‘My Perestroika’: será que é mais do ‘antes era melhor’?

Hoje, a amiga Clarice me lembrou de um filme que tou há tempos pra postar aqui sobre. Trata-se de ‘My Perestroika’ (de Robin Hessman), uma espécie de ‘documentário-reconstituição’ da vida na União Soviética, feito a partir de relatos de alguns personagens que nasceram sob a URSS, cresceram em meio à ‘perestroika’ e agora vivem na espécie de limbo ‘capitalista-selvagem-niilista-monarquista’ que é a Rússia (e Ucrânia, Bielorrússia, Azerbaijão, Uzbequistão e ex-RSSs afins.)

Como ainda não vi o filme, dei uma espiada em algumas resenhas na internet. Achei essa aqui bem interessante. Me parece que traçar um paralelo entre os 2 lados da então ‘Cortina de Ferro’ é uma ideia interessante, porém arriscada.

Também confesso que já meio que tendo a torcer o nariz pra esses docs de americano-inglês. Já torço quando eles fazem sobre a vida aqui no Brasil, idiotizando a vida no Nordeste ou nas favelas, ou nas duas coisas. Passei a torcer também quando eles fazem sobre a ‘vida no mundo dos comunistas’. Ora, eles ainda têm medo do comunismo (vide a reforma no sistema de saúde dos EUA). Ainda não atingiram uma independência moral pra analisar muita coisa.

Mas vamos ver, vamos ver. Esse doc pelo menos parece honesto, com algumas histórias honestas. O fato é que, hoje, por lá, muito pouco se glamuriza a URSS. No interiorzão, até tem uma saudade – o famoso раньше было лучше ‘ran’she bylo luche’ (‘antes era melhor’, famosa frase, usada pelos saudosistas em referências à URSS) – mas no geral as pessoas sabem, mesmo lá no fundo, que o saldo atual é positivo.

Mas o fato é que, entender a URSS, pouca gente hoje ainda entende. Pensa bem: quem está na casa dos 30 anos, ou daí pra baixo, viveu muito pouco sob a égide do partidão. Quem tem entre 30 e 50, geralmente, toca algum ‘business’ ou tem alguma ‘herança’ do regime do povo, logo, vive razoavelmente bem. Quem lembra mesmo, com ‘toska‘, são os velhinhos. Mas, levando-se em consideração que a média de vida do homem na Rússia é de 55 anos, e a da mulher é 68… Faz a conta aí e você vê que saudade da URSS, por lá, é algo em extinção. E, se pra eles mesmos ainda é complicado, imagina prum estrangeiro…

Ah, só pra esclarecer: muita gente ainda teima em achar que ‘perestroika’ tem um enooorme significado semântico. Nem. Significa puramente ‘reconstrução’. Depois do Gorbachev, claro, ganhou esse ar de ‘ERA’, a ‘Era da Perestroika’. Mas, assim como ‘glasnost’, que significa ‘transparência’, é uma palavra que você vai ouvir um zilhão de vezes na vida cotidiana regada à língua russa, sem ter a menor relação com a política.

Outra coisa: ‘My Perestroika’ é uma puta referência a um dos hinos do fim da URSS, a música ‘Moya Perestroika, mama’, do grupo ‘Chizh & Co.’. Assim como Рожденный в СССР (‘Rozhdenyi v SSSR’), do DDT, acho que são duas DAS músicas do (fim do) tempo. Aliás, vale lembrar que eu acho ‘Rozhdenye v SSSR’ um dos melhores álbuns da história, com uma capa simplesmente chocante…

… da mesma forma que o hino extra-oficial da URSS era Мой адрес Советский Союз ‘Moi adres Sovetskii Soiuz’ (Meu endereço é a União Soviética), do grupo ‘Samotsvety‘ (Самоцветы). Era A canção e até hoje todo mundo para pra cantar. Então, se você tá estudando russo, trata de aprender essa música. É a hora do êxtase do ‘ran’she bylo luche’!

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2 respostas para “‘My Perestroika’: será que é mais do ‘antes era melhor’?”

  1. Bremm disse:

    A última música lembra-me a WWW do Leningrad. 🙂

    Bom, na onda do “Antigamente era melhor”, aqui no Brasil, no tempo da ditadura militar era possível andar na rua durante a madrugada e não ser assaltado. De resto, não lembro de nada mais que seja (positivamente) notável. Não era possível criticar o (nosso) governo, que era nitidamente pró-EEUU.

    Houve época onde a inflação galopava mais que o cavalo do falecido Gen. Figueiredo.

    • fabyuri disse:

      tem umas 200 músicas que se inspiraram no ‘samosvety’… 😀
      ah, sobre a ditadura, me diz, então, em qual época se formaram as grandes facções criminosas do Brasil?
      na ucrânia, eles dizem que ‘o passado fica melhor a cada dia que passa’…

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