Mais clássicos ganham tradução direta do russo

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Não gosto de postar releases (para quem não sabe, releases são textos de assessorias de imprensa que ‘vendem’ uma ideia de pauta para os jornalistas de redação), mas abro uma exceção nesse caso, em nome da arte. Toda tradução direta do russo de obras de arte é válida – visto que muito do que você leu por aí veio em versões tortas do espanhol, inglês e francês. Mas lembro que ‘A morte de Ivan Ilitch’ tem uma tradução que gosto muito, da brasileira Vera Karam, feita pela L&PM. Enfim, quem puder, confere e conta se ficou bom!

“A morte de Iván Ilitch e outras histórias”, de Tolstói, foi traduzido por Tatiana Belinky e “O duelo”, de Tckékhov, teve o trabalho de Klara Guriánova

Com o projeto gráfico e ilustrações de Hélio de Almeida, o selo Amarilys, da editora Manole lança dois livros, O duelo, de Anton Tchékhov, e A morte de Iván Ilitch e outras histórias, de Lev Tolstói, dando início à sua coleção de clássicos russos. Ambos são traduções diretas da língua russa e contam com prefácio da pesquisadora da USP e especialista em literatura russa Elena Vássina.

As capas apresentam um conceito ousado. Exclusivamente tipográficas, não exibem o título, nem o nome dos autores, apenas uma letra com efeito de profundidade. Além de conferir novo visual a obras clássicas, o objetivo é instigar o interesse do leitor em abrir o livro e explorar o que há por dentro dessas edições tão diferentes.

O duelo

Escrito por Anton Tckékhov, autor consagrado como “pai” do teatro moderno e célebre por suas narrativas breves, O duelo foi publicado no formato de folhetins em onze edições do jornal Nóvoe Vriémia (Novo Tempo), em 1891. A obra, há anos fora de catálogo no Brasil, se destaca na produção literária de Tchékhov. Composta de 21 capítulos, é relativamente longa, em comparação à produção de contos do autor, que insistia na máxima “brevidade, irmã do talento”. Além disso, é um dos raros exemplos de “novela ideológica” na obra de um escritor que ficou conhecido como o menos “engajado” de sua época.

No clássico, o zoólogo von Koren é defensor convicto do darwinismo social – corrente ideológica baseada no conceito da seleção natural como condição para o progresso da sociedade. Essas teorias, aliadas a certo fervor moralizante, fazem com que Von Koren nutra verdadeira ojeriza por Laiévski, um sujeito “depravado”, pouco afeito ao trabalho e amante de uma mulher casada.

A literatura russa aborda o duelo como possibilidade, sempre trágica, de resolução de um conflito. E é em um duelo que a antipatia mútua dos dois antagonistas resulta.

Apesar de repleto de referências às obras de Puchkin, Lermóntov e Tolstói, Tchékhov rompe com a tradição literária e cria aquele específico efeito de estranhamento (conceito introduzido pela escola formalista russa), contrariando as expectativas do leitor. Além disso, em O duelo se faz presente uma visão de mundo puramente tchekhoviana, tão bem descrita pelo escritor Vladimir Nabokov: “As coisas para Tchékhov eram engraçadas e tristes ao mesmo tempo, mas não se pode enxergar a tristeza se não se enxergar a comicidade, pois ambas estão ligadas”.

Klara Guriánova, pesquisadora e especialista em literatura russa, foi responsável pela tradução, cuja essência se manteve intacta por ter sido feita a partir do idioma russo original. As ilustrações ficaram por conta de Hélio de Almeida.

Sobre o autor: Anton Tckékhov nasceu em 29 de janeiro de 1860, no sul da Rússia. Detestava a severa educação recebida na infância, mas admirava o talento artístico do pai. Médico de formação, apesar de toda a fama literária que conheceu durante a vida, ele gostava de repetir: “A medicina é minha legítima esposa, enquanto a literatura é minha amante”. Dentre suas obras, encontram-se A dama do cachorrinho (1899), Tio Vânia (1899), As três irmãs (1900), O jardim das cerejeiras (1904), entre outras.

A morte de Iván Ilitch e outras histórias

“Descrição da morte simples de um homem simples” é sobre o que trata a novela A morte de Iván Ilitch que encabeça o título do livro A morte de Iván Ilitch e outras histórias, de Lev Tolstói. Porém, por mais simples que pareça, a história é tão complexa e instigante quanto o autor, que apreciava abordar o cotidiano com realismo.

A narrativa se inicia com a notícia da morte de Iván, o que leva o autor a abrir espaço para a descrição da vida regular e ordinária do personagem, envolvida pelo egoísmo humano.

Tolstói coloca em pauta as “questões malditas” da existência humana e critica o fútil e material. Para ele, um homem preso no egoísmo de seu bem-estar precisava passar pelo caminho da morte para perceber a futilidade da vida e, só assim, ingressar no mundo da liberdade. O crítico literário russo, Víktor Chklóvski, aponta que A morte de Iván Ilitch “não é sobre o horror da morte, mas sobre o horror da vida”. A aproximação da morte torna-se um momento de epifania, já que no fim encontra-se luz.

Para a pesquisadora da USP e especialista em literatura russa, Elena Vássina, o procedimento artístico em que “o realismo se intensifica no simbólico e atinge o transcendental” está presente na construção das quatro obras reunidas em A morte de Iván Ilitch e outras histórias.

Apesar da mensagem transmitida em suas histórias, o autor não queria ser encarado como moralista, preferindo apenas mostrar sua visão de mundo e instigar a autorreflexão, em um período em que o próprio escritor passava por uma fase de dúvidas e angústias. O famoso autor russo foi um reconhecido líder espiritual e, em seus últimos anos de vida, suas pregações chegaram a afastá-lo do ofício literário. Ainda assim, obras-primas, como A morte de Iván Ilitich e Senhor e servo, outro conto presente no volume, foram escritas nesse período atribulado da vida do autor.

Já O prisioneiro do Cáucaso e Deus vê a verdade mas custa a revelar, que compõem a seleção, são de uma lavra anterior e foram escritos especialmente para os “Livros Russos de Leitura”, cadernos voltados para proletários e leitores populares.

A narrativa forte de Tolstói é marcada pela simplicidade poética da linguagem que, segundo o escritor, colocada de forma artística, deveria refletir a Verdade, que é, no final das contas, simples e transparece onde existe amor ao próximo.

A morte de Iván Ilitch e outras histórias, lançado pelo selo Amarilys em homenagem ao centenário da morte do autor, também conta com ilustrações de Hélio de Almeida. A tradução, feita diretamente do idioma russo, ficou por conta de Tatiana Belinky, famosa autora de livros infantis, com mais de 90 anos, que nasceu na Rússia e hoje é uma das mais importantes escritoras do Brasil.

Sobre o autor: Lev Nikoláievitch Tolstói nasceu em 28 de agosto de 1828, em Iasnaia Poliana, e pertenceu a uma das mais nobres e antigas famílias russas. Criado em berço de ouro, apesar de não ter concluído o curso na Universidade de Kazan, obteve perfeita educação aprendendo diversas línguas. Além disso, chegou a ser eleito, em 1898, membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Dentre suas obras publicadas encontram-se: Infância (1852), Contos de Sebastópol (1855-1856), Guerra e Paz (1865-1869), Anna Kariénina (1875-1877), A morte de Iván Ilitch (1886), e outras.

Serviços

O duelo
Autor: Anton Tckékhov
Ilustrador: Hélio de Almeida
Páginas: 176
Acabamento: capa dura
Preço sugerido: R$ 39,00
Editora Amarilys – www.amarilyseditora.com.br
Tel.: (11) 4196-6000

A morte de Iván Ilitch
Autor: Lev Tolstói
Ilustrador: Hélio de Almeida
Páginas: 232
Acabamento: capa dura
Preço sugerido: R$ 44,00
Editora Amarilys – www.amarilyseditora.com.br
Tel.: (11) 4196-6000

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