Kazan: transiberiana para no coração do Tatarstão, onde dois mundos colidem

12
205
views

De Moscou, segui para Kazan. Comprei o bilhete em um trem noturno “firmenyi” (trens especiais e rápidos) e seriam 13 horas na “primeira perna” da viagem até a capital do intrigante Tatarstão. Para contextualizar, ao contrário do Brasil, que é formado por estados, a Rússia é uma Federação formada por regiões, regiões autônomas, distritos autônomos, territórios limítrofes (krais) e repúblicas autônomas. Estas últimas possuem língua, hino, bandeira e até presidente. Gozam de certa autonomia e funcionam, a grosso modo, como a Catalunha, na Espanha, cuja capital é a conhecida Barcelona.

O Tatarstão é uma das mais importantes e poderosas repúblicas – ou áreas – dentro da Federação Russa. Tudo aqui é, no mínimo, bilíngue – se fala o tatar e o russo – quando não trilíngue, com o inglês nessa equação. A cidade é agradabilíssima, bonita, e com um Kremlin tombado pela Unesco que é uma grande surpresa.

O tatar – a língua falada no Tatarstão – é um idioma túrquico falado por cerca de 5 milhões de pessoas em dezenas de países, mas é predominante e oficial nesta república da Federação Russa. Apesar de ter quase “morrido” durante os anos da repressão do regime soviético, hoje ela explodiu e floresce com o incentivo estatal do governo local.

Kazan tem uma importância única na Rússia, por ser um dos poucos lugares onde russos convivem praticamente sem pressão com outro povo, os tatars (será que são tártaros?). E a cidade explora essa fama com belas metáforas, como onde dois rios se encontram – o russo Volga e o local Kazanka -, onde cristãos convivem em paz com muçulmanos e onde duas línguas parecem viver em harmonia.


Através de interessantes metáforas, promovídeo mostra Kazan

Depois de uma noite dormindo no trem – e apesar da chuva -, pude passear bastante já no primeiro dia, graças à ajuda de uma amiga. Indicada pelo companheiro Dodô, Maria revelou-se uma guia turística credenciada de primeira categoria (e a quem recomendo via couchsurfing, caso venham para Kazan, já que ela fala muito bem o inglês, embora eu não tenha avaliado, já que o objetivo é falar russo). Além, claro, de ter as dicas do que fazer, onde comer, onde andar.

O Kremlin de Kazan é uma verdadeira pérola, um dos pontos turísticos mais legais de toda a Rússia. Seus primeiros registros datam do século XIII, mas foi durante o reinado de Ivan, o Terrível, no século XVI, que a fortaleza (kreml’ significa fortaleza em russo) ganhou notoriedade. Apesar de tombada como patrimônio histórico da Unesco, em seu território foi inaugarada, em 2005, a mesquita Qolsharif, uma das maiores da Europa, e que é absolutamente estonteante.

Dentro do complexo do Kremlin de Kazan, claro, há muitas atrações. Mas, literalmente de longe, a mais interessante delas é a Torre Soyembiká, que pode ser vista praticamente de toda a cidade. Além de ser uma espécie de “Torre de Pisa”, inclinando minimamente ano após ano (hoje ela está 194cm “tombada”), sua história é também uma das mais encantadoras que já ouvi. Resumidamente, quando tentava dominar Kazan, Ivan, o Terrível, ficou encantado pela princesa Soyembiká, que reinava na cidade. E exigiu que ela se tornasse sua esposa, unindo-se, assim, volutariamente à Moscou. Mas ela se negou e o tsar atacou incessantemente a fortaleza, causando morte e destruição.

Após algumas semanas, a princesa decidiu colocar um fim ao suplício de seu povo e decidiu aceitar o pedido de casamento do poderoso tsar. Mas com uma condição: que ele provasse sua fidelidade construindo uma torre de sete andares em sete dias. O tsar aceitou o desafio e, durante uma semana, seus escravos se esmeradam dia e noite para cumprir a tarefa. Ao final do sétimo dia, a torre estava pronta. Desolada por ter que cumprir sua promessa, a bela princesa subiu no topo da torre, contemplou sua cidade e pulou para a morte.

Ainda, segundo a lenda, por ter sido construída a toque de caixa, a torre se inclina com o tempo. Entretanto, como a História é chata e existe para acabar com a magia das lendas usando a frieza dos fatos, a verdade é que a torre já existia mesmo antes da chegada de Ivan a Kazan. E que a princesa, que na verdade não teria muita coisa de encantadora, acabou presa e exilada após a conquista da fortaleza, cuja posição entre os rios Volga e Kazanka era vital para os militares russos.

Mundo da fantasia à parte e voltando ao passeio, um itinerário recomentado é, a partir do Kremlin, descer ou a rua Kremlyovskaya ou a rua Bauman. Dali, atravessar na rua Tatarstão e andar pela ‘Starotatarskaya slobodá’, conhecer as mesquitas e comer por ali.

(Um parêntese: você poderá estranhar esse nome, Slobodá, que vai aparecer sempre em Kazan. Foi uma medida tomara para dar um realce na cultura russa do local, adotar o nome arcaico de “rayon” [bairro], que é slobodá, quase eslavo antigo.)

Aliás, falando na Starotatarskaya Slobodá, ela é, ainda hoje, um bairro que conserva muito da arquitetura tártara original, colorida e cheia de detalhes em curvas, que lembra a turca e a árabe. Infelizmente, como toda a cidade, a slobodá estava completamente intransitável, com obras para todos os lados. Como toda, mas sem exagero, toda a Kazan está em reformas, de olho na Copa do Mundo de 2018 e na Universíada de 2013, imagino que quem vier no futuro vai poder curtir uma cidade fantástica.

Caso você tenha disposição, pode voltar pela outra rua (se veio pela Bauman, volte pela Kremlyovskaya e vice-versa) até o Kremlin. Aliás, a Bauman é uma delícia. Conhecida como “rua de 4 séculos” ou “Arbat de Kazan”, é onde a vida acontece. Boates, restaurantes, lojas, monumentos e muitos artistas de rua se misturam à juventude e aos turistas que lotam a rua desde cedinho pela manhã até bem tarde da noite. Ali pertinho, o shopping Kolsó é uma ótima pedida para respirar um ar ocidentalizado

Falando em comida, é imperativo que você prove comida do Tatarstão – que não inclui a carne de porco. Com meus anfitriões, provei alguns doces como o “chuk-chuk”, “kosh tele”, “talkysh keleve”, e alguns “pastelões”, como o “peremyach”, “belysh” e “Gubadya”. Além disso, foi a cidade onde achei as melhores “stolovayas”, espécies de bandejões, com comida deliciosa a preços baixíssimos. Fique atento às placas onde se lê ‘СТОЛОВАЯ’. Quero dizer, isso se você tiver orçamento limitado como o meu. Se estiver sobrando um $$$, recomendo perguntar pelos melhores restaurantes de comida típica.

Se tiver um tempo, não deixe de conferir um jogo ou evento qualquer na Tatneftarena, casa do time local de hóquei, os Ak Bars. Ou dar um pulo no Estádio Central, que fica em frente ao Kremlin. Se você der sorte e for cara de pau, pode pedir para que o segurança te deixe entrar no estádio. Aliás, ali também é um ótimo lugar para comprar camisas do time de futebol local, o Rubin Kazan. Ali do ladinho, não deixe de dar um pulo no TSUM, (Loja de departamentos universal). Além de uma boa stolovaya com wi-fi liberado, tem ótimas lojas para souvenires.

Como Kazan é uma jóia, é difícil partir, com um ambiente tão agradável, no qual realmente dois mundos parecem viver como sempre deve ser: com tolerância e união para vencer os problemas. Além das fotos e dos ótimos momentos, levo essa lição comigo. Sim, é possível.

A aventura em Kazan terminou com uma carona de meus amigos até a estação de trem e a melhor impressão possível da cidade. Quando as obras acabarem – a cidade será sede da próxima Universíade – que acontece ano que vem, 2013, tudo estará absolutamente novo e lindo.

Depois da primeira viagem, na segunda classe de um trem novo, firmenyi, era a volta para a realidade. Seriam cerca de 15 horas na terceira classe do 394, um comboio velho, dos mais velhos aliás, que roda entre Nizhnevortovsk e Volgograd. A aventura começa a esquentar…

Próxima parada, Yekaterimburgo, terra de Boris Yeltzin, do fim dos Romanov e a última fronteira da Europa.

Dicas:

–> Ficou sem wi-fi em Kazan? O TSUM, perto do estádio, tem, e liberado. Fica na praça de alimentação, perdo da Adidas, no segundo andar. Mas pela cidade não é difícil achar wi-fi liberado. Fique esperto!

–> Se você gosta de futebol ou hóquei no gelo, as lojas no Estádio Central vendem uniformes, bandeiras e souvenires a ótimos preços.

–> Para comer bem e barato, na Rússia, pergunte sempre pelas “stolovayas” (pronuncia-se stalôvaya). Você pega uma bandeija e vai dizendo para a atendente o que quer. Ela põe a porção e te entrega. Sempre com cara amarrada…

–> Antes de mais nada, aprenda a pronunciar o nome da cidade. Não é Kazan pura e simplesmente. Se pronuncia Kazanh, como se tivesse um nh no final. Quase um i, quase um nh, mas um pouco menos que os dois.

–> Faça o que fizer, não perca, em Kazan, o Kremlin e o monumento a Vladimir Ulianov.

–> Banheiros na Rússia, geralmente, são pagos. Não estranhe.

–> Não perca as mesquitas. O Islã do Tatarstão é único e, mesmo que você não seja muçulmano, é impossível não sentir a presença divina na simplicidade e respeito daqui.

12 COMENTÁRIOS

  1. demais!!!
    ri quando você disse que a história é chata e estraga as lendas, hehe. é verdade. a ‘estória’ da princesa e a torre é muito bonita, apesar de trágica.

    você comentou sobre os stolovayas. por quanto é possível fazer uma refeição nesses lugares?

  2. Caro Fabrício,
    Devo confessar meu encantamento com esta longa e incrível viagem que empreende ao longo deste país, a Rússia, de que tanto gostamos e apreciamos. Depreende-se facilmente que, ao longo da Transiberiana, há uma infinidade de cidades, regiões, povos e culturas que vivem não raramente em uma atmosfera de amizade, indiferença ou franca hostilidade entre si. É o fascínio pelo diferente. E põe diferente nisso. Mas, apesar de nunca ter aportado nestas plagas, Kazan é a cidade russa que mais me atrai. A Tartária por um triz não buscou nas armas a via para a sua independência após o fim da URSS. Diferentemente da Chechênia do começo dos anos 90, foi graças ao comedimento do então líder tártaro da ocasião, Mintimer Shaimiev, que possibilitou que Moscou e Kazan conseguissem um acordo que selava a manutenção da Tartária à então novíssima Federação Russa, que surgia dos escombros da antiga União Soviética. E Kazan, hoje, está aí, esplendorosa, renovada, rica, com uma população muçulmana e cristã ortodoxa vivendo em total clima de tolerância e respeito mútuos. Lenin estudou direito em Kazan e, conta a história, fora expulso da universidade local por suas “atividades subversivas”. Enfim, Kazan possui muita história para ser depurada apenas em poucas linhas.
    Um grande abraço do amigo Felipe e aproveite tudo isto aí por nós.

    • Opa,
      Então, eu tinha essa impressão, de que o Tatarstão (Tataristão ou Tartária) tinha esse ímpeto por independência maior – até na época do fim da URSS, supostamento quase tendo ido às armas. Mas pelo que vi – e sobretudo ouvi – os tártaros (ou sei lá como seja o gentílico em português) não estão muito nessa onda não. Teria havido um exagero à época.
      Hoje há uma revolta contra Moscou, mas ela é comum a praticamente todas as regiões.
      Salvo alguns movimentos extremistas, como a dessa jornalista, a Elvira Israfilova, a quem entrevistei alguns meses atrás, isso não vai adiante. Elenco meus dois motivos: o Tatarstão é MUITO integrado à Rússia. Culturalmente, historicamente e geograficamente. Simplesmente não dá para separar, a não ser que tudo venha abaixo e a Federação se desintegre. Vc deve bem saber da monstruosidade que é a indústria petroquímica da área – sem falar na Tupolev e na KamAZ.
      Outra razão é a étnica. Ao longo das décadas, deliberadamente ou não, russos foram povoando o país. Hoje, sem exagero, a proporção de russos étnicos e tátartos é praticamente igual. Por isso, não é balela a propaganda. Em Kazan, todo mundo vive em paz, russos e tártaros, pravoslavos e muçulmanos, orientais e ocidentais.
      Uma outra nuance, porém, é que eles querem mais autonomia. E isso estão buscando.
      Bom, é minha percepção.

  3. Estou indo para Kazan daqui há 4 dias. Vamos pela Air France direto para Kazan e pretendemos voltar para Moscou de trem. Em Moscou vamos pegar um grupo e viajar para São Petesburgo descendo até a Letônia. gostaria de saber como e esta viagem de trem. É confortável…

  4. Não gostei dos tártaros, são muito chatos, querem ficar toda hora dizendo a você o que você deve fazer ou não. Dá vontade de mandá-los tomar naquele lugar. Prefiro os russos, os bashkírios… tem muita minoria na Rússia mais interessante.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here