene durante o processo de fabricação e ausência de regulamentação sanitária no país”. Com isso, foram banidos do maior país do mundo os excelentes vinhos georgianos e a famosa água mineral georgiana Borjomi. Duas preciosidades que só quem já provou sabe como fazem falta.

E até viajar entre os dois países é complicado. Russos que precisam ir à Geórgia precisam de visto e vice-versa. Mas como não existem relações diplomáticas entre os dois países – as embaixadas foram fechadas no ano passado – foi feito um acordo com o governo suíço. Assim, georgianos que querem ir para a Rússia precisam ir à embaixada da Suíça em Tbilisi e solicitar o visto. E russos que querem ir para a Geórgia, devem recorrer também à representação suíça mais próxima.

Com o Cáucaso em um pé-de-guerra eterno e a Rússia usando e abusando de sua tradicional intransigência econômica – da qual vira e mexe nós brasileiros somos vítimas – uma triste situação vai se desenhando na região. Um pequeno país isolado e um grande país privado de um parceiro estratégico.

Tem curiosidade em saber mais sobre a vida e o turismo na Geórgia, em inglês? Clica aqui

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