Irkutsk no caminho da Transiberiana: trampolim para o Baikal

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Aproveitei boa parte das quase 20 horas dentro do 270СА, que roda entre Adler x Blagoveschensk, para dormir e escrever.  Meus companheiros de coupê – sim, eu peguei uma segunda classe – eram bem estranhos. Dois sujeitos meio mal encarados, com tatuagens estilo cadeia e dentes meio bizarros. Durante nossas conversas, era sempre tenso o momento da comida. Eu, apenas com miojos e queijos, obedecia quando a dupla ordenava “coma”, após espalhar carnes, frutas e verduras. Confesso que não via a hora de sair daquele vagão…

Logo no início da viagem, a temperatura despencou. Quando cruzamos Tyashet, o termômetro interno do trem marcava -2 graus. Pela manhã, por volta das 6 horas, paramos em Zimá. E a cidade parece fazer jus ao nome (zimá significa “inverno” em russo). Com um sol brilhante e um céu azul, a temperatura era de parcos 5 graus. Comprei um iogurte, um pastel um jornal e me mandei. Não sei o que era pior: o frio ou as tosquices da dupla de operários-presidiários com quem eu dividia o coupê. Nessas horas eu agradeci a proibição de bebidas alcoólicas nos trens. Fosse em outros tempos, a coisa tenderia a ficar estranha…

Bom, depois de estar acostumado a chuva e tempo cinza, cheguei a Irkutsk. Se o tempo físico havia mudado – o sol brilhava na simpática cidade – fiquei com a impressão de que havia voltado no tempo – o cronológico. Afinal, estava de volta na União Soviética do meio dos anos 80, com casas, carros, ônibus, bondes, trólebus, jeito de se vestir das pessoas, tudo remetendo àquele tempo. Ainda mais com aquele sol forte e aquele frio, a sensação de viagem no tempo foi exacerbada.

Peguei o bonde número 1 e desci na parada determinada pelo dono do albergue. Já eram quase 3 horas de uma sexta-feira ensolarada quando Desci e consegui achar fácil o albergue, apesar de, como sempre, não haver nenhuma placa. Na estação de trem, não tem erro: basta pegar o bonde número 1 e descer na esquina da rua Lênin.

O Baikaler é um barato. Recomendo fortemente. A cidade tem hotéis chiques e medianos, mas todos seriam caros e chatos. Como Irkutsk é a base para o único lugar com alguma infraestrutura para turismo, o lago Baikal, aqui encontrei não só turistas estrangeiros pela primeira vez na viagem, como também o Evgenii – conhecido como Jack – o melhor host de todos. Além de falar inglês, ainda era camaradíssimo. Botei as coisas no dorm e parti para a guerra.

Irkutsk é uma pérola. Para começo de conversa, a estação de trem vale uma olhada com mais calma. Aqui foi filmado uma parte do filme “Transiberiana”. Ande pela rua Dzerzhinskogo na direção contrária ao rio e você vai cair no quarteirão das casas de madeira, bem curiosas. Voltando, você cruza o mercado central e cai no coração da cidade, a rua Karl Marx.  Como antissoviético que sou, fiquei muito feliz com a ironia fina do destino, que tratou de fazer com que o logradouro batizado com o nome do teórico alemão virasse nada mais, nada menos, que a Oscar Freire de Irkutsk. Todo mundo está lá: Gucci, Armani, Sephora, Ferragamo…

À noite, eu decidi conhecer o clube Liverpool, indicado por 11 entre 10 guias. Não perca seu tempo, é uma enorme furada, com gente fumando, música mediana e caro. A clássica “festa estranha, com gente esquisita”. Para salvar a noite, segui os fogos e parei na beira-rio. Estava acontecendo a noite dos balões – para comemorar o “Dia do Conhecimento” e a volta às aulas. Foi um espetáculo de rara beleza. Uma sorte sem tamanho.

Em frente ao Baikaler, há o Lenin Street Coffee, um genérico cara de pau do Starbucks. Mas muito melhor e mais simpático. Não perca! Indispensável também, em Irkutst, é andar pela Beira-Rio. O Angará, que banha a cidade, dá um charme todo especial ao local.

Com um dia lindo, tirar fotos era o máximo. Mesmo com o vento gelado, no sol a temperatura era muito agradável. Todos os estudantes estavam em trajes de gala, em função do dia do conhecimento. E, como a gente já sabe, sábado é dia de casamentos na Rússia. Por toda a cidade via-se carros enfeitados, gente de terno e gravata e… noivos. Uma enorme festa!

Da Beira-Rio (beira-rio é o aportuguesamento de “Naberezhnoi”) peguei uma rua que iria sair direto na rua Lenin, em frente ao prédio do governo local, onde há uma incrível praça. Pelo caminho, fui achando coisas legais grafitadas nas pareces e vendo um pouquinho da vida local.

Segui adiante para perto do “Fogo Eterno”, uma chama que queima em praticamente toda a grande cidade russa, lembrando os mortos na Segunda Guerra Mundial (que eles chamam de II Grande Guerra Pátria), e cruzei a ponte, em direção à outra Beira-Rio. Ali, mais noivos – inclusive uma simpática noiva que ficou acenando para as minhas fotos, do alto da ponte – e mais garotada. Foi ali que vi um grupo de meninas russas dançando, sem a menor cerimônia, “Ai, se eu te pego”, em português, na rua. E mandavam bem na coreografia!


(o som ficou baixinho, mas se você aumentar, vai entender…)

Para ver, ver mesmo, Irkutsk não tem muita coisa. Tudo está ali, nas ruas Lenin, Karl Marx e Dzerzhinskogo. Dá para fazer tudo a pé também. Há bons restaurantes, onde se come bem e barato. E a vida segue um ritmo lento, gostoso e, sobretudo simples. Embora à noite a cidade pareça um pouco ameaçadora, lembro que as aparências enganam.

Agora era a hora de conhecer, enfim, o Baikal. Pão-duro que sou, optei pela van, que peguei ali na rua Karl Marx, perto do mercado central. Uma aventura bizarra, barata, encantadora e, vou confessar, perigosa. Mas eu conto no outro post…

Dicas:

–>Protetores auriculares para o ouvidos e vick vaporub para o nariz. Nos trens, nos dorms ou nos ônibus, os sons e cheiros nem sempre são toleráveis. Esteja pronto!

–> Irkutst é um ótimo lugar para economizar. Faça tudo a pé.

–> Quando chegar em Irkutst, já planeje sua ida para o Baikal. Recomendo mesmo o Baikaler e o Eco-Hostel, em Listvyanka. Ambos pertencem ao Jack.

–> Não se esqueça que igrejas e, sobretudo museus, podem estar fechados, sobretudo às sextas-feiras. Cheque com antecedência.

7 COMENTÁRIOS

  1. demais!!! 😀
    hahah 20h com dois possíveis ex presidiários, que até orientam a tua refeição, não deve ser fácil mesmo. daria um bom início de roteiro para um filme hein…

    que lindas as fotos dos balões na beira-rio! uma sorte e tanto. e a noiva da foto, parece ser bem bonita também heheh

    e agora vendo no mapa Irkutsk… já tá longe prá caramba!

  2. Grd Fabrício

    Estava esperando para acessar teu post de Irkutsk, após publicar o meu para não corromper.

    http://viajarepensar.blogspot.com.br/2012/10/um-dia-por-irkurtsk.html

    Discordamos sobre o Liverpool Pub, gostei, tomei boas cervejas lá, mas realmente caro. Batemos papo com um cara da Finlândia com uma visão de mundo muito diferente lá.

    Você não foi ver o Kolchak? O monastério era muito bonito.
    Tb peguamos uma bela sexta em Irkutsk e com muitas noivas, de praxe.

    Uma dúvida? Bebemos sempre nos trens, e até peguei trens que vendiam bebidas. Era somente neste que era proibido?

    abraço!!
    @GusBelli

    • Boas Gustavo,
      Meu problema com o Liverpool foi ele ser um pub qualquer, nada como era vendido nos guias – um lugar temático, até com pratos inspirados nos Fab Four. Mas é caro, comida ruim para o preço, fumacento e com bandinhas bem ruinzinhas. Enfim, nada de especial.
      Pulei o Znamenskii sem dó. Fiquei chapa duns locais e acabei dando umas voltas por outras bandas. E é muito legal esse lance das noivas, né?
      Olha, esse negócio da bebida é uma polêmica. TODAS as provódnisas e provódniks vetaram as biritas nos vagões. Só podíamos beber no vagão-restaurante – e eu só via cerveja. Teve até um episódio de um tio que foi expulso do trem por estar bebendo vodka e já estar mais calibrado.
      A solução foi botar a vodka e o samogon na garrafinha de Sprite. Mas isso é outro papo… 😀
      Vamos nos falando. Quero linkar teu texto da Circum-Baikal!
      Fab

  3. Help!!!!kkkk

    Como faz para comprar ticket de onibus para o Lago com antecedencia? Meu trem vai chegar tarde (21h)! to preocupada…

    Obrigada!!!

    Bju!

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