Incêndios, calor, fumaça: entenda como a Rússia virou um inferno

Vivo resistindo a fazer posts sobre calor e fumaça. Primeiro, quase todo ano tem calor e fumaça na Rússia. Segundo, acho frescura ficar fazendo draminha. Mas acho que, enfim, tenho motivos pra isso. Quase todos os jornais disseram que os níveis de calor, umidade do ar e fumaça em Moscou – e consequentemente outras cidades – superaram os piores da história, atingidos em 2002. Coincidentemente – e para meu azar – o ano que passei lá.

Photobucket
A comemoração pelo penta, na embaixada, ainda no início da fumaceira (2002)

Aí você diz, ‘ah, o cara está tentando tirar onda’. Sério: preferia mil vezes não ter ficado julho inteiro e boa parte de agosto comendo fumaça e sofrendo com o ar seco, quente e desumano de Moscou. E ter tido dezenas de fotos estragadas pelo calor e pela ‘névoa’. Inclusive minhas fotos feitas no dia da conquista do pentacampeonato da seleção, quando fui comemorar com um grupo de capoeiristas russos na embaixada… Enfim, foi uma porcaria, um mês dos infernos.

Photobucket
Uma prova da faculdade de teatro ganhou um monstro de fumaça à ‘Lost’ (2002)

Agora, quem está lá, como a Marina, conta que a vida realmente voltou a ser infernal. Literalmente. Um calor do cão e um ar simplesmente irrespirável. O Museu de História na Praça Vermelha fechado, jogos do campeonato russo suspensos, metrô invadido pela fumaça, falta de infra-estrutura (leia-se ar-condicionado e ventiladores), enfim, estar lá é um suplício.

Lembro também de ter viajado para Voronezh e Sergeev Posad na época, de ônibus. Rodei quilômetros e quilômetros de estrada cercada pelos incêndios e onde o motorista dirigia a 30km/h, já que não conseguia ver 5 metros adiante. Via os carros de bombeiros, helicópteros, brigadas de incêndio… Mas, com esse tempo, sem chuvas e seco, o esforço era vão. Só a chuva resolveu o problema das ‘torfianik’ (turfa) – vegetação rasteira que queima sobre e sob a terra, por dias, e espalha o fogo pelas florestas, casas e mais.

Como me contavam os locais mais antigos, os incêndios fazem parte da ‘herança maldita’ da Rússia pós-soviética. Antigamente, por toda a URSS, eles tinham ou lagos artificiais ou reservatórios enormes com água, em áreas próximas aos eternos focos de incêndio – as áreas de torfa. Perto, também eram mantidos campainhas e sinalizadores, que eram acionados ao menor sinal de fumaça. Toda vila e cidade tinha sua brigada de incêndio. Deste modo, os focos eram extintos logo em seu início. Hoje, toda essa infra-estrutura foi desmantelada, os terrenos viraram cidades e condomínios de ‘dachas’ (principalmente na área de Moscou).

Assim, quando começa um incêndio, as pessoas ou só notam quando ele atinge as florestas, ressecadas e prontas para espalhar as chamas, ou quando o fogo já está consumindo as casas e prédios. Outro detalhe é que, como toda a arquitetura e engenharia russa se baseia no ‘material contra o frio’, essas mesmas casas de campo e pequenos prédios – dachas – são recheadas de aparatos inflamáveis, como madeiras grossas, lã-de-vidro, tecidos, malhas, camadas de material sintético à base de compostos de plástico, polietileno… Assim, os incêndios são turbinados: as casas alimentam o fogo, que atinge uma temperatura absurda – eventualmente com explosões de reservatórios de gás e casas elétricas – se espalhando mais rapidamente e ficando praticamente incontroláveis.

Photobucket
O Kremlin, no centro de Moscou, ganhou ares de Londres. E a tosse? (2002)

E, nessas ocasiões, invariavelmente, ocorrem as mortes: bombeiros e voluntários são surpreendidos pelo fogo, com ‘backdrafts’, ficam cercados e acabam carbonizados em questão de minutos ou segundos. Brigadas inteiras, por vezes, são consumidas assim. E suas mortes são computadas apenas dias depois – ou então ignoradas -, deixando as equivocadas estatísticas completamente sem credibilidade. E é cada história horrível…

Outro dado importante é a saúde dos habitantes das cidades e regiões próximas. Como a Rússia vítima dos incêndios é uma enorme planície, a fumaça acaba se concentrando nas áreas metropolitanas, que são geralmente os pequenos vales em terras um pouco mais baixas. A fumaça se concentra ali, se mistura aos poluentes urbanos, aos compostos químicos queimados nas casas e aos produtos que os russos usam para acabar com as chamas (e que nem D’us sabe quais são) e pronto. Crises de asma, bronquite, rinites, sinusites, enfisemas e o diabo a quatro. Muita gente morre ou fica 100% comprometida após os incêndios.

Photobucket
Colírio, nebulização, máscara, óculos… Nada adiantou. Até a comida perde sabor

No início dessa semana, Putin escreveu uma carta de próprio punho, que seria uma resposta a um blogueiro de Tver’, que fez exatamente essas (velhas) críticas e as espalhou na web. ‘Antigamente, tínhamos o sistema para proteção das florestas. Onde ele está hoje?’. O premiê rebateu: ‘A seca e a onda de calor que enfrentamos é a pior em 140 anos. Se ela atingisse a Europa ou os Estados Unidos, teria sido a mesma tragédia’.

O blogueiro também criticou o novo código florestal, de 2006, que oficializou o desmantelamento do aparato federal de proteção contra incêndios nas reservas verdes, transferindo o controle para as pobres e burocratizadas prefeituras. Ou seja, se virem para reconstruir, sabe-se lá com que dinheiro, a estrutura que já foi desmantelada… E aí, quem tem razão?

Photobucket
Museus, parques, jardins… Passear e estudar se tornou um sufoco. Literalmente

Esse é um panorama geral. Na mesma época, fiz algumas matérias sobre isso, conversei com um bocado de gente, e todos foram unânimes: os incêndios são previsíveis e, embora violentos, são controláveis. Se tornam tragédias uma vez que o estado simplesmente ignora a prevenção, agindo na contenção e sempre esperando por um milagre.

É a síntese da vida dos russos, resignados com as tragédias – naturais ou não – e sempre contando com sua inacreditável capacidade de resistir aos tormentos que os afligem desde que se entendem como povo: frio, calor, fumaça, seca, fome, guerras, terror, ditaduras… Eles sempre sobrevivem para contar história. Mas nem sempre ficam mais fortes, contrariando o ditado universal, que reza  que ‘o que não te mata…’.

email
Related Posts with Thumbnails
http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/stumbleupon_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/delicious_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/technorati_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/google_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/myspace_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/facebook_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/yahoobuzz_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/twitter_48.png


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia o post anterior:
Forbes: ranking dos 10 esportistas que mais faturam na Rússia

Saiu o ranking da Forbes russa dos desportistas que mais faturaram com propagandas no último ano. E, sem surpresa, a...

Fechar