Incêndio perto de Chernobyl não vai criar nuvem radioativa, diz especialista

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A despeito da desinformação sobre os incêndios, conversei anteontem com um represetante do Greenpeace da Rússia. A ONG é terrivelmente mal-vista pelo governo russo, o que dá uma boa dose de credibilidade a seus dados. E Vladimir foi enfático: o risco de uma contaminação de áreas populosas é mínimo. E dependeria de uma sequência de eventos climáticos seguida de erros improváveis por parte do governo. Ou seja: por enquanto, a Europa deve se preocupar apenas com as ondas de calor e com os incêndios. A atenção a Chernbyl e seu legado, porém, deve ser constante e eterna.

Aqui vai a matéria publicada no G1 com um mapa, onde se pode entender um pouco da situação real – lembrando que os dados são do Greenpeace. Se alguma organização tivesse alguma coisa para botar a boca no trombone, essa seria o GP. Como sei que Vladimir Tchouropov vai me ler via Google Translator, deixo aqui um agradecimento à sua atenção e paciência, de me explicar tudo – até algumas vezes a mais do que deveria – e, sobretudo, por aturar meu russo…

O avanço dos incêndios na parte ocidental da Rússia para áreas contaminadas por poeira radioativa cria uma situação perigosa, ainda não totalmente avaliada. Mas já é possível afirmar “com certeza” que a formação de uma nuvem nuclear como a resultante do desastre de Chernobyl, em 1986, não se repetirá. “Nem no tamanho, nem na expansão, nem no deslocamento.” A opinião é de Vladimir Tchouropov, especialista em energia atômica que atua na sede russa da organização ambientalista Greenpeace.
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Em 1986, a explosão do reator nuclear de Chernobyl lançou toneladas de poeira contaminada na atmosfera. Essa poeira formou uma nuvem que depois se depositou no solo de uma gigantesca área ao longo do sul da Rússia, norte da Ucrânia e Bielorrússia. Os terrenos se tornaram zonas mortas, onde o pó atômico repousa na terra e na vegetação.

Com os incêndios, em tese tudo isso poderia ser lançado de volta à atmosfera, circulando pela região e voltando a repousar em novas áreas, de acordo com o fluxo dos ventos. Para avaliar o alcance do fenômeno, é preciso considerar variáveis meteorológicas e qual tipo de incêndio está ocorrendo. A questão central, porém, é a quantidade de elementos radioativos lançada ao ar, explica Tchouropov. “Por enquanto, não há resposta para essa pergunta.”


No mapa, é possível ver os focos de incêndios(pontos vermelhos) nas áreas contaminadas pelo desastre de Chernobyl. Quanto mais em direção ao marrom está o tom, mais contaminada é a área.

Confira, abaixo, alguns trechos da conversa por telefone com Vladimir Tchouropov:

G1 – Há risco de contaminação radioativa em áreas onde incêndios acontecem?
Vladimir Tchouropov – Para se falar sobre a ameaça de contaminação radioativa dos incêndios em áreas afetadas por radiação é imprescindível levar em conta qual seu nível de contaminação e quais as condições climáticas nessa região. Além disso, tudo pode depender de qual tipo de incêndio ocorre: se é sobre a vegetação alta, baixa ou mesmo sob a terra.

Na região de Bryansk [a área mais afetada pelo desastre de Chernobyl, há 24 anos], os incêndios, felizmente, são poucos. Mas o fogo nessa vegetação, de uma forma ou de outra, vai ser acompanhado do lançamento de radionuclídeos [átomos com núcleos instáveis, que emitem radiação] na atmosfera, como admitiu o ministro russo de Situações Emergenciais, Sergei Shoigu: “Com o que for produzido pelos incêndios – fumaça, fuligem e poeira -, podem ser adicionados elementos radioativos, formando uma nova zona de contaminação.” Assim, a questão é o quanto de radionuclídeos foi lançado no ar.

Por enquanto, não há resposta para essa pergunta. Mas se pode dizer, com certeza, que não se repetirá o lançamento de gases e a formação de uma “nuvem nuclear” como a resultante do desastre de Chernobyl, em 1986. Nem no tamanho, nem na expansão, nem no deslocamento. Estamos falando, em linhas gerais, de uma pequena dose de radiação, que os moradores da região, bombeiros e voluntários poderão receber. Mas ainda é muito inverossímil que qualquer evento radioativo atinja Moscou ou qualquer país da União Europeia.

É possível evitar os efeitos dessas pequenas doses, de forma geral, minimizando a permanência na zona com fumaça radioativa e empregando meios de proteção individual. Ao redor da área, por outro lado, ainda há discussões sobre os efeitos dessas pequenas doses. Como é de se esperar, os reguladores do complexo contaminado dizem que não há efeitos desse tipo de contaminação em seres humanos. Entretanto, na opinião de especialistas independentes- e nós concordamos com eles – sempre há efeitos, independentemente da dose. E esses efeitos se manifestam com o tempo.

No vídeo, a correspondente da GloboNews em Paris, Joana Calmon, comenta a preocupação por parte dos europeus

G1 – Caso haja risco de contaminação, há chances de que o governo esconda ou tente minimizar essa situação?
Vladimir Tchouropov – Se levarmos em consideração a dimensão dos incêndios, sim, o Estado tende a minimizá-lo, certamente. Mas, quando o assunto é radiação, felizmente, não esconderam nada, excetuando-se as declarações do secretário de assuntos médico-sanitários da Rússia, Gennadii Onishenko, que afirmou que não havia incêndios nas áreas radioativas…

G1 – Caso algo realmente aconteça, o Greenpeace teria como tomar conhecimento – independentemente do Estado -, denunciar e alertar para a população em geral qual é esse risco, como os incêndios podem gerar uma nuvem radioativa?
Vladimir Tchouropov – Nós, como uma organização da sociedade, certamente acabaríamos sabendo e não somente poderíamos, como deveríamos agir, explicar para as pessoas o que fazer e quais os perigos da eventual radiação lançada. Mas, com o que há de concreto no momento, não fizemos nenhuma campanha especial sobre como fazer isso. Ainda não julgamos necessário. Estamos monitorando.

G1 – Para o Greenpeace, além do risco de contaminação radioativa, o que representam os incêndios para o ecossistema russo?
Vladimir Tchouropov – Uma gigantesca área de florestas foi completamente queimada, destruída. Como se sabe, foram incêndios violentos. E isso levou a uma lamentável e inestimável perda de elementos do ecossistema local.

G1 – De acordo com a sua organização, os incêndios poderiam ter sido evitados?
Vladimir Tchouropov – Sim, claro. O ideal seria ter uma força especial, uma brigada contra incêndios, permanente e independente, com no mínimo 20 mil pessoas. O que há agora simplesmente não funciona. O Estado – e estamos falando da esfera federal -cometeu um erro fundamental: desmantelou a guarda florestal.

G1 – A mudança na lei de proteção florestal em 2006 e o desmantelamento do antigo sistema de prevenção a incêndios são algumas das causas dos incêndios?
Vladimir Tchouropov – Sem dúvida. Essa foi a principal causa.

G1 – Acha que o governo tem agido corretamente para evitar?
Vladimir Tchouropov – Aconteceram muitos e muitos erros. Mas o último – e o principal – foi não investir na guarda florestal nem equipar o Ministério de Situações Emergenciais.

G1 – O que deve ser feito, tanto para prevenir novos incêndios quanto para prevenir que áreas tóxicas virem “bombas-relógio”?
Vladimir Tchouropov – Simples, rápido e eficaz: Inundação das áreas de turfa e o estabelecimento de uma guarda de incêndio eficaz.

O link para a matéria no G1 está aqui.

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