Nascidos na URSS: um pouquinho do mundo DDT

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Vivo falando que vou postar algo sobre minha banda favorita, DDT. Ontem, ao ver o clipe de ‘Rodina’ (pátria) postado por uma amiga, resolvi criar vergonha na cara e, enfim, contar um pouquinho da história – da banda e de como a conheci. E vou tentar criar aqui um top 10 pessoal de músicas da banda, para quem conhece poder discordar e quem não conhece poder dar uma escutadinha. Mas adianto, 80% da graça do DDT são as inacreditáveis letras de Yuri Shevchuk. E DDT não é uma banda de hard-rock, heavy metal ou afim. É uma banda de rock, simples, muitas vezes experimental, progressivo, pop e afim. Mas é rock´n´roll potência máxima, atitude em sua essência.

Bom, pra começo de conversa, DDT, obviamente, é uma alusão ao produto químico usado no controle de pragas e, eventualmente, por mães ousadas que querem acabar com piolhos dos filhos: Dicloro-Difenil-Tricloroetano. É o grande pesticida da era moderna, mas foi usado em larga escala contra todo o tipo de insetos. Nos anos 70, porém, descobriram que o treco era cancerígeno e ele foi banido em quase todo o planeta. Menos na União Soviética e, coincidentemente, no Brasil. Mas, matreiramente, DDT (a banda), sempre explicou para a KGB (polícia secreta russa) que a sigla queria dizer ‘Dobryi den, tovarishi’ (bom dia, camaradas), ‘Detskii dramaticheskii teatr’ (teatro dramático infantil) ou ainda ‘Dom detskogo tvorchestvo’ (Casa de artes infantil). Nem precisa dizer que eles não convenceram muito né?

Então, no final dos anos 70, Yuri Shevchuk, um rapaz de Ufa, capita da Bashkiria (Bashkirtostão), uma das repúblicas centrais da então União Soviética, hoje parte da Federação Russa, resolveu criar uma banda de rock. Juntou uns amigos e criou a banda, gravando, em casa, o 1º álbum da banda, DDT-1. O curioso é que eles nem sabiam se era possível cantar rock em russo, por isso, viviam de covers dos Stones e dos Beatles. Mas o álbum saiu e Shevchuk resolveu participar de um concurso de um jornal em Moscou. Mandou três músicas. E ficou em 1º, 2º e 3º lugares. Foram ‘Inoplanetaryanin’, ‘Tchernoe solnse’ e ‘Ne streliai’.

Logo depois, vieram mais dois discos, algum sucesso em Moscou, muitas alterações na banda e a mudança para a então Leningrado. Mas, logo após, a KGB começa a perturbar Shevchuk: ele não conseguia mais emprego, os discos eram proibidos e os músicos, em função das sanções à banda, desapareciam. Mas nada parou o DDT: nessa época, Shevchuk conheceu o baixista Vadim Kurilyov e os guitarristas Nikita Zaisev (falecido em 2000) e Andrei Vasiliev, músicos de primeiríssimo nível.

Em 1988, veio o inacreditável e chocante álbum, ‘Ya poluchil etu rol´ (Eu recebi esse papel). Com músicas cortantes, impactantes e arranjos extremamente melancólicos e bem cuidados, o disco foi um enorme sucesso, muito em função também do momento político da URSS, que agonizava. Logo depois, vieram ‘Plastun’ e ‘Ottepel’, que foram esquentas para um novo álbum histórico, ‘Aktrisa Vesna’ (Atriz primavera). Com uma capa delicada e letras poéticas e incisivas, talvez seja o disco mais exitoso da banda. Tem hinos como ‘Dozhd´ (chuva), ‘V poslednyuyu Osen’ (no último outono), ‘Rodina’ (pátria), ‘Y tebya est syn’ (Você tem um filho), ‘Chto takoe osen´ (O que é o outono?), ‘Noch´ (noite) e ‘Aktrisa Vesna’ (atriz primavera). Foram 9 músicas e quase todas hits. Essas sete músicas são standarts da música popular russa e quase todo russo sabe cantar. Os clipes passam até hoje e são os cartões de visita da banda.

Depois vieram alguns discos ao vivo, compilações, outros álbuns históricos, como ‘Eto vsyo’ (É tudo), ‘Rozhdenyi v SSSR’ (nascido na URSS), ‘Metel´ avgusta (nevasca de agosto), ‘Mir nomer nol´’ (terra número zero). Isso até o ano 2000. Todos são álbuns bem diferentes, beirando a estranheza, mas interessantíssimos, com letras absolutamente inacreditáveis e muitos sucessos.

Em 2002 e 2003 – época que morei em Moscou – tive a chance de ver o lançamento dos discos ‘Edinochestvo’ (um trocadilho com solidão e saudade). Muito diferentes também, mas com 3 músicas que me marcaram muito: ‘Osenyaya’ (outonal), 1,80 cm e ‘Pokolenie’ (geração). Depois, uma turnê excepcional e dois discos ao vivo, com o nome ‘Gorod bez okon’ (cidade sem janelas). E, em 2005, o último disco antes de uma pausa, ‘Propavshii bez vesti’ (Desaparecido sem deixar pistas).

Lógico que as histórias se alongam, há tanto detalhe que eu sei e muitos ainda que não sei. Ver Shevchuk nos shows, dando entrevistas, escrevendo (seu livro ‘Zashitniki Troi’ [defensores de Tróia] é excepcional), é sempre uma experiência interessantíssima. Minha história com o DDT começou logo após entrar para a faculdade de Letras, em 1998, para estudar russo. Precisava aprender com músicas e era difícil achar alguma coisa que prestasse por lá. Comecei a conhecer gente pela internet, no Mirc, e todos eram unânimes: você precisa ouvir DDT. Óbvio que conheci e óbvio que não entendia patavinas no início. Mas perseverei e fui pegando o espírito da coisa. Lembro da primeira música que entendi de fato: ‘Rozhdenyi v SSSR’. Daí pra frente, foi música a música, letra a letra.

Mas o mais legal foi chegar em Moscou com muitas das letras decoradas e as músicas na ponta dos dedos, ao violão. Acho que muito da empatia que consegui lá, se deve ao DDT. E ainda cheguei bem perto de conhecer a banda, já que um amigo, organizador de shows, tinha fechado um concerto para Vladikavkaz no final de 002. Eu ia de ‘assistente’, já que eu era pratiacamente um roadie dos músicos de uma universidade, afinava instrumentos, montava palcos e tal. Mas o show acabou micando, depois duns ataques terroristas ao teatro de Moscou. Bom, valeu a intenção…

Aqui tem o que seria um top 10, pessoal, de músicas do DDT. Óbvio que estiquei para 12, 13, 14… Vale conferir, ouvir com atenção e, se conseguir, se ligar nas letras. Se precisar de ajuda em algo, tamos aí.

Ty ne odin

Osenyaya

Dozhd’

V poslednyuyu osen’

Chto takoe osen’

Rozhdenyii v SSSR

U tebya est syn

Mertvyi gorod. Rozhdetsvo

Ya poluchil etu rol’

Ni shagu nazad

Aktrisa Vesna

Pravda na pravdu

Pokolenie

Ya zavtra broshu pit’

Revolyusya

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