‘Leningrado’, o filme: história, olhares e muita tristeza

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Esses dias assisti, enfim, ao filme ‘Leningrado’, do diretor russo Aleksandr Buravsky. O filme é de 2007, mas acho que foi lançado aqui esses dias. Foi um interessante contraponto ver esse filme logo após conferir ‘Band of Brothers’, minissérie americana também sobre a II Guerra Mundial. Alías, contraponto tanto cinematográfico como humano e histórico. Enquanto na série americana, os soldados são herois, na russa, não há exército: o povo é heroi. Parece coisa soviética, mas foi o rumo que as coisas tomaram.

Bom, ‘Leningrado’ conta a história de uma jornalista de origem russa, Katya, que vai à cidade cercada pelos nazistas para fazer uma cobertura. Após um bombardeio, ela fica presa, graças à estúpida burocracia soviética. Acolhida por uma família local, Katya vai descobrindo o que é realmente a guerra, a União Soviética e o espírito da Rússia. Sobre esse espírito, gosto muito da parte em que ela diz ‘A Rússia é tão minha quanto sua’.

As diferenças entre cinematografias, formas de desenvolvimento da trama e mesmo plots são notórias. A câmera russa é sempre mais suave, mais lenta, talvez um pouco mais distante, e raramente assume os olhos dos personagens. Em filmes de guerra, você tem fica com uma sensação de segurança, mas, ao mesmo tempo, uma angústia de saber que aquilo não está a seu alcance: você não é parte da trama, mas vive a história.

Isso é bastante perceptível na sequência de abertura, quando uma ação do Exército Vermelho contra os nazistas é mostrada no campo. Aqui, abro um parêntesis: enquanto nós, do ocidente, chamamos o conflito de ‘II Guerra Mundial’, na então União Soviética ela é chamada de ‘Grande Guerra Patriótica’. Então, tenha sempre em mente uma coisa: enquanto nós, da América, e a Europa, lutávamos pela ‘democracia e liberdade’, o Leste Europeu e a Rússia lutavam pela existência de suas culturas e povos.

Logo, voltando à sequência, a câmera praticamente documenta – remetendo, óbvio, aos antigos mestres soviéticos. Você está na ação, vê o drama, mas não participa. Menos cortes, mais expressões e fatos históricos que a gente não consegue aceitar, como a falta de armas e treinamento do Exército Vermelho, contra um bem aparelhado e cheio de panzeers exército nazista. Por trás dos vermelhos, faixas como ‘Por Stalin’, ‘Pela Pátria’ e ‘Pela União Soviética’. A guerra no lado de lá do front em seu estado mais cruel.

Quem assistir ao filme também vai notar as diferenças entre os atores. Enquanto Mira Sorvino e Gabriel Byrne são mais corporais e expansivos, Olga Sutulova (a Tsvetkova), Vadim Loginov (pequeno Yura) e Janna Nesterenko (a pequena Sima), por exemplo, são totalmente minimalistas, basta um olhar. É muito, mas muito impactante ver e entender tudo através de um olhar. Sutulova absolutamente roubou o filme como a ex-atleta e policial masculinizada e embrutecida por uma guerra bestial, que conhece uma inglesa e sonha, inocentemente, através dela, um pouco de uma vida decente.

E se você não conhece a história do cerco a Leningrado (ou Blokada), é uma ótima oportunidade de conhecer, sob a ótica russa e sem golpes de mercado. Durante praticamente 2 anos e meio, os nazistas sufocaram a cidade, impedindo a entrada ou saída de pessoas e mantimentos. O objetivo de Hitler era apagar Leningrado do mapa, e isso fica bem claro no filme. De uma população de cerca de cinco milhões de pessoas, mais de 1,5 milhão morreu, direta ou indiretametne, devido à falta de comida e condições de vida. Ou seja: fome. Para efeito de comparação, seis milhões de judeus foram exterminados nos campos de concentração nazistas, ao longo de 5 anos de guerra.

Enfim, ‘Leningrado’ era para ser uma história em tempos de guerra interessante. Mas a própria guerra e o episódio ‘Blokada’ em si acabaram carregando a trama. Da mesma forma que a oscarizada Mira Sorvino acabou ficando um degrau abaixo da expressiva Olga Sutulova. Buravsky, o diretor-escritor, deixa apenas o filme fluir até a hora em que o locutor de rádio – interpretado pelo Pilatos de ‘Master i Margarita’, Kiril Lavrov – morre. Daí para frente, a gente já sabe que o conceito de final feliz vai ser adaptado à melancolia misturada com orgulho da ‘russkaya toska’.

4 COMENTÁRIOS

  1. Cleoman disse:
    O filme mostra o que o ocidente sempre escondeu do resto do mundo: o preço que os soviéticos pagaram na Segunda Guerra Mundial, sendo a nação que mais vidas perderam. Só em Leningrado foram 1,5 milhão. E Stalingrado? e em toda a Europa? Os americanos, em particular, sempre esconderam essas verdades para o ocidente, apresentando apenas seu papel de herói e xerife da ordem mundial.Parabéns ao diretor e ao atores pelo excelente filme e pelo resgate da verdadeira História

  2. O filme mostra o que não estudamos nos livros de história
    a verdadeira face cruel e a brutalização do ser humano.

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