Há 172 anos, morria o poeta nacional russo

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Às 14h45 do dia 10 de feveiro de 1837, exatos 172 anos atrás, parava o coração de Alexander Sergeevich Pushkin, considerado o maior poeta e escritor da língua russa. E se o nosso português é a “última flor do Lácio, inculta e bela”, como definiu Olavo Bilac – um dos primeiros tradutores de Pushkin, aliás -, a língua russa foi rotulada de “grande e poderosa”, por nada menos que Ivan Turgeniev. Ontem, dia 10, museus, salas de concerto, teatros, esquinas e palcos por toda a Rússia, lembraram o poeta. Foi o assunto do dia nas TVs e rádios, bem como na internet e blogs.

Pushkin morreu aos 37 anos, deixando várias de suas obras mais longas inacabadas, assim como um sem-número de poesias, das quais restaram apenas cacos. Filho de nobres, o poeta nacional russo só foi aprender a língua de seu país no fim da infância, através de sua avó e de uma serva. Até então, falava apenas o francês, já que o russo, nos séculos XVII e XVIII, era usado apenas para falar com servos. Teve ascensão meteórica nos círculos literários e políticos, e incomodou durante muito tempo o czarismo com suas críticas ácidas.

Sua obra-prima, Evgenii Oneguin, demorou oito anos para ficar pronta. Produzida em partes, encantou pelo realismo exacerbado – uma ruptura com o romantismo byroniano -, e pela força da narrativa. Logo após, o poeta foi exilado em seu próprio país, depois de um romance proibido na cidade de Odessa. Pushkin teve envolvimento profundo com os “dekabristas“, que queriam o fim da monarquia e um regime constitucional. Mas os insurgentes foram esmagados e o poeta, perdoado.

Entre viagens e muitas amantes, Pushkin finalmente conheceu a mulher por quem se apaixonaria: Natalia Goncharova, de apenas 16 anos. Dois anos depois, eles se casariam e passariam a viver na corte de Moscou. Deste período, datam grandes prosas, feitas durante grandes viagens, como “A filha do capitão”, sobre a rebelião camponesa comandada por Pugachev, que, obviamente, não agradou ao czar ou ao público. Enquanto ia de cidade em cidade, Pushkin trocava cartas com sua esposa, que ficara na corte e encantava a todos com sua beleza: “Tudo isto é como deve ser. És jovem e reina porque és linda. Mas considera que és minha. Não conqueteies com outros, nem com o czar”.

Goncharova, agora Pushkina, então, começou a ser assediada por um militar francês, George Dantès. Após algum tempo, o poeta se viu forçado a desafiar o rival a um duelo de “12 passos”. A polícia, orientada pelos círculos do czar, em vez de tentar evitar, indo ao local, fingiu-se de desentendida e mandou uma guarnição para outro ponto da cidade. No tiroteio, o francês atirou primeiro e feriu mortalmente Pushkin.

O poeta levou três dias para morrer. Durante esse tempo, seu apartamento em Moscou virou local de peregrinação. E, em nenhum momento em seu leito de morte, ele mostrou remorso ou raiva contra sua mulher. Confessou suas dívidas e presenteou os amigos. Deixou quatro filhos e um tesouro para o mundo.

O melhor de sua poesia foi brilhantemente traduzida para o português por José Casado, em 1992. E o próprio tradutor definiu o sentimento que restou: “A Rússia mudou muito desde então. E continua a mudar. Em algo, porém, não mudou: no amor pela obra de Pushkin”.

Abaixo, uma das traduções de Casado, que impressiona pela perfeição e fidelidade até ao ritmo original:

A Tchaadáev

Amor, glória e esperança
Foram nossa breve ilusão;
Passou desta quadra a folgança:
Sono, matinal cerração.
Mas arde em nós inda vontade:
Nosso impaciente coração
Da pátria sob autoridade
Fatal ouve a convocação.
Aguardamos com fé estuante
Da hora da liberdade o soar,
Tal como aguarda o moço amante
A hora do encontro regular.
Enquanto o ardente coração
Incitam honra e liberdade,
Do íntimo a nobre agitação
Demos à pátria, amigo, e à idade.
Crê, camarada: elevar-se-á
Feliz estrela de almo dia;
Do sono a Rússia acordará
E na aversão da autocracia
Teu nome e o meu escreverá.

1818

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