Jeitinho russo: causos do nosso bom amigo Oleg

Com pouco mais de 1 ano de blog e 200 posts, hoje vou contar um causo e render uma homenagem a um grande amigo. Aliás, é sempre bom lembrar esses causos, esses amigos e deixar registrado que a gente sempre lembra desses momentos especiais com muito carinho e agradecimento. Afinal, diz o ditado de lá que o bom amigo não é aquele que está sempre presente, é aquele que está sempre presente quando você mais está precisando.

Pois bem, era um maio frio, atipicamente frio e gelado, com temperaturas beirando zero grau. Era meu retorno a Moscou após anos, a primeira vez de minha esposa por lá, o reencontro com pessoas muito queridas, enfim, toda uma situação complexa que demandava um apoio grande. Ficamos hospedados na casa de Anya, que recém se casara com Oleg. Anya é uma grande amiga, que conheci através de outro grande amigo. Então, íamos ficar na casa do casal, sendo que eu não conhecia o tal ‘marido’.

E não demorou muito para o conhecermos: na entrada do prédio, ele já esperava a gente com um largo sorriso em seu carro japonês dourado. Minha esposa, ainda se ambientando com o frio e com a língua estranha, logo disse: ‘Caramba, esse cara parece ser o maior gente fina!’. E ela acertou em cheio. Oleg recebeu a gente, ajeitamos um rango lá e ficamos bebendo uma boa vodka e vendo o DVD do casório do rapaz. E ele ia explicando as centenas de tradições, uma por uma, e eu ia traduzindo para minha senhora, e íamos também rindo bastante com as fanfarronadas dos recém-enlaçados.

Mas o plano era, depois de alguns dias, seguir viagem para São Petersburgo. E ainda não tínhamos comprado a passagem de trem. E era maio, pré-férias, período onde muita gente viaja ou já começa a comprar as viagens de junho/julho, período de verão e, consequentemente, a alta temporada de lá. De Moscou para S-Pb, os trens partem da Leningradsky Vokzal e deveríamos ir até lá comprar passagens.

Então, Oleg pacientemente levou a gente lá, bem tarde da noite. E a visão foi o caos: uma turba de idosos, jovens, famílias, aguardava vez nas enormes filas com placas que diziam o que cada guichê vendia. Bilhetes pela internet? É a Rússia, rapaz, não é Inglaterra não… Enfim, nos desesperamos e vimos nossos passeios pelo Hermitage irem por água abaixo, enquanto o ‘Lev Tolstoi’, trem noturno que viaja para a ‘Veneza Russa’ deixava a estação, com apitos e gritos de ‘zvoni, zvoni’ (me telefone). ‘Adeus à russa’…

Oleg então olhou para o andar superior, no mezanino e não teve dúvida. Convocou nós dois e subimos as escadas num pulo só. Era a área ‘vip’ de vendas, para clientes especiais, idosos, deficientes e grávidas. Entramos na salinha e vimos todos os guichês fechados – eles realmente encerravam o expediente às 22h. No entanto, as ‘tias’ vendedoras seguiam ali atrás, no maior papo. Óbvio que elas já sabiam da malandragem. Então Oleg se aproximou de uma e começou um desenrolo… A tia fechou a cara e bateu a portinha do guichê. Ele se aproximou de outra que fez cara de desdém, mas nosso amigo insistiu, com sua malandragem e boa-pracice de quem veio lá de Arkhangelsk, cidade gélida quase no Pólo Norte.

E ele ia explicando que éramos brasileiros, amigos, que queriam ir para Píter, mas a fila estava gigantesca e tal… A tia acabou se apiedando e resolveu vender bilhetes. Sacamos o equivalente a 29 dólares para pagar os dois bilhetes de coupé no Tolstoi, pagamos e pegamos os bilhetes. Pronto, tudo feito. Mas a tia seguia olhando pra gente…

– A multa – disse ele – A ‘multa’. Entende? A ‘multa’!. Eu não entendi a princípio, mas ele ficou me olhando. A tia ficou me olhando e minha esposa ficou me olhando. Foi aí que me toquei. ‘Aaaaaaaaaahhh… A ‘multa’. Saquei mais rublos no equivalente a 10 dólares, passei pro Oleg e ele repassou para a tia. Mas a multa, em vez de ir pro caixa, acabou indo para o bolso da idosa branca, hipermaquiada e de dentes cobertos por ouro. Ela deu um sorriso, discretamente gritou ‘Schastlivogo puti, udachi’ (boa viagem e sucesso) e fechou a portinhola do caixa.

Descemos as escadas e a turba lá seguia, em busca, desesperada, por um bilhete. Enquanto isso, nós já tínhamos assegurada nossa viagem, graças à malandragem e ao jeitinho russo que nosso camarada Oleg deu. Não acreditamos, rimos muito e depois contamos a Anya, quando chegamos em casa, que ensaiou uma cara de repreensão à atitude do novo marido, mas depois caiu na risada com a gente. Afinal, esse é o nosso amigo Oleg K.! Pra ele, um grande ‘urra’ e 100 graminhas no copo!

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Uma resposta para “Jeitinho russo: causos do nosso bom amigo Oleg”

  1. […] bebida da garrafa. Bom, não vou ser eu que vai quebrar a tradição né? Pois bem. Convidado pelo meu amigo Oleg, tive que provar a iguaria. Comer gordura é sempre complexo, mas até que achei gostoso. Aliás, […]

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