‘Não Conta Lá em Casa’ da semana vai até a Alania

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Hoje é dia de ‘Não Conta Lá em Casa’, nossa viagem semanal pela outra Rússia, a do Cáucaso, não-eslava e que só aparece nos jornais em referências ao terrorismo, explosões, islamismo e radicalismo. Neste programa, o quarteto sai da Chechênia e pega a estrada, cruzando a república da Inguchétia para chegar até a república da Ossétia do Norte-Alania, o último enclave da Federação Russa antes da fronteira com a Geórgia – que agora é contestada.

Vamos do começo. Deixar Grozny, capital da Chechênia, é sempre um problema muito maior do que chegar. Afinal, quem sai de lá é sempre um suspeito em potencial. Até a Alania (como os norte-ossetinos preferem que seu país seja chamado, em referência ao povo alano, que chegou até a dominar a Europa ali pelo século 9), são uns 130 km, pela estrada principal. Mas como você tem zilhões de blitz pelo caminho, isso pode levar de 2 horas até 1 dia. No caso dos nossos amigos, foi a segunda opção…

Antes da viagem, eu tinha meio que briefado sobre um ‘código velado de blitz’ no Cáucaso. Vai ser pergunta pra cá, coça cabeça pra lá, grita, grosseira, mas, no fim, o objetivo é sempre um: esperar o ‘nachalnik’ (chefão) chegar, e ele vai negociar a ‘vzyatka’ (propina). Dito e feito. Depois de muita enrolação, chega o chefão e negocia. Mas tem duas sutilezas: se eles pedirem 5 mil rublos, chore. O valor vai cair umas 10 vezes. Quinhentos rublos está de ótimo tamanho. Além disso, ali você não está ‘subornando’, você está ‘comprando algo’. Você dá um dinheiro pro cara e ele te dá alguma coisa, uma melancia, uma galinha, um frango defumado, um queijo… E parece que foi isso que aconteceu. Nosso camarada parece ter levado um belo franguinho defumado…

Outra coisa muito importante em blitzes pela Rússia: mochilas. Cuidado ao pegá-las, mostrá-las e abri-las. Numa blitz vindo da Chechênia, colocá-las no chão, chutá-las e pedir que os cães farejem é praxe. Aqui não vai ter aparelhinho de raio-x, né? Eles podem até mesmo ‘afogar’ sua mochila (aconteceu com um amigo não faz muito tempo). Por isso, mantenha eletrônicos consigo.

Cruzar a Ingushétia, outra república caucasiana cuja capital é Magas, é MUITO tenso. Pelo menos para mim foi e sempre me contam que é. Ainda mais quando seu destino é a Ossétia do Norte-Alania. Os ingushes têm uma das mais tristes e complicadas histórias dentro de todas as repúblicas da região. Foram dominados, deportados, retornaram para sua terra em 1957, unificados com a Chechênia, conseguiram independência desta após o fim da URSS e entraram em guerra com os norte-ossetas logo depois. O motivo? Após sua deportação total, seu território ficou com os vizinhos, que não aceitavam o beligerante povo de volta. Magas é a capital secular do povo alano, do qual os ossetas dizem ser herdeiros. Mas os ingushes ali vivem desde tempos imemoriais – mesmo sem a benção dos rivais.

A guerra entre Ingushétia e Alania durou alguns meses, o suficiente para uma retirada de 100 mil ingushes de seus lares e a destruição parcial do país. Durante as guerras da Chechênia, a Ingushétia recebeu centenas de milhares de refugiados, até chegar a um ponto em que sua economia foi destruída: para cada cidadão ingushe, havia um refugiado.

Até 2008, quando o presidente Yunus-Bek Yevkurov foi nomeado pelo Kremlin, a pequenina república foi cenário de sangrentos atentados, pequenos conflitos, sequestros e índices de criminalidade absurdos. No entanto, o novo líder conseguiu tomar rédeas da situação. Mas isso não significa calma. Magas é considerada pelos especialistas um barril de pólvora: não é bem vista por nenhum de seus vizinhos, tem uma população extremamente insatisfeita, uma guerrilha separatista fundamentalista furiosa e uma economia ainda em frangalhos.

Bom, chegando na Alania, tudo muda. Trata-se de um pequeno enclave cristão no Cáucaso (isso por si não é motivo para ser melhor ou pior, é apenas uma diferenciação contextual), já que todas as outras repúblicas são muçulmanas ou, no caso da Armênia, católica de doutrina local. Desde o século 13, diferenciam-se profundamente de seus vizinhos. Não são, essencialmente, um povo beligerante, pelo contrário. São os mais simpáticos, mais bem vistos e os que mais bem aceitam fazer parte da Federação Russa. Vladikavkaz foi fundada no fim do século 18, e significa ‘dominador do Cáucaso’. Mudou de nome algumas vezes, mas nada é tão complicado quanto seu idioma, meio iraniano. O nome da cidade em ossetino vira Дзæуджыхъæу, algo como Dzaudzhikau… Tem uma população de pouco mais de 300 mil pessoas – o que a torna a mais povoada cidade da região, assim como a mais importante economicamente.

Seu time de futebol, o Alania Vladikavkaz, onde já jogaram muitos brasileiros nas décadas de 1990 e 2000, chegou a ser campeão nacional em 1995. Para mim, especialmente, foi um dos lugares que mais impressionou. Pela simplicidade, pela beleza, pela calma. E ficar caminhando sem rumo pela pequena Prospekt Mira, a avenida principal da cidade, onde o rio Terek, que cruza a capital sempre com uma forte correnteza, fazendo aquele barulho de turbilhão, é uma delícia. Ali, você está no meio do mundo. Gosto muito desse texto, em russo, sobre a cidade.

Nas fotos, nossos amigos tiveram a honra de provar um legítimo ‘ossetinskii pirog’, feito de queijo ossetino, que é uma das sete maravilhas culinárias desse planeta. E passaram pela igreja armênia de São Gregório, talvez a mais bela da cidade, na ‘rive droite’, a margem direita do Terek.

Como já escrevi muito, vou só falar mais uma coisinha que notei: a Alania é o único enclave no Cáucaso onde você vai dirigir um carro com uma fitinha de São Jorge (Георгиевская лента), aquele adorninho laranja e preto ali da foto, que todos os russos usam para lembrar os mortos e a vitória na II Guerra Mundial. Como trata-se de um motivo ‘nacionalista russo’, praticamente só os alanos usam. Obviamente, por serem os únicos da região a se sentirem, efetivamente, parte da federação.

Bom, vamos ao programa né? Chega de papo. Curtam muito, está valendo mesmo a pena!


E não esqueça de seguir a aventura deles. Todas as info estão no site oficial do programa ou na página do Facebook deles.

3 COMENTÁRIOS

    • Boas Luiz,
      Esse trem tá pra sair desde o tempo do Rasputin! 😀
      Vou tentar fazer um post sobre isso. Até pq, nessa notícia, tá tudo feito cachorramente. Não traduziram nem os nomes das cidades! 🙁
      Obrigadão pelo toque! Vai ser citado quando sair o post, Luiz! 😀
      Abração

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