Mais do mesmo: nova Rússia de novo. Agora, na ‘Veja’

Sem querer ser muito amargo, hoje em dia está difícil de ler coisas interessantes sobre a Rússia. E, sempre que sai alguma coisa em algum grande veículo, algum amigo lembra de mim e dá o toque. Essa semana, me avisaram que a ‘Veja‘ tinha um especial sobre ’20 anos do fim da União Soviética: a Nova Rússia’. Claro, a gente confere, sempre com a esperança de pintar um bom texto.

(AVISO: as linhas abaixo refletem minha opinião pessoal sobre o texto de uma revista. Logo, concordar ou discordar é válido. Mas sempre com respeito! E não sou nenhum comuna de DCE que odeia a Veja. Não gosto, na maioria das vezes, admito, mas tem muito trabalho de qualidade lá sim)

Peguei a revista e admito ter ficado um bocado frustrado. Ora, se já se passaram 20 anos do fim da grande piada que foi URSS, como é que uma matéria fica enfileirando clichês repetidos ad nauseam? Enfim, uma tristeza só. Como material complementar, tem até um vídeo… do Metrô de Moscou! Para quem isso é alguma novidade? Com tanta coisa legal rolando por lá, eventos, museus desconhecidos, paisagens incríveis, políticos fantásticos, figuras excepcionais, metrô de Moscou de novo???

E até tem esse vídeo aqui, sobre a ‘Mosfilm’, que é muito mais interessante e muito menos hypada. Teria, por si só, sido uma pauta excepcional. Mas claro, só quando você conhece coisas do cinema russo contemporâneo, né?

A matéria até começou interessante, com uma ‘estudante de linguística’ de 22 anos, epitetada como ‘da primeira geração de russos sem nenhuma memória pessoal em que sua pátria era o centro de um arranjo imperial totalitário’. Esse era o gancho, na minha opinião. Quem são esses jovens? Como vivem? O que pensam? E o que pensam da URSS? Mas aí a casa caiu.

A seguir, um encadeamento de críticas ao sistema democrático russo. Aliás, outra crítica vazia. Se o cara é eleito em um sistema defeituso, uma enorme, gigantesca parcela de culpa disso aí é do povo, que é apático. O russo adora dizer que ‘a eleição está definida’, que ‘o governo controla tudo’ e fazer piadinhas com eleições e Putin. Ora, mas se você não usar a coroa, tenha certeza, alguém vai usar. Hipocrisias postas de lado, aqui também temos um czar que tem poder para eleger pessoas absolutamente desconhecidas e, se quiser, ficar até mais tempo que Vladimir Putin no poder. Acho de uma deselegância – para não falar cara de pau – monstruosa o sistema brasileiro criticar o sistema russo, no viés eleitoral.

Três páginas se passam e a gente ainda está debatendo Putin, Medvedev, Brejnev e a URSS. Sem nenhum ponto novo. Um box e coisas como Brics (como se alguém ainda acreditasse e aguentasse Brics) e aquele papo de história x modernidade de Moscou. Sendo que ninguém mostra a modernidade. Você, leitor da grande imprensa, sabe algo sobre o fantástico complexo de negócios ‘Moscow City‘, nem tão novo assim?

Um box sobre a ‘Guerra Fria’. Sem comentários. Mas teve uma entrevista com Mikhail Prokhorov, o oligarca-gente-fina que queria ser presidente e foi ‘caçado’ por ser um… bandido oligarca! É, o cara que é sócio do Jay-Z no New Jersey Nets e tem uma fortuna de US$ 20 bilhões, sendo um dos 40 homens mais ricos do mundo, segundo a Forbes. Realmente, coitado. Mas, cadê a entrevista com o cara? Essa iria ser legal. Mas não, não tem…

Enfim, uma matéria legal para quem gosta de reler coisas antigas, mas não tem nada de novo. Muito bem escrita, demonstra uma cultura e uma memória googleana, um texto encadeadinho, fotos bem escolhidas, mas, novidade que é bom, nada. Talvez nos cinquenta anos do fim da URSS, alguém resolva contar coisas legais – e novas!

E, para poupar tempo da turma, deixo aqui uma dica pros ‘analistas’, um ‘como fazer uma matéria sobre a ‘Nova Rússia pós-soviética’ em 10 passos. Siga e você terá uma lindeza de texto do século passado!

1 – Encadear eventos históricos a partir de Gorbachev
2 – Fazer paralelos com a Guerra Fria
3 – Explicar a formação dos oligarcas a partir das reformas de Yeltzin
4 – Falar da ‘falta de liberdade e democracia’ da Rússia de Putin (lembrando que, entre alhos e bugalhos, o dito cujo foi eleito democraticamente em pleitos que nunca foram sequer questionados por quaisquer órgãos internacionais. Ou seja: Vladimir Putin e Dimitri Medvedev lá estão – e estarão – por vontade, ou falta de, do povo)
5 – Falar das medidas paternalistas e populistas ‘absurdas’ URSS-style da Rússia (bolsa-família, alguém?)
6 – Dizer que Putin explora o ‘sentimento de nostalgia’ da URSS na Rússia
7 – Explicar as ‘perseguições políticas’ que a Rússia vive hoje
8 – Falar, en passant, que a Rússia ocupa o 154o lugar no ranking de corrupção do mundo (o Brasil é o 69o)
9 – Ter como intérprete uma bela loirinha estudante de linguística
10 – Entrevistar um especialista dos EUA ou da Europa Ocidental.

Fiz um recorte do PDF só com a matéria. Se você quiser ler – e eu acho que vale a pena – faz o download veja_ed_2242_russia_final

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3 respostas para “Mais do mesmo: nova Rússia de novo. Agora, na ‘Veja’”

  1. Bremm disse:

    No item 10 eu diria que além de ser especialista, o mesmo tem que ser neutro (coisa que acho muito difícil, se tal pessoa for dos EUA). Canadense, quem sabe?

  2. antonio disse:

    Por ter feito viagem recente à Russia é que a materia de Veja de 9 de Novembro, pg 126 e seguintes me chamou a atenção.

    Colmo diz a critica, ela esta bem completa. Os contrastes entre os novos russos ricos e a maioria dos demais russos é realmente interessante. Nunca vi tantos carros de luxo como em Moscou (BMW, MB, Maserati, etc) ao lado de carros do período soviético.

    Um reparo, entretanto, me parece necessário ser feito: a foto que ilustra a parte superior da pagina 130 com a legenda ” Militar caminha no centro de Moscou…” não é de um verdadeiro militar. É de um ator que trabalha na Praça Vermelha e empresta sua aparencia similiar ao do ex-premiê Leonid Brezhnev para turistas tirarem fotos por alguns rublos. Como prova eu anexei na Carta à Redação uma copia da foto que eu mesmo tirei do citado “militar”, a espera de um turista.

    Veja publicou parte da Carta na edição deste final de semana, na pagina 55, mas editou o trecho relativo à foto.

    Uma pena.

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