O Cáucaso, a Rússia e os ‘enviados de Deus’

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Tenho lido muitas análises, esses dias, sobre quais rumos o Norte do Cáucaso deve tomar na Federação Russa. Na maioria das vezes, são aqueles analistas que têm uma posição até interessante, mas são a favor da independência da Chechênia e contra a separação da Catalunia. Não dá, né? Pois bem. O Cáucaso – russo e não russo – é de uma complexidade ímpar no cenário mundial. Separar ou não, é secundário. A questão é como integrar.

No último sábado, o ‘chefe da casa civil’ da Rússia e braço-direito do premiê Vladimir Putin, Vladislav Surkov, deu uma longa entrevista a um programa da República da Chechênia, o ‘Dialogi’ (Diálogos). Durante a conversa, o político russo não economizou expressões fortes para assegurar que o Cáucaso ‘é e sempre será’ parte da Rússia. ‘Mesmo que, que Deus proíba, pessoas tenham esses planos separatistas, eles devem saber que o Cáucaso Norte sempre será parte do país gostem ou não. É parte de um território histórico comum’, garantiu.

É fato que as razões históricas da união de cada uma das repúblicas da região (Adygea, Karachay-Cherkessia, Kabardino-Balkaria, Ossetia do Norte-Alania, Ingushétia, Chechênia e Dagestão, além da polêmica Ichkeria), são diferentes. Anexações à força e atendendo a pedidos de políticos – que visavam a proteção do estado russo – estão marcadas na história de cada uma das pequenas, mas seculares, repúblicas.

Cada uma goza de certa autonomia – têm presidentes, parlamentos, línguas e bandeiras -, mas todas estão inseridas dentro do contexto federativo da Rússia. A Chechênia, caso mais emblemático da região, já teve sua época de ser ‘dor de cabeça’ para o Kremlin. Grozny hoje goza de certa estabilidade, registra crescimento econômico e há muito vive em certa paz. Ainda é marginalizada dentro da Federação? Sim. Mas a tendência é muito mais de integração, a despeito dos movimentos de extrema direita que ganham força na Rússia.

Surkov, na entrevista à TV chechena, é sempre direto: ‘Nós não podemos abrir mão desse exército de pessoas na competição internacional. Nós precisamos do Cáucaso, tenho certeza. E, se tivermos que pagar por ele, não só no sentido financeiro, bom, nós temos que pagar por tudo. A vida é assim’.

O político ainda exagerou na puxação de saco, dizendo que Kadyrov – o presidente checheno – e Putin foram ‘enviados por Deus para guiar seus povos para longe do desastre’. Certamente, os chefes gostaram. Mesmo que ele tenha medido palavras para definir quem é contra um Cáucaso unido: os chamou apenas de “глупые, провокаторы и глупые провокаторы” – tolos, provocadores e tolos provocadores – quando a gente sabe que ele queria dizer coisas bem piores…

Dá uma espiada na entrevista. Que, aliás, é uma ótima para você dar uma desenferrujada no seu russo!

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