Novo tom: em vez de ‘nova eleição’, agora é ‘fora, Pútin’

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Como a gente bem sabe, no último sábado, o segundo protesto ‘за честные выборы’ (por eleições limpas, no nosso bom português), na avenida Sakharov, mobilizou ainda mais gente que o primeiro, de duas semanas atrás, na Praça Bolotnaya. No primeiro, dados oficiais davam conta de 25 mil pessoas, enquanto não-oficiais contaram até 50 mil. Agora, a polícia de Moscou contabilizou 30 mil, enquanto os organizadores estimam de 80 a 120 mil participantes.


Cамый массовый митинг в Москве прошел мирно

Sim, a discrepância entre os números é absurda, mas perfeitamente compreensível. De um lado, o governo tenta minimizar a mobilização popular, de outro, blogueiros e ativistas políticos nitidamente supervalorizam as ações – todas devidamente autorizadas pelo Kremlin, programadas e muito bem orquestradas.

'Por que entregaram o país à OMC antes das eleições?', diz o balão

Outra diferença entre os dois protestos está em sua motivação principal. Enquanto o primeiro exigia uma recontagem ou mesmo a realização de novas eleições, para o lugar do sobrenatural pleito de 4 de dezembro, desta vez os gritos e faixas da esmagadora maioria dos ativistas – que uniu monarquistas, comunistas, neofascistas e liberais – assumem um caráter abertamente antiPutin. Ou seja, já tem início na Rússia um período embrionário de rejeição popular forte e organizada ao atual premiê e virtual futuro presidente.

'Essa é sua linha de chegada, Vova'

Desde a saída das estações de trem e metrô – e eu vi inúmeros vídeos – a organização era exemplar, sobretudo para um protesto dessa magnitude. O medo de novos atentados, num local recheado de gente, fazia com que os policiais redobrassem os cuidados. Com o frio de muitos graus abaixo de zero, levantar as roupas ou tirar as camisas é inviável. Por isso, todos abriam suas bolsas e eram apalpados, enquanto os guardas – com a gentileza peculiar da polícia russa – solicitavam «Расстегните куртку, расставьте руки в стороны», abram os casacos, ergam as mãos lateralmente.

Distribuição de chá para amenizar o frio

Entre fitinhas brancas – símbolo da adesão aos protestos – e adesivos com lemas como «Вы нас даже не представляете», «Нас надули» и «Мы придем еще. Нас будет больше» (Vocês nem imaginam como somos nós, Nós viremos de novo e seremos ainda mais) podia-se arrumar até adesivos onde se lia «Чебурашка за честные выборы» (e eu quero um desses!), ou seja, Cheburashka por eleições limpas, para o qual seu criador, Eduard Uspenskii, teria dado autorização.

O que mais se leu, nos blogs, twitteres, facebooks e afins, foram as frases de afirmação e surpresa com o movimento: «Как же нас много…», «Вот это да…», «Сколько же здесь людей…», «Как в 1991-году» – como somos mutos, agora sim, quantas pessoas estão aqui! Tudo isso ao som dos discursos inflamados, que arrancavam palmas de todas as correntes políticas, inacreditavalmente.

Enquanto Putin e Medvedev conseguem o inconcebível, unir os diferentes pólos políticos em torno de um objetivo, um homem vai se destacando e se tornando um poderoso político a olhos públicos e no rastro das redes sociais, exatamente como num Big Brother: Alexei Naválni, o blogueiro que quer uma certa cadeira no Kremlin…

Aqui vão alguns dos slogans nos cartazes mais curiosos do protesto (que foram ‘juntados’ e vão ser o próximo post.)

«Hillary, I’m still waiting for my money!» («Хиллари, я все еще жду своих денег!»)
«Госдеп, имей совесть! Я работаю, а денег нет!»
«Ищу пункт выдачи Госдепом «небольших денежек»
«Волшебник, не трогай мой голос в марте 2012»
«Те, кто молчал, перестали молчать»,
«Коррупция – угроза нацбезопасности. А чем занимается ФСБ?»
«мам студентов»

Em São Petersburgo, a ‘outra’ capital do país, a estratégia foi outra. Em vez de um grande comício, como em Moscou, a ação foi fragmentada. Os protestos aconteceram em dois lugares ‘e meio’, também reunindo alguns milhares de insatisfeitos com a atual situação do país. Além das duas maiores cidades, protestos também aconteceram em outras centenas de localidades país afora, sempre com a mesma temática pacifista e, agora, de ‘Fora, Putin!’.

Bom, agora que já fiz meu apanhadão geral, que fiquei devendo, vou tentar fazer umas reflexões nos próximos posts. Será que tudo tem chance de mudar? Quem são esses opositores – e quem eles pensam que são? E os dados do protesto, quem são os manifestantes, o que eles pensam?

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