O sonho da Rússia começa a desmoronar

3
113
views

O caldeirão russo, enfim, entornou. Desde o último dia 10, brigas em massa, conflitos com policiais, protestos, vandalismo, agressões gratuitas e justiça pelas próprias mãos parecem ter dominado as principais cidades russas. Moscou, São Petersburgo, Ryazan, Volgograd… O cenário parece ser o mesmo para onde quer que se vá. A receita? Uma tensão étnica, um governo omisso com o crescimento da xenofobia, justiça que não funciona, violência e uma migração descontrolada.

Apesar de tudo já estar se encaminhando para esse cenário há anos, o estopim para a detonação dessa bomba social foi o assassinato do engenheiro e torcedor do Spartak Egor Nikolaevich Sviridov, no último dia 6 de dezembro. Egor tinha 28 anos e morreu baleado após uma briga com um grupo que seria natural do Cáucaso norte – região que faz parte da Federação Russa, ao sul do país – sendo o acusado do crime da Kabardino-Balkária, e os outros, do Daguestão.

Além do crime – e, obviamente, do fato de o assassino ser do Cáucaso -, causou indignação a libertação do acusado, no entender de muitos, absolutamente normal, visto que parece não ter havido flagrante.

Nos dias que se seguiram, houve uma imensa mobilização entre torcidas de futebol, grupos políticos, ativistas e do povo em geral – dentre todos esses, lógico, alguns que simpatizam com movimentos de extrema-direita e tendem à xenofobia. Com isso, no último sábado, dia 11, mais de 10 mil pessoas se reuniram no Centro de Moscou, nas praças Manezhnaya, Vermelha e entornos, para protestar e pedir justiça para o assassinato de Sviridov.

A movimentação começou na Bulevard Kronshtadskii e, naturalmente, milhares de pessoas começaram a se reunir no coração da capital russa. Em princípio, tudo ia bem, em calma. O frio intenso de cerca de menos cinco graus não impediu a enorme concentração de pessoas. A polícia e o OMON – a tropa de choque da Rússia – observavam, prestes a entrar em ação. É claro que, em um bando de milhares de manifestantes, havia um grupo exaltado, que começou a xingar a polícia. E eis que a mesma entrou em ação, dando início ao que se chama de ‘sábado sangrento’. Dezenas de feridos, um morto e um policial em estado grave, além de uma nação eletrificada pela tensão do conflito.

A fotoreportagem que reproduzo abaixo é do blogueiro Ilya Varlamov. Clica que tem muito mais lá no blog dele.


Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

A partir daí, criou-se uma onda de pânico. Pela internet, rádio e TV, o conselho era: evitem sair de casa. Evitem o metrô. Evitem o centro da cidade, seja ela qual for. A qualquer momento, uma nova manifestação poderia começar e acabar.

De seu lado, os imigrantes do Cáucaso também resolveram se organizar. Em uma carta amplamente difundida, um blogueiro convoca todas as nações do Cáucaso (chechenos, dagestanis, kabardino-balkários, ossetas, georgianos, ingushes, armênios, azerbaijões…) a esquecerem as diferenças e se unirem pela defesa de seus direitos: ‘Nós vivemos aqui, trabalhamos, conversamos com todos, temos amigos de origem eslava. Mas até quando deveremos ser culpados por todos os pecados e problemas daqui?’

E o blogueiro defende ainda o suposto assassino de Sviridov, o checheno Aislan Cherkisov: ‘O que acontece quando te atacam pelas costas? O que acontece quando bêbados fanáticos, porcos congelados, partem pra cima de você? Se você tem uma pistola, é natural que vá se defender. Agora, eles armam esses ‘atos pacíficos’. E é claro que o objeto de atenção desses atos pacíficos seremos nós, caucasianos’.

Não sou russo, nem caucasiano, mas tenho logicamente grandes amigos dos dois lados. Conheço o Cáucaso – e conheço bem – e sei que são povos complicados. Mas também são amistosos além da conta. Se há uma migração descontrolada em direção, sobretudo a Moscou e Petersburgo, acontece em função da política do governo, de exclusão e sufocamento da região. Se são localidades subdesenvolvidas e pobres, obviamente, seus moradores vão migrar para onde haja maiores possibilidades de uma vida melhor. Exatamente como acontece aqui, no Brasil. Mas com um desequilíbrio gigantesco no fluxo, uma crescente onda de terrorismo e medo, e uma necessidade de auto-afirmação, a tendência é que realmente isso acabe em sangue.

Como conheço o Cáucaso, sei que muitas vezes os russos étnicos são discriminados em muitas localidades. Vivem com medo e são os primeiros a deixar o local em caso de tensão. Se é um ciclo vicioso, russos x caucasianos x russos, é provável. Mas o que se vê em Moscou é simplesmente uma busca de equilíbrio – de uma maneira equivocada. Falar em ‘Rússia nazista’, ‘Rússia xenófoba’, ‘Rússia fascista’, é simplificar o problema. A forma com que o governo lida com o Cáucaso é equivocada: não dá independência, não integra e não estimula a convivência. Deixa tudo como está. E, como estamos vendo, do jeito que está, não vai mais ficar.

Para tentar deixar uma reflexão, cito o blogueiro que lembrou do filme ‘Avatar’, como paralelo para a situação – e que mostra que os russos realmente têm nos caucasianos o principal culpado para uma suposta ‘degradação’ do eslavismo. No filme, o planeta Pandora é habitado pelos Na’vi. Os homens, chegando lá, querem as riquezas de Pandora, e para isso estão dispostos a aniquilar os Na’vi. Entretanto, a raça local se insurge e vai para a guerra. Sob o mote ‘Pandora é nossa. Vamos expulsar os invasores’. Qualquer semelhança de ‘Pandora para os Na’vi’ com ‘Rússia para os russos’ não é mera coincidência.

Como se muda isso? Talvez um misto de menos migrantes, desenvolvimento do Cáucaso, concessão de maior autonomia às regiões e uma massiva campanha de inclusão social dos imigrantes.

Agora, toda e qualquer agressão a negros, latinos, árabes, russos-asiáticos e orientais é sim, uma demonstração gratuita de nazifascismo da Rússia. Como a que aconteceu no domingo, quando um rapaz de uma das repúblicas da Ásia Central foi brutalmente espancado até a morte por um grupo de 15 russos. Isso sim, é nazifascismo gratuito.

3 COMENTÁRIOS

  1. É o tipo de notícia que me faz doer o coração. São tantos os motivos que nem sei por onde começar. Bom, acho que vou começar pelo medo que isso tudo me infunde, posto que eu mesmo alimento sonhos de estudar na Rússia um dia. Porém diante de notícias como essa sou forçado a admitir para mim mesmo que, com minhas feições fortemente mediterrâneas, indícios de sangue árabe, eu pareceria carregar uma placa anunciando a todos esses fanáticos: “Me batam! Me batam!” Não que isso me faça desistir, porém me faz temer. Outra dor que tenho é que vivo defendendo a Rússia daqueles que a encaram com preconceitos, mas aí me vem uma dessas e fico sem palavras. E outra dor é aquela proveniente da aflitiva experiência de assistir um completo absurdo sem poder fazer nada. O racismo é tolo por si só. Ver um país que no passado foi arrasado pelas hordas fascistas, cujo povo era considerado por Hitler uma mera massa ignara destinada a ser escrava do Reich, adotando semelhantes ideais é ainda mais desconcertante. Em resumo, espero que tudo isso passe logo. Este mundo está… podre.

    Encerro com as palavras de Yevtushenko em “Babi Yar”:
    О, русский мой народ!
    – Я знаю – ты
    По сущности интернационален.
    Но часто те, чьи руки нечисты,
    твоим чистейшим именем бряцали.

    Possa haver justiça. A verdadeira justiça.

  2. Realmente uma tristeza, e ainda tem russos que acham que aqui no Brasil somos mais violentos. A violencia não estã em uma cidade , ta no mundo todo e no ser humano.

    ” estive na Rússia recentemente e não fui maltratado, mesmo tendo cor morena e traços afro indígenas e árabes, acredito que se você parece com árabe branco poderá ser parado no metro” mas nada além disso.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here